Amália actuou nas Caldas, em Óbidos e gravou um filme francês na Nazaré, entre as décadas de 1950 e 1970. A fadista que confidenciou que teve cá um namorado, actuou no Casino, repleto de gente. Em troca recebeu “12 contos e uma garrafa de whisky”.

Amália Rodrigues, cujo centenário de nascimento se assinalou recentemente, cantou nas Caldas
no Casino local, onde se apostava num programa de variedades. O concerto decorreu a 3 de Setembro de 1971 e quem a recebeu foi José Augusto Silva, o único elemento que resta da direcção daquele espaço caldense.
Tem 92 anos, pertenceu à direcção do Casino das Caldas que funcionou no edifício que, após a revolução, acolheu a Casa da Cultura. Foi director do Casino durante cinco anos, partilhando as responsabilidades com Carlos Saudade Silva, Rogério Caiado e Eduardo Mendoça.
Naqueles últimos anos, o Casino funcionava todos os dias mas o programa de animação era mais forte no Verão e sobretudo aos sábados em que havia um programa de variedades. Nos restantes dias, havia uma pequena orquestra que animava os serões daquele espaço que era frequentado pela classe média local.
“Trabalhávamos com o senhor Vítor Resende, agente que residia em Lisboa, que nos trazia os artistas para actuar nas Caldas”, recordou José Augusto em conversa com a Gazeta das Caldas. O responsável lembra-se bem de vários pormenores relacionados com a vinda da fadista.
“Amália veio ganhar 12 contos e uma garrafa de whisky”, recordou. José Augusto relembrou que a cantora chegou à tarde e dirigiu-se ao Casino, acompanhada pelo empresário lisboeta, Vítor Resende. “Eu estava de serviço e vim recebê-la”, disse José Augusto Silva.
Amália confidenciou-lhe, ainda, que, quando tinha 18 ou 19 anos, a fadista vinha muito às Caldas “pois tinha cá um namorado”. Além do mais, partilhou com aquele responsável que os minutos que antecediam os concertos, sobretudo os que fazia no estrangeiro “estava sempre muito nervosa”.
José Augusto assistiu ao ensaio de Amália e constatou que a fadista era exigente com os guitarristas. Também verificou porque é que a garrafa de whisky fazia parte do contrato: “a cantora durante o ensaio ia-o bebendo, em pequenos goles, nos intervalos das canções”, relembrou José Augusto a quem a cantora fez um último pedido. Se ele, por favor, lhe arranjava alguém para lhe passasse o vestido com que ia actuar nessa noite no Casino caldense. José Augusto Silva constatou também que a fadista se benzia antes de começar a cantar. Neste serão, nas Caldas da Rainha, a fadista cantou vários êxitos, entre os quais “Lágrima”, “Gaivota”, “Coimbra”, “Foi Deus”, “Casa da Mariquinhas” e “Cochicho”. O Casino acolheu o concerto da fadista – acompanhada por três guitarristas – e contou com casa cheia. Segundo o responsável o bilhete terá custado no máximo 15$00. O Casino caldense fechava à uma da madrugada e a maioria das pessoas deslocava-se ao café Zaira que só fechava às duas da manhã.

Nas oferendas da Misericórdia de Óbidos

A fadista actuou em Óbidos em finais da década de 1960, tendo feito parte do programa do cortejo de oferendas da Misericórdia que se fazia naquela época no mês de Setembro. “Eram organizadas por João Lourenço e Maria das Dores Ferreira da Silva, da Quinta do Pego”, disse Carlos Orlando, explicando também que do programa de variedades fazia sempre parte actuações de grupos locais e também dos artistas mais importantes da época.
Segundo o obidense, que era miúdo na época, a fadista foi uma das artistas que chegou a actuar no programa de variedades. Recorda-se que ela “cantou pelo menos umas 15 canções, entre fados, marchas e folclore. Cantou duas ou três em espanhol”.
As actuações tinham lugar no campo de futebol de Óbidos e onde chegaram também a cantar outros artistas como Madalena Iglésias, Simone de Oliveira, António Calvário. Maria da Fé e Vasco Santana. Este último trouxe pequenas representações teatrais.
Carlos Orlando, actual provedor da Misericórdia de Óbidos, recorda que estes espectáculos eram assistidos por pessoas de maior estatuto social que pagavam bilhete para poder assistir. O povo ouvia os seus artistas favoritos, do lado de fora dos espaços de actuação.
Era também no campo de futebol que se instalavam as barracas das freguesias obidenses, e onde se vendiam os seus produtos como batatas, feijão, frutas e vinho, recordou Carlos Orlando. Os produtos agrícolas que se produziam naquelas freguesias eram transportados por cavalos e por vacas.

Filmou na Nazaré

Amália foi, também, uma grande figura do cinema e esteve na região para participar nas gravações de um filme francês. A diva cantou três temas em “Os amantes do Tejo”, de 1955, de Henri Verneuil, perante o olhar atento dos pescadores e das peixeiras. Amália Rodrigues interpreta… Amália, numa película que estreou em Portugal ainda antes de ser vista em França. O Olympia ainda estava para se render à diva.