A obidense Elisabeth Rocha dedica-se à pintura corporal (body painting) há uma década. Trata-se de uma espécie de segunda pele feita de tinta. Recentemente, a artista participou no World Bodypainting Festival, o evento de referência na área, sendo a única participante de Portugal entre os mais de 600 inscritos no concurso. “É satisfação pessoal por poder fazer algo criativo, performativo e efémero”, disse à Gazeta das Caldas.

Em 2007 e com a aproximação do Europeu de futebol na Áustria e Suíça, as crianças dos jardins de infância de Óbidos começaram a pedir pinturas faciais, sobretudo bandeiras com as cores de Portugal. Elisabeth Rocha trabalhava no serviço educativo do município e, confrontada com estes pedidos, decidiu tirar uma formação em maquilhagem profissional. Foi quando teve o primeiro contacto com esta arte, que aprimorou na Áustria, com a participação no World Bodypainting Festival, um grande evento que integra formação com os maiores artistas da área e concursos diferentes categorias.
“É um país onde o body painting está muito mais implementado”, conta Elisabeth Rocha, destacando que além de não serem preconceituosos, têm uma cultura de muito respeito pelo corpo humano. Durante uma semana teve formação em pintura facial e corporal, em efeitos especiais para cinema ou teatro, e acessórios para a cabeça e depois assistiu aos concursos. A artista voltaria ao festival em 2010 e continua a acompanhar os professores austríacos, e alguns italianos, que são referência na área.
Criativa por natureza, a obidense encontrou na pintura corporal uma forma de extravasar este seu talento e de poder interagir com as pessoas. Por outro lado, fascina-a o facto de “ser efémero”.
Em 2011 foi pela primeira vez à televisão, ao programa Portugal no Coração, fazer uma demonstração do primeiro evento de body painting nas Caldas, que estava a ser promovido no centro comercial Vivaci e, no ano seguinte, participou com a sua arte performativa no Festival do Chocolate. Vem daí a relação com as modelos que continua a pintar: Filipa Abrantes e Filipa Duarte Vinagre.
“Houve sempre muito respeito e essa era uma preocupação, até porque elas eram menores e as mães assinaram um termo de responsabilidade em como não se importavam que expusesse os seus corpos”, explica.
Quando começou a fazer body painting havia tanto preconceito que a artista tinha que pintar as modelos com o soutien vestido. E nunca pintou nús completos, ainda que tenha sido várias vezes aliciada para o fazer. “Nunca quis que a minha arte fosse associada a coisas pornográficas, mas que fosse vista com respeito. Julgo que a pouco e pouco as pessoas foram entendendo que trato isto com muito respeito, porque nunca viram nada meu ligado a coisas obscenas”, sintetiza.
As modelos não podem ter cremes na pele para serem pintadas. A artista pinta-as da parte superior durante a manhã para que depois se possam alimentar e estar à vontade, e depois do almoço começa a pintar da parte inferior do corpo. Uma pintura corporal demora uma média de 6 a 8 horas a fazer e tem a particularidade de ser efémera. Elisabeth Rocha também tem pintado rapazes, mas cria a sua arte sobretudo nos corpos femininos. Ultimamente tem optado pela sua área de conforto, só pintando pessoas que conhece bem.

ÚNICA PORTUGUESA ENTRE 600 ARTISTAS

Nos trabalhos que cria tenta passar sempre uma mensagem positiva, não mostrando interesse em fazer “coisas horrendas” no corpo das pessoas. Elisabeth Rocha quer, pelo contrário, que “vistam coisas bonitas, que se sintam fantásticas”.
No festival, em que participou no início do mês, realizou duas intervenções artísticas, uma na categoria World Award Facepainting, com o tema “Wonder of Nature”, onde se dedicou aos Mares e Oceanos, pintando conchas e pássaros no rosto de Filipa Abrantes, das Caldas da Rainha.
Já a pintura corporal feita na modelo Filipa Vinagre, do Bombarral, teve por temática o Circo Psicadélico e para a criar inspirou-se nas pessoas que dão vida aos palhaços, tendas coloridas. Já o chapéu é inspirado na banda Dead Combo, que estava a ouvir na altura.
“A inspiração para o trabalho tem a ver com o meu gosto pessoal, investigações e influências”, explica a representante de Óbidos que concorreu com mais de 600 artistas, de 55 países.
Esta foi a primeira vez que o festival decorreu em formato virtual e que Elisabeth Rocha concorreu nas categorias profissionais. A organização destacou o seu trabalho e o facto de ter sido a única portuguesa a ter concorrido.
Apesar de conhecer várias pessoas na região que também fazem pintura corporal, a artista obidense destaca que esta é sempre feita como passatempo, pois não é devidamente remunerado. “É um trabalho que se faz um bocado por carolice e por satisfação pessoal porque o retorno não existe”, salienta a pintora que também se dedica a outras actividades artísticas.
Ainda há pouco tempo, juntamente com alunas, fez um mural no ginásio que vai abrir no complexo desportivo de Óbidos e está a preparar uma intervenção para a Junta da Amoreira, também com jovens. Elisabeth Rocha também colabora com Sérgio Pereira, responsável do rancho folclórico e etnográfico “As Ceifeiras” da Fanadia, na preparação dos carros alegóricos no Carnaval, pintura dos fatos e maquilhagem dos participantes.
Outra actividade que mantém é arte gestacional, que consiste na pintura na barriga das mulheres grávidas. “A base é sempre a mesma, a relação com as pessoas”, conclui Elisabeth Rocha que, a nível profissional, exerce funções de atelierista no serviço educativo municipal de Óbidos.