O médico António Graça Silva, também major-general, destacou-se como comentador televisivo sobre a pandemia

António Silva Graça é infecciologista e tem explicado, na televisão, a pandemia aos portugueses. O médico, de 66 anos, é caldense, fez carreira nos hospitais militares e conversou com Gazeta das Caldas sobre a actual situação. Na sua opinião, há esperança em relação ao tratamento da covid-19, mas a vacina só estará disponivel em 2021

GAZETA DAS CALDAS (GC): Que comentário lhe apraz a situação actual que se vive nas Caldas e na região sobre a covid-19? Caldas está com mais de 60 casos e o Oeste com cerca de 300 activos, 800 casos confirmados e mais 400 recuperados… São números que dão que pensar?
António Silva Graça (ASG): Creio que a situação que se está a viver na região Oeste, em termos de situação epidemiológica, é uma situação similar à que se passa na região de Lisboa e Vale do Tejo, onde se registou um aumento de casos no último mês e meio.

GC: Mas como se explica este aumento de casos? Há características comuns entre as pessoas que apresentam agora a infecção?
ASG: Há um factor social importante, que tem a ver com condições de trabalho precárias e também com a falta de condições de habitabilidade. Quando analisamos os casos é possível encontrar pessoas que estiveram sempre a trabalhar e, que por questões sócio-económicas, não lhes foi possível estar confinados. Há muitas situações profissionais em que os trabalhadores não conseguem garantir o distanciamento físico adequado entre si. Como tal, a infecção acaba por se transmitir e as pessoas levam-na para os seus agregados familiares, o que torna mais difícil controlar a transmissão do vírus. Noutros casos, há trabalhadores que têm necessidade de mudar frequentemente de empregador e, não tendo condições da habitabilidade fixas, acabam por levar consigo a infecção. É um um problema social transversal e que está a atingir grupos mais vulneráveis, já de si precários, desprotegidos no que diz respeito aos direitos relacionados com as profissões que têm.

GC: Há mais aspectos em comum entre o que se está a passar no Oeste e na região de Lisboa?
ASG: Há outro factor comum e que é necessário intervir com a máxima urgência e que é a questão dos lares. Primeiro, é necessário perceber quem transmite o vírus a esta população mais vulnerável e que deveria estar mais protegida. As infecções podem chegar através dos cuidadores ou das visitas, que trazem a infecção da comunidade. É necessário que se estabeleça um Plano Estratégico Nacional para os lares e, sem dúvida, que é preciso apostar-se na testagem periódica e regular das pessoas que cuidam desta população mais vulnerável que, além da idade, já sofre com outros problemas de saúde.

GC: Os utentes dos lares devem ou não receber visitas do exterior?
ASG: Claro que têm que receber as visitas dos seus familiares. É indispensável que eles sejam visitados, agora é necessário diminuir o número de visitas. De qualquer modo, não podemos esquecer que os idosos necessitam de sentir a proximidade daqueles que lhe são próximos.

GC: Qual a sua opinião quanto ao surgimento de casos também nas creches?
ASG: Em relação às creches é necessário, através da avaliação epidemiológica, perceber de que forma decorrem as cadeia de transmissão: se foi dos funcionários para as crianças ou se já foi já entre os mais novos. Em relação à problemática destes locais, onde as crianças passam muito tempo juntas, não é sequer possível que estas compreendam que há necessidade de distanciamento…. Nem sempre é fácil para os adultos respeitar estes condicionalismos, quanto mais as crianças. As crianças não são imunes à covid-19. O que acontece é que apresentam formas clínicas mais leves – até inaparentes – e que podem até ser confundidas com sintomas de outros problemas de saúde mais comuns. Quando isto acontece, torna mais fácil a transmissão nos respectivos agregados familiares. Se as crianças se contaminam entre si, levam a infecção para as famílias e aí, se houver pessoas mais vulneráveis, como é o caso dos mais velhos, pode haver casos de contaminação.

GC: Na sua opinião, as autoridades locais têm agido de forma correcta?
ASG: Estes surtos surgem, em simultâneo, nas últimas semanas e é importante que não ganhem dimensão. Ou seja, a acção das autoridades locais deve ser rápida, de forma a que estes surtos, circunscritos a algumas regiões, possam ser contidos. Tratam-se de novas cadeias de transmissão que estão relacionadas com o reabertura das instituições, que eram expectáveis, mas que é importante manter sob controlo. É, de facto, mais difícil controlar a situação quando há infectados assintomáticos, o que torna muito árduo o trabalho necessário ao controlo destes focos.

GC: Quais são os maiores desafios que apresenta esta pandemia?
ASG: Há que perceber que há nesta pandemia há um grande desafio epidemiológico. Por um lado, há uma grande e fácil transmissibilidade do vírus. Basta a proximidade e a falta de protecção junto de alguém infectado com quem se esteja a falar para que possa existir transmissão. O outro aspecto é que grande parte das infecções – cerca de 40 a 45% – é feita por pessoas assintomáticas. Há uma pequena percentagem – de cerca de 10% – que ainda vai desenvolver sintomas e que são os pré-sintomáticos. O problema é que há muita gente sem sintomas que transmite a doença aos outros.

GC: Considera que deveriam ser feitos mais testes à população?
ASG: Relativamente à questão dos testes, foi definida uma estratégia para o nosso país que implica que a testagem seja feita de forma significativa, algo que não existiu no primeiro mês da pandemia em Portugal. A testagem é importante, mas deve ser feita de forma dirigida. Não se pode testar por testar. Ela é mais rentável se for utilizada quando se descobrem os casos de infecção e serve-nos sobretudo para testar os contactos de proximidade e para identificar as cadeias de transmissão.

GC: Em relação a Lisboa e Vale do Tejo, como classifica o trabalho das autoridades locais de saúde, que tem sido muito contestada?
ASG: A actividade que é responsável pela actividade de testagem, vigilância e identificação dos casos, e que está sob a responsabilidade da saúde comunitária e pública, está a ter dificuldade em acompanhar a situação que agora se constata na região metropolitana de Lisboa. Trata-se de uma situação de excepção e que implicava encontrar uma solução de excepção, algo que não aconteceu…

GC: Em concreto, esta situação preocupa-o?
ASG: Sim, preocupa-me, pois este recrudescimento de casos já se constata há um mês e meio e, tal como num foco de incêndio, devemos tentar contê-lo assim que este começa. Quanto mais tempo passa, mais difícil se torna o controlo dos surtos. Preocupa-me igualmente que o número de casos continue a aumentar quando, na verdade, a situação já deveria estar controlada. E isto está a acontecer pois a infecção está radicada na comunidade e está a ser mais difícil identificar todos os casos das cadeias de transmissão. Ainda há poucos dias falávamos de cinco concelhos da área metropolitana de Lisboa com mais problemas, mas creio que não podemos colocar apenas o foco nestas zonas, pois o risco é de facto transversal. De qualquer modo, não podemos ser alarmistas, dado que quando se inicia um processo de desconfinamento há sempre um acréscimo de casos. É preciso estar atento e continuar o trabalho de isolar, testar os contactos próximos e confinar os casos de infecção.

GC: Como viveu a experiência de comentar, diariamente, a pandemia no Telejornal, na RTP1?
ASG: Em termos pessoais, foi muito interessante dado que nunca tinha vivido essa experiência televisiva de uma forma tão regular, com obrigação e com uma exigência permanente. Já tinha sido convidado em várias ocasiões, mas de forma pontual. Foi um desafio inesperado, que aceitei com o propósito de prestar algum serviço público. Foi nessa perspectiva que o fiz e foi uma óptima experiência, muito feliz. Mas que também foi muito exigente. Foi também uma experiência que contribuiu positivamente para o reforço das relações humanas com as pessoas com quem trabalhei e senti-me integrado na equipa com quem trabalhei na RTP.

GC: Sentiu o peso da responsabilidade de tentar esclarecer o país sobre a infecção? Sentiu que tinha um papel de descodificador em relação ao novo coronavírus?
ASG: Foi uma grande responsabilidade, que muito apreciei e de facto no início não tinha consciência total disso. Mas em contacto com as outras pessoas, apercebi-me da importância dos meus contributos. Dei conta que era importante e necessário esclarecer as pessoas sobre o novo coronavírus, do qual não se sabia tudo. Por outro lado, sem dar por isso, estavam passadas sete semanas, comigo sempre a comentar a situação relativa à pandemia em Portugal. Olhava para a imprensa estrangeira, informava sobre o que se ia passando e tentava explicar situações que achava que era importante divulgar e até desmontar no que diz respeito às mais variadas questões relacionadas com esta infecção.

GC: Fez o comentário diário durante que período?
ASG: Fiz o comentário – que era diário – em relação à pandemia, no Telejornal, na RTP1, durante o período compreendido entre os dias 13 de Abril e o último dia de Maio. Depois, comecei também a registar que do ponto de vista da comunicação poderia ser melhor mudar. Essa colaboração diária estava também a ser de uma grande exigência para mim próprio. Como tal, pareceu-me adequado interromper… Até porque este tipo de colaboração e de comentário sobre uma situação específica, como foi o caso, não se deve perpetuar no tempo. Em Junho fui um dos convidados para a Grande Entrevista da RTP, altura em que me perguntaram de onde era e onde dei a conhecer que era natural das Caldas…

GC: Neste momento já não se encontra no activo. Porquê a escolha da infecciologia? Foi fácil esta escolha nos meios militares?
ASG: Já me reformei. O interesse pela infecciologia não era de facto muito reconhecido nos meios militares. Quando entrei, não tinha mais colegas desta especialidade. No fundo, tive que desbravar caminho e que, aos poucos, ganhou o seu espaço e que hoje se reveste de grande importância. Mais do que interessante ela é hoje em dia uma especialidade mais do que necessária. Em cenários militares, o que falamos é da deslocação de homens e mulheres para missões em várias zonas do mundo, onde há riscos para a saúde e que é preciso analisar e avaliar todos os riscos. Foi importante também já que esta especialidade acabou por chamar a atenção para o facto da medicina preventiva que tem sido valorizada e que tem ganho o seu espaço no que diz respeito à saúde pública.

“Recordo com muitas saudades os tempos vividos nas Caldas da Rainha e no Oeste”

GAZETA DAS CALDAS (GC): O que recorda dos tempos da sua infância em que vinha à sua terra natal passar as férias?
António Silva Graça (ASG): Foi um período da minha vida muito gratificante, partilhada com os meus avós, numa época em que recordo perfeitamente que vinha para as Caldas logo no dia a seguir ao término da escola. Só regressava a Lisboa no dia antes do recomeço das aulas. Cheguei a viver nas Caldas durante quatro meses, numa altura em que a cidade se percorria toda a pé. Lembro-me que a cidade apresentava, então, um menor desenvolvimento urbanístico mas, por outro lado, tinha aspectos muito interessantes do ponto de vista dos tempos livres e do lazer. Fazíamos várias actividades no parque, na Mata. Isto sem falar na Foz do Arelho. Tudo isto preenchia os períodos de férias. Recordo com muito gosto e com saudade estas estadias com a minha família.

GC: Regressou à sua terra natal noutras ocasiões, depois da infância?
ASG: Sim, de facto regressei novamente à cidade termal pois fiz a minha recruta nas Caldas. Na altura a Escola de Sargentos do Exército ainda era o Regimento de Infantaria 5. Naturalmente para mim foi mais fácil ter feito a tropa na minha terra onde tinha o apoio familiar. Mais tarde, orientei a minha carreira médica, tendo escolhido a especialidade de infecciologia, ligada aos hospitais militares.

GC: Já formado, trabalhou na região e voltou a viver nas Caldas? Onde trabalhou?
ASG: Fiz o estágio em Saúde Pública, no Centro de Saúde das Caldas, que então funcionava junto ao Hospital. O director era o Dr. Vieira Lino. Depois de ter feito o internato geral, regressei a esta zona para realizar o serviço médico à periferia nos final dos anos 1970. Escolhi fazê-lo no concelho de Óbidos. Fiz saúde escolar neste concelho além de ter dado consultas no Centro de Saúde da Amoreira. Também fiz urgência no Bombarral. Nessa época, voltei a viver nas Caldas, durante um ano, tendo ficado a morar em casa dos meus avós. Essa ligação mantém-se pois, felizmente, ainda cá tenho alguns familiares.

GC: Como é a sua relação actualmente com as Caldas e região?
ASG: Tenho uma ligação afectiva grande às Caldas da Rainha e costumo vir a outros concelhos da zona Oeste. Quando me desloco, aproveito para vir com frequência ao Centro Cultural e de Congressos que é um espaço muito agradável que tem muito boas condições. Venho com regularidade e assisto às suas propostas. Infelizmente tive que interromper as minhas vindas, pois o equipamento cultural teve, tal como os congéneres, de encerrar. Sei que já reabriu e que lentamente está a retomar os seus eventos. Estou actualizado, pois chega-me a newsletter das suas actividades. De qualquer modo continuo a vir às Caldas sobretudo para visitar familiares e amigos, mantendo esse lado de afectividade.

“ Vacina só para o próximo ano”

GAZETA DAS CALDAS (GC): Considera que é possível um tratamento eficaz contra a infecção para quando? E a vacina?
António Silva Graça (ASG): É irrealista pensar que teremos uma vacina durante este ano. Deverá ser apenas possível e estar disponível para o próximo ano. O que será mais fácil e rápido encontrar será um tratamento eficaz que poderá surgir, estou convicto, já nos próximos meses. Estou optimista, pois, segundo os estudos que estão em curso, o antiviral Remdisivir é o medicamento que está, para já, a gerar as expectativas mais elevadas em relação à sua eficácia. O medicamento foi administrado a doentes graves e ficou comprovado que é eficaz na redução do tempo de internamento dos doentes. O que aguardamos agora é que o é que o Remdisivir seja igualmente eficaz na redução da mortalidade.