De Visita a D. Berquó

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Gazeta das Caldas
Isabel Castanheira

“O ano findo, um espanhol gotoso definia assim as Caldas da Rainha: “Águas … em Obras”.
Era este espanhol um engenheiro doente que fazia d’essa viagem de saúde uma espécie de missão d’ofício. ´Em vez de dizer: vou tratar-me, dizia ele: vou ver as obras! E tinha surpresas: – Uma parede que ele vira nascer… uma parede que dizer ele trouxera ao colo! Santo Deus! Crescera, subira, engrossara! Já com barba! Seu ar casquilho no coco do teto!
E tinha deceções:
Achava ele um grande ar imbecil àqueles muros … o mesmíssimo ar d’essas criaturas que nascem gravemente… sem se saber p’ra quê!
No dia seguinte ao da sua chegada, este estrangeiro visitava sem falta D. Rodrigo. Abraçava-lhe pobremente os flancos com os braços curtos e ficava muito pasmado a olhá-lo, passada a primeira expressão do cumprimento. O Dr. Rodrigo sorria, inevitavelmente e por deferência velha ia mostrar-lhe as obras. E tinha ele sempre o mesmo o mesmo gesto e o espanhol invariavelmente o mesmo pasmo.
O D. Rodrigo de dizer:
– Adivinhe!
E o doente a murmurar:
– Hombre! Caramba! Que Dios! E nem o espanhol adivinhava nem o D. Rodrigo explicava… p’ra que cresciam os muros e se alastravam as paredes!
Sabidíssimo é que depois da fundadora da Vila que lhe deu o cunho fidalgo e o simbólico escudo, não consta, decorridos quatro séculos, que influencia mais de cunho acoitasse o lugar, que esta do D. Rodrigo. De forma que é bem vulgar chegar-se à terra (defunto já o desvelado protetor), e aflorar como um hábito, em lábios distraídos:
– Bela terra! Com um ar d’asseio no saibro das entradas e no caiar das casas e um certo sabor a saúde… e amas-de-leite!
A vida ali no pascigo meuda (sic) da doença p’ra quem só sofre de meia gota e esteja remediado moralmente (se isso é possível) deve ser d’uma simplicidade preguiçosa! Alamedas sombreadas!
Ardores cáusticos de sol n’um lago azul! Pavimentos de croquet! Risos de moças! Um club p’ro meneio e p’ro debique com todo o cortejo galante de amor… valsado: mecânica maneira de peneirar o sentimento, de levantar poeira, e de fazer cair as meias … afora o mais!
Bela terra! Industrialmente rica, com uma barreira em cada escavação e uma fertilidade gorda de verdes!
Como paisagem, basta sair à estrada e p’ra qualquer excursão que se dispare, o panorama surge varrido e largo, com manchas de pinhais, longes de mar, abruptos de rochas, dorsos de montes e o rutilar faiscante dos lugares como lenções lavados, à torreira do sol. (Continua no próximo número)