Crónicas de Bem Fazer e de Mal Dizer – XI – A VISITA DE UMA TURISTA POLÉMICA

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Le Portugal A Vol d’Oiseau, Portugais et Portugaises Princesse Rattazzi - 1879

Nos anos 70 do século XIX, por cá andou turistando uma mulher muito especial: Maria Letizia Stdolmire Wise, filha de Letizia Bonaparte, de apelido Ratazzi (nome do seu 2.ºmarido) nome este que utilizou na sua prática literária; por duas vezes visitou Portugal, em 1876 e 1879.
Em resultado dessas visitas, em 1879, publicou um França um livro com o título “Le Portugal a Vol d’Oiseau, Portugal et Portugaises”, na casa editora A. Dwgorce-Cadot.
Esta obra provocou uma grande polémica, porque as opiniões expressas por esta turista tão singular não agradaram aos portugueses. De uma escrita franca e direta, conseguiu criar grandes inimizades e suscitou uma grande e combativa controvérsia com Camilo Castelo Branco.

Em 1997, com a chancela a Antígona, foi publicado o seu livro com o título ”Portugal de Relance”.
No seu périplo pelo nosso país, passou pela vila das Caldas da Rainha, e no Hospital Termal tomou os seus banhos, o que constituiu para ela uma verdadeira aventura. Senão vejamos:
Cheguei muito cedo ao estabelecimento. Parece que era a hora propícia, segundo se depreendia da afluência dos banhistas e do facto de não haver uma única tina disponível, conforme julguei perceber ao empregado que me falava uma linguagem ininteligível. Cansada de esperar, pedi a uma das mulheres encarregadas do serviço de banhos, que me conduzisse à piscina. Ela obedeceu de má catadura, tentando primeiro dissuadir-me por meio de uma pantomina expressiva. Foi só então que reparei o tapete de areia ondulante depositado no fundo da tina. Tomei o banho em companhia de duas ou três mulheres que não me pareceram modelos de distinção e graça. Mas não se deve ser demasiado exigente, e de resto nem só a beleza constitui título de recomendação.
Começa a experimentar o encanto de uma temperatura doce e igual, e calculava mentalmente o bem que deveriam fazer estes banhos, mesmo tomados em pequena quantidade, quando ouvi de repente uma voz áspera dizer: «Vamos, vamos, é preciso sair, são horas da sopa».
Imediatamente as boas velhas precipitaram-se para a escada em vez de voltarem altivamente as costas, como eu esperava. «Horresco referens!» Eram doentes do hospital, o banho era gratuito e eu tinha confraternizado com pobrezinhas, que tornei a ver descalças, quando fiz a minha visita oficial da tarde, e que me olharam familiarmente… Imagine-se a extensão do meu infortúnio!…”
Por aqui ficamos respeitando o infortúnio de tão ilustre turista, afligidas por uma dúvida: de que era e como estava a sopa

Isabel Castanheira