A revolta do 31 de Janeiro teve como primeira causa o Ultimatum inglês

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fr A historiadora Isabel Xavier foi convidada pela  Espaço Abril para uma conversa sobre o 31 de Janeiro, uma revolta que decorreu no Porto em 1891, antecipando a revolução republicana que só viria a ter sucesso em 1910.

A presidente do PH, Isabel Xavier, esteve no Espaço Abril no passado sábado, para uma conversa sobre o 31 de Janeiro de 1891. Quinze pessoas escutaram e debateram com a professora sobre este acontecimento que “provocou a bancarrota” e “deixou suspensa a revolução”. Com base na obra “História da Revolta do Porto – Depoimento de dois cúmplices, (João Chagas e o ex-tenente Coelho)”, a oradora explicou que foi o conflito anglo-português de 1890 a causa única da revolta do Porto.
O conflito em questão foi o Ultimatum de 11 de Janeiro de 1890, um ano antes, no qual os ingleses impediram o projecto português do mapa cor-de-rosa, obrigando ao abandono das pretensões lusas sobre os territórios do centro de África entre Angola a Moçambique.
Era então primeiro-ministro Luciano de Castro, do Partido Progressista, e ministro dos Negócios Estrangeiros, Barros Gomes. “O país reagiu com veemência aos acontecimentos, despertando uma onda nacionalista de norte a sul de Portugal, que contrastava com a apatia em que parecia ter estado mergulhado até então”, disse Isabel Xavier. E foi nesse contexto que se formou a Liga Patriótica do Norte e a Comissão de Subscrição Nacional. Foi também nesta altura que se compôs “A Portuguesa” que, mais tarde, viria a ser o Hino Nacional, após a revolução republicana.
“O governo do Partido Progressista caiu, fizeram-se eleições em Março, vencidas pelo Partido Regenerador – com fraca maioria – tendo-se formado um governo de Serpa Pimentel em que a pasta dos negócios estrangeiros pertencia a Hintze Ribeiro”, recordou a oradora.
A repressão aumentou e o governo tornou-se impopular conduzindo o país à situação que é assim descrita: “De um lado fica a monarquia, com a sua velha aliada, a Inglaterra, que não quis repudiar. Do outro lado, fica a nação, contra a Inglaterra e contra a monarquia. É deste antagonismo que vai sair a revolta do Porto”, citou.
A dita revolta decorreu na madrugada do dia 31 de Janeiro, quando o Batalhão de Caçadores nº9, liderados por sargentos se dirigiram ao Campo de Santo Ovídio -, hoje Praça da República, no Porto – onde estava o Regimento de Infantaria 18 (R.I.18).
Os revoltosos desceram a Rua do Almada, até à Praça de D. Pedro, (actual Praça da Liberdade) onde, em frente ao antigo edifício da Câmara Municipal do Porto, ouviram Alves da Veiga proclamar da varanda a Implantação da República. Foi então hasteada uma bandeira vermelha e verde, pertencente a um Centro Democrático Federal e com fanfarra, foguetes e vivas à República, a multidão subiu a Rua de Santo António, em direcção à Praça da Batalha, com o objectivo de tomar a estação de Correios e Telégrafos. O cortejo foi barrado por um forte destacamento da Guarda Municipal, que estava na escadaria da igreja de Santo Ildefonso, no topo da rua. Em resposta a dois tiros que se pensa que terão partido da multidão, a Guarda soltou uma descarga de fuzilaria tendo feito vítimas entre militares revoltosos e simpatizantes civis.
Cerca de trezentos soldados barricaram-se na Câmara Municipal. No entanto a Guarda, ajudada por artilharia da serra do Pilar, por Cavalaria e pelo Regimento de Infantaria 18, sob as ordens do chefe do Estado Maior do Porto, General Fernando de Magalhães e Menezes força-os à rendição, por volta das dez da manhã. Terão morrido 12 revoltosos e 40 pessoas ficaram feridas.
Alguns dos implicados fugiram para o estrangeiro como o jornalista Sampaio Bruno e o advogado António Claro que foram para Espanha.
O governo mandou julgar os revoltosos em Conselhos de Guerra e também vários civis implicados. Cerca de 250 pessoas foram condenadas a penas entre 18 meses e 15 anos de degredo em África. Em 1893 alguns seriam libertados em virtude da amnistia decretada para os então criminosos políticos da classe civil.
Em memória desta revolta, logo que a República foi implantada em Portugal, a Rua de Santo António foi rebaptizada para Rua de 31 de Janeiro.

Reacções ao Ultimatum também nas Caldas

Isabel Xavier contou que nas Caldas da Rainha houve sinais da adesão popular às manifestações contra o Ultimatum. Por exemplo, ao nível da toponímia, foi nessa altura que se deu o nome de “Avenida da Independência Nacional” ao que antes era o Casal Galrão, bem como foi dado o nome de Serpa Pinto à antiga Rua da Avenida (mais tarde, e actualmente, Rua Miguel Bombarda) e o nome de Capitão Filipe de Sousa à antiga Rua do Cabo da Vila.
O primeiro centro republicano nas Caldas da Rainha que, segundo a convidada, “teve vida efémera”, foi criado na sequência da agitação popular de oposição ao Ultimatum.
Por seu lado, na Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, de Rafael Bordalo Pinheiro, “foram produzidas as impressivas peças ligadas aos temas patrióticos de defesa do colonialismo português em África”. Foi na Fábrica das Caldas que também surgiram peças com  sentimentos anti-britânicos “que mostram John Bull com um saco de dinheiro em cada mão, tomando a forma de escarrador ou de bacio, e as que representam os interesses britânicos como uma garra que arranca o coração de Portugal”, afirmou a historiadora.
Fernando Rocha, um dos anfitriões do Espaço Abril referiu que o 31 de Janeiro está para a instauração da República em 1910 como “o 16 de Março está para o 25 de Abril”. Uma ideia que não é nova, posto que já Medeiros Ferreira tinha defendido essa tese na Gazeta das Caldas 19/03/1993.
Patente no Espaço Abril continua uma exposição de Rogério Guimarães, onde podem ser vistas pinturas, peças de cerâmica transformadas e também fotografias dos grafitties que “habitaram” em várias zonas da cidade e que agora já não existem. Um trabalho de memória deste autor multifacetado que tem várias vertentes do seu trabalho artístico expostos naquele local.