Duas guitarras de Carlos Paredes recuperadas nas Caldas

0
855

Instrumentos foram doados pelo artista ao Mosteiro dos Jerónimos e estão a ser recuperados por Orlando Trindade

É no sossego da nova oficina, num alto nos Mosteiros, na freguesia dos Vidais, que Orlando Trindade trabalha no restauro de duas guitarras portuguesas de Coimbra que pertenceram a Carlos Paredes.
O carimbo no interior das guitarras não engana: “Carlos Paredes”. No estojo de uma delas, marcado pelo tempo e pelo uso, constam alguns autocolantes, por exemplo, de um encontro internacional de guitarras, em Castres (França) e uma etiqueta interessante, da TAP. “PAREDES”, pode ler-se na etiqueta, que não indica o destino da viagem.
Em termos técnicos não têm alterações significativas, até porque a família Paredes ajudou, com a família Grácio, a desenvolver e aperfeiçoar este instrumento, que se mantém inalterado, sendo hoje modelo para instrumentos modernos. Talvez a única questão sejam “os trastos mais altos, que é uma questão de gosto do músico”.
Quando faleceu, em 2004, Paredes tinha nove guitarras, que deixou à companheira, Luísa Amaro, mas também a várias instituições. Estas duas foram doadas pelo artista ao Mosteiro dos Jerónimos, sendo pertença do Estado. Agora, quase 20 anos depois, as guitarras precisavam de manutenção e Orlando Trindade foi recomendado para este trabalho, pela experiência na recuperação e construção de instrumentos antigos. É que o caldense fez, por exemplo, a manutenção de 50 guitarras portuguesas para uma exposição do Museu do Fado e também o restauro de uma guitarra do mesmo construtor, de 1964, e que pertence a Ricardo Rocha, neto de Fontes Rocha (guitarrista que acompanhou Amália e a quem pertencia o instrumento).
Tal como indicam as etiquetas destes dois instrumentos, foram construídos em 1966 na casa de referência das guitarras portuguesas, da família Grácio e que funciona no Cacém. Foram feitas por João Pedro Grácio Junior, filho do fundador e pai do atual proprietário, Gilberto.
O trabalho de manutenção na oficina ainda não começou, mas a avaliação permite perceber que “estão praticamente em estado de serem tocadas, só precisam de manutenção como cordas novas e reparar uma racha e depois limpeza”, explica. Deverão estar prontas no final de setembro.
Apesar da pandemia, Orlando Trindade teve sempre trabalho. “O cliente que vinha mudar cordas deixou de vir, mas tinha projetos em mãos que consegui finalizar, como restauros”, salienta o artesão, que, no final de 2020, deixou o ateliê no Largo Espírito Santo. “Aqui encontro o melhor de dois mundos”, diz, explicando que está próximo das Caldas, mas que tem a calma do campo. O novo espaço tem melhores condições térmicas e isolamento. “Foram dez anos muito importantes, mas estou feliz com a mudança”, concluiu, com o sorriso caraterístico. ■