“Seria importante um executivo sem maioria absoluta”

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Depois de, há quatro anos, o CDS-PP ter registado o pior resultado de sempre em Óbidos, o partido concorre com Patrícia Silva, que se tornou militante há cerca de um ano. A professora do ensino básico, natural da Nazaré, reside no concelho há 27 anos e corporiza uma candidatura alternativa ao status quo

O CDS-PP vai a votos em Óbidos, com dois objetivos centrais: participar no próximo mandato autárquico com propostas concretas e recriar a estrutura local de um partido que, há quatro anos, obteve 1,61% dos votos para a Câmara.

Candidata do CDS-PP em Óbidos apresenta prioridades para o próximo mandato autárquico, apontando as questões sociais como um ponto essencial de ação

O que a leva a enfrentar um desafio autárquico sem ter tido anteriormente qualquer experiência nestas lides?
Apresento a minha candidatura à Câmara de Óbidos com o intuito de colaborar com propostas que possam ir de encontro às necessidades dos obidenses. Há coisas que devem ser alteradas no concelho e estamos convictos de que podemos contribuir para alterar o estado de coisas.

E que propostas concretas tem o CDS-PP para o concelho?
Óbidos não se pode resumir às muralhas. Vivo na Gracieira e sinto o pulsar da população, que tem dificuldades para se deslocar à vila para resolver assuntos. Há problemas de mobilidade no concelho e também de acessibilidade a alguns serviços públicos, que são pouco amigos de quem tenha mobilidade reduzida. Queremos colmatar estas dificuldades. Mas é no que diz respeito aos serviços de saúde que residem as nossas maiores preocupações. Faltam médicos de família nas freguesias, na vila e um Centro de Saúde em Óbidos que tenha condições dignas para a população. O que pretendemos é que seja possível haver alternativas ao nível dos cuidados de saúde primários. Depois, temos de ter em conta questões concretas, como o estacionamento na vila. Defendemos que os obidenses tenham condições preferenciais de acesso aos parques de estacionamento, pois não faz sentido que paguem tanto como os turistas para estacionar quando vão tratar de assuntos aos serviços.

Mas relativamente à saúde, essa não será um problema para o Estado resolver?
Claro que sim, mas cabe à Câmara fazer pressão para que se resolva. Esta não é uma situação de agora, é preciso olhar para trás e perceber como se atingiu este ponto de degradação nos cuidados de saúde primários. Temos de procurar assegurar a substituição dos médicos e pressionar o Ministério da Saúde. A população não pode continuar a ser abandonada.

E que solução preconiza? Há candidaturas que defendem a contratação de um médico municipal, outros exigem a construção de uma nova Unidade de Saúde Familiar…
Concordo com ambas as soluções, mas há outros aspetos essenciais e que urge resolver. O Centro de Saúde de Óbidos não tem condições mínimas e é preciso chamar a atenção para este facto, exigindo à tutela uma solução concreta. Mas dou mais um exemplo do que é, para nós, prioritário ao nível da saúde: a autarquia tem de criar condições para ajudar os munícipes na aquisição dos medicamentos. É fundamental ter uma ligação às aldeias e à população. Nesse sentido, apresentamos uma proposta que visa a criação de uma Biblioteca itinerante, que tenha um técnico de informática que possa prestar auxiliar a população que sente mais dificuldades com as novas tecnologias. Temos de estar ao lado das populações e criar ferramentas que ajudem, sobretudo, os mais idosos.

“Precisamos recuperar o partido a nível local. Esse é um trabalho que não se faz de um dia para o outro”

Patrícia Silva

Há quatro anos, o CDS-PP não passou dos 1,6% em Óbidos na votação para a Câmara. Além disso, não elege vereadores desde 1976. É possível inverter esse cenário? Mesmo com uma candidatura apresentada em cima da hora?
É para isso que estamos a trabalhar. Queremos limpar a imagem que o partido apresentou no concelho e que levou a uma votação residual em 2017. Temos noção da realidade política do concelho, mas estamos imbuídos de um espírito de encontrar as melhores estratégias no sentido de chegar à população de Óbidos e afirmar o partido como uma verdadeira alternativa. Mas este trabalho só faz sentido em conjunto. Queremos colaborar com as outras forças políticas e limpar, de certo modo, essa mancha branca nas últimas eleições. Nem podemos falar em mancha preta na história do CDS-PP em Óbidos, porque 1% é 1%! Temos de fazer uma viragem na presença do CDS no concelho.

Nunca houve tantas candidaturas autárquicas no concelho. Que significado político tem este dado?
Se conseguirmos que sejam colocadas em prática algumas das propostas que apresentamos ao eleitorado já será positivo. Volto a dizer que temos noção da realidade, mas acredito que podemos ter um bom resultado no próximo dia 26. Temos outra dificuldade, que é o facto de não termos lista à Assembleia Municipal e às Juntas, mas apresentamos caras novas e queremos trabalhar já a pensar em 2025. Sabemos que as coisas não vão mudar de um dia para o outro em termos políticos no concelho, mas vamos trabalhar no sentido de construir uma alternativa ao longo do mandato. Precisamos recuperar o partido a nível local. Esse é um trabalho que não se faz de um dia para o outro.

 

“A monarquia em Óbidos acabou há muito tempo. Não se percebe esta sucessão quase monárquica”

Patrícia Silva

O PSD está no poder há 20 anos. Como classifica este ciclo? Acredita que o CDS-PP pode retirar votos ao PSD?
O que posso dizer é que perpassa a imagem de algum nepotismo no concelho. É isso que se comenta. Apetece dizer que Óbidos é medieval, mas a monarquia acabou em Óbidos há muito tempo e, por isso, não se percebe este tipo de sucessão quase monárquica. Tem de haver mais participação de outros ideais políticos no concelho. Falta diálogo entre as forças políticas e isso é prejudicial para a democracia. Há uma sensação de medo entre os obidenses, parece que as pessoas têm receio de criticar a Câmara, porque podem ser prejudicadas. Seria importante que o próximo executivo não tivesse uma maioria absoluta, pois isso obrigaria a um entendimento entre as forças políticas.

Como resolver os problemas da Lagoa de Óbidos?
Esse é outro mistério, mas considero que as maiores responsabilidades são do Estado. Não acredito que alguém que se preocupe tanto com o turismo e o ambiente deixe arrastar este processo tantos anos. O Estado tem de se definir quanto ao que pretende fazer na Lagoa.

Como olha para as contas da autarquia?
É evidente que sofreram um abalo importante nos últimos dois anos, devido à pandemia. Boa parte das receitas eram originadas pelos eventos e, por isso, é preciso encontrar outras formas de garantir receitas, por forma a evitar que sejam os munícipes a pagar a fatura.

Desde que foi extinta a Região de Turismo do Oeste a promoção destes concelhos ficou adstrita ao Turismo do Centro, que reúne uma centena de municípios. Faz sentido pensar numa estrutura regional para fazer este trabalho de promoção?
Óbidos tem tido grande projeção em termos de turismo, mas sobretudo no que diz respeito ao nível dos eventos. Mas onde é que está a divulgação do turismo religioso? E de outras áreas, como o turismo de natureza? Mas quando vemos a promoção feita pela Turismo do Centro da nossa região parece que só existem por cá praias.

E quanto à atividade cultural em Óbidos? Faz sentido manter o modelo de grandes eventos que acabou por ser travado com a pandemia?
É verdade que Óbidos tem levado a cabo muitos eventos interessantes a nível cultural e turístico e devemos manter esse caminho. Mas, e as aldeias? Ao nível da animação, devemos ter uma aposta mais fundada nos agentes locais. Não precisamos estar sempre a contratar artistas de fora, porque temos talento cá dentro. Os turistas apreciam os profissionais, mas também podem apreciar os amadores locais. É esse tipo de incentivos que ajudam a fazer a diferença. ■

Patrícia Silva é uma das surpresas no ato eleitoral no concelho

“Caldas e Óbidos têm andado muito tempo de costas voltadas”

Sinergias entre municípios são essenciais na visão da candidata do CDS-PP à Câmara de Óbidos

Considerando que Caldas e Óbidos “têm andado muito tempo de costas voltadas”, Patrícia Silva defende que os concelhos vizinhos devem trabalhar mais em conjunto. E dá exemplos. “O futuro Hospital do Oeste só faz sentido nas Caldas e os dois concelhos devem articular uma posição sobre este dossiê”, assevera a candidata do CDS-PP em Óbidos, lamentando que a rivalidade entre os concelhos tenha demorado “demasiado tempo” para ser dissolvida.
“Muitos obidenses trabalham na cidade e precisamos olhar em conjunto para questões como os transportes públicos. As sinergias são essenciais. Há todo o interesse no reforço destas ligações”, frisa a cabeça de lista dos centristas.
A única mulher a concorrer no concelho gostaria de ver Óbidos, dentro de uma década “mais desenvolvida” e que, até lá, “a ideia de monarquia no concelho desaparecesse e que os obidenses não tivessem medo”.

Patrícia Silva nota que a habitação na vila de Óbidos é “caríssima, muito por causa do turismo”

Sobre a desertificação da vila, afirma que Óbidos “é cara para os obidenses” e que, por isso, são necessárias medidas com larga amplitude para mudar o estado de coisas.
“A habitação na vila é caríssima, muito por causa do turismo. A Câmara tem de criar condições para fixar população na vila, com incentivos ao arrendamento e à compra de casa. É difícil mesmo para quem quer investir em Óbidos, porque os preços são exorbitantes. É necessário que a autarquia defina um regime de discriminação positiva para os obidenses que se queiram instalar na vila”, declara Patrícia Silva, elogiando, todavia, a “forma como a Câmara se tem debruçado sobre o cuidado do espaço público”. “Dou os parabéns à autarquia por essa preocupação. Seja para alegrar o visitante ou não, está feito”, refere a militante do CDS-PP, que valoriza, ainda, a aposta que o município fez na educação.
É com esta entrevista que a Gazeta das Caldas e a 91FM dão por encerrado o ciclo de entrevistas aos candidatos autárquicos dos concelhos das Caldas da Rainha e Óbidos nas eleições do próximo dia 26, que se prolongou pelos últimos dois meses.
Hoje, às 21h00, tem lugar o debate com os sete candidatos em Óbidos, na Casa da Música, para o qual as inscrições rapidamente esgotaram. Dentro de uma semana, no dia 16, será a vez do debate com os sete candidatos nas Caldas, que terá lugar no Grande Auditório do CCC e ainda tem lugares disponíveis. ■