A pintura mural feita por Hansi Stael, em meados da década de 50, na fábrica Secla, está agora recuperada e, em breve, poderá ser apreciada pelo público no pórtico que reproduz a fachada da Secla e que fica nas imediações do Parque D. Carlos I. A recuperação desta obra esteve a cargo da conservadora Arlinda Ribeiro e da artista plástica Margarida Dias Coelho. A conservação e manutenção desta pintura da Secla – unidade industrial caldense que chegou a ter perto de mil funcionários – foi negociada pela Câmara como contrapartida com os promotores da empresa construtora do hipermercado Continente e do futuro hotel.

Hansi Staël (1913-1961) foi directora artística da Secla entre 1950 e 1959 e viveu nas Caldas naqueles anos. A artista nasceu em Budapeste, estudou em Viena, casou em Estocolmo e veio para Portugal em 1946. Em terras lusas, desenvolveu trabalhos artísticos na pintura, na cerâmica, ilustração, vidro e nas artes gráficas. A autora, conhecida como Madame Staël veio para as Caldas a convite de Ponte e Sousa, sócio maioritário da Secla, com quem travou conhecimento em Lisboa no Atelier de João Fragoso. O escultor, que era caldense, tinha uma atelier de cerâmica em Lisboa.
A artista e designer teve um papel muito importante nas Caldas, tendo inovado a cerâmica local. As novas pinturas que fazia nas colecções da Secla, tiveram grande aceitação para clientes de países como EUA, Inglaterra, Alemanha, Suécia, África do Sul. E foi em meados da década de 1950 que fez, dentro da fábrica, uma grande pintura mural que reflecte as várias fases de trabalho cerâmico, ou seja, onde pintou cenas relacionadas com a modelação, a enforma, o laboratório, a desenforma e a embalagem das próprias peças. Originalmente estava numa zona de mostruário da fábrica, num showroom da Secla e que, mais tarde, deu lugar a uma zona de escritórios. O problema é que a pintura estava muito degradada, pois esteve exposta ao ar livre e às condições climatéricas. Tendo em conta a importância deste grande trabalho mural, a autarquia negociou a sua recuperação com a empresa promotora, a Prime Unit – Construção e Imobiliário SA, que se comprometeu e manter um pórtico com parte da fachada da fábrica, com a inscrição “Secla” no design original, onde está este painel. Aquela área será um espaço de galeria que quando for entregue à Câmara, passará a ser gerida pelo Centro de Artes.
Ao longo de nove meses, a conservadora Arlinda Ribeiro trabalhou na recuperação deste painel que precisava de urgente intervenção e cuja preservação levou, inclusivamente, à mudança do plano original para o pórtico.
“Foi um grande desafio e um risco, mas correu tudo bem”, contou a restauradora, que tem feito trabalhos em Portugal e no estrangeiro. Foi uma das responsáveis por parte do espólio do Museu Leopoldo de Almeida, no Centro de Artes.
Para se conseguir recuperar a totalidade da pintura foi preciso um trabalho de “recorte” dos fragmentos da parede, muito fragilizada, e executar posteriormente um trabalho de montagem de puzzle.
Depois, foi necessário proceder a trabalhos de retoque e de união das diferentes áreas, tendo sido realizado um trabalho em aguarela. Para essa tarefa, a restauradora contou com a colaboração da artista plástica e pintora Margarida Dias Coelho que conhece bem a obra de Hansi Staël.
José Antunes, responsável pela área da Cultura da autarquia, referiu também que a pintura mural possui uma matriz neorrealista onde se exalta o trabalho operário. “Trata-se de um retrato da empresa, uma grande pintura corporativa onde se ilustram as várias fases de trabalho”, salientou o técnico.
Arlinda Ribeiro e José Antunes sublinharam também o papel importante que esta artista teve nas Caldas, sendo mulher e directora artística de uma das suas empresas de referência. Foi responsável pela renovação do património cerâmico e artístico local. Em Maio de 2016, foi feita, no CCC, uma exposição sobre a obra da artista húngara, organizada também pela filha da artista, Ilona Staël Thykier e que contou com a presença da embaixadora da Hungria em Portugal na época, Clara Breuer.