Espaço cultural de cerâmica brasileira recebe ceramistas do Oeste

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Gazeta das Caldas
Paulo Laje ladeado por Telmo Pereira e por Teresa Lima, ambos formadores do Cencal | N. N.

Paulo Lage é gestor cultural e é o responsável pelo Espaço Saramenha, situado em Ouro Preto (Minas Gerais) no Brasil. Nos últimos anos recebeu ceramistas de Caldas e Alcobaça em intercâmbios com os ceramistas brasileiros ligados à formação no CENCAL. A sua ideia é apostar na reintrodução da azulejaria, técnica com pouca expressão na actualidade daquele país mas com uma grande herança cultural neste domínio. O gestor veio a Portugal para apresentar um novo livro, sobre o fundador do espaço que hoje dirige em Ouro Preto, que era natural de Atalaia no concelho da Barquinha, e que foi o primeiro professor de medicina do seu país (ver caixa).

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Os formandos brasileiros durante as aulas de Teresa Lima no centro cultural de Ouro Preto | J.S.

 

Formou-se em Economia, mas o gosto pela História e pela Cultura faz com que o gestor Paulo Lage se dedicasse a projectos destas áreas. Após ter trabalhado com grupos musicais e de dança, dos mais conhecidos do panorama brasileiro, é actualmente o responsável pelo Espaço Saramenha, situado em Ouro Preto no estado de Minas Gerais.
Esta cerâmica foi fundada em 1800 por Vieira de Carvalho, um português que era cirurgião e professor de anatomia e cirurgia, no Hospital Real Militar de Vila Rica (hoje Ouro Preto). “Além da medicina tinha interesse pela cerâmica e já naquela época era um verdadeiro humanista, muito preocupado com a mão de obra que na altura laborava na olaria que ele fundou, e que foi a primeira fábrica de cerâmica brasileira”, disse o brasileiro (ver caixa).

Agora a antiga fábrica deu lugar a um centro cultural tendo ganho nova dinâmica em 2009 pela mão de Paulo Lage, dedicando-se a preservar as memórias da cerâmica tradicional brasileira, além da realização de exposições, conferências, espetáculos musicais e cursos de cerâmica. Uma das áreas que o gestor gostaria de voltar a apostar é a azulejaria, “que praticamente não se produz na actualidade no país”, apesar de ter existido um momento importante relacionado com o modernismo brasileiro, nos anos 50. Nessa altura, “foram produzidos belíssimos painéis, em cidades como Belo Horizonte, Brasília ou Cataguases”, disse o produtor cultural que em 2015 veio até ao Cencal procurar informação e recursos humanos que pudessem ir ao Brasil para leccionar as técnicas necessárias para reavivar a azulejaria local.

Ouro Preto é “Óbidos em ponto grande”

A primeira convidada foi a ceramista Teresa Lima que se deslocou ao Espaço Saramenha na Páscoa de 2016, onde ensinou a 30 pessoas as várias técnicas necessárias para se fazer e decorar azulejos. Segundo a formadora, esta “foi uma experiência muito gratificante”. Teresa Lima salientou que gostou de contactar com os sítios, costumes, paisagem e arquitectura local, caracterizando Ouro Preto como “uma espécie de Óbidos em ponto grande”.
Apesar do trabalho árduo, Teresa Lima explicou que teve dezenas de formandos interessados em saber “tudo o que podiam sobre a azulejaria portuguesa”.
A formadora adorou conhecer o Espaço Saramenha que possui olaria, loja, anfiteatro, oficina de metais e várias salas de formação. O edifício, representativo da arquitectura tradicional da “casa mineira”, “é amplo e permitia-nos trabalhar muitas vezes ao ar livre”, referiu a técnica.
Segundo Paulo Lage, ainda hoje a presença de Teresa Lima “é reclamada por muitos alunos”. Entre o grupo de formandos, contaram-se alunos oriundos de Fortaleza, que fica a 2500 quilómetros, de Ouro Preto, do Rio de Janeiro e de Porto Alegre que fica a 1800 quilómetros daquela cidade de Minas Gerais e que “souberam da realização da formação através da internet”.

Um painel de sete metros em parceria

No ano seguinte (2017) foi a vez de Telmo Pereira deslocar-se a terras de Vera Cruz. O formador de cerâmica no Cencal, natural do Juncal, foi à cidade de Cataguases para produzir, em conjunto com um artista local, um painel que mede 7 por 2,5 metros. O artista local Rafael Zavagli é o autor do desenho do painel que se intitula “Alegoria Eléctrica”. A cozedura dos azulejos desta proposta criativa, feita em parceria, decorreu no atelier do próprio Telmo Pereira.
“Foi muito bom chegar a um sítio onde o nosso trabalho é bastante reconhecido, mesmo sem o conhecerem muito bem”, disse Telmo Pereira.
Segundo o ceramista, no país irmão “há um interesse pela cerâmica e pela azulejaria maior do que em Portugal”. Acresce ainda que “há gente com talento a cada esquina, a quem só falta o conhecimento técnico”.
Telmo Pereira, tal como Teresa Lima, levaram os conhecimentos técnicos, tendo ensinado aos formandos o processo completo da feitura e decoração azulejar. Recentemente este autor fez, em Portugal, um grande painel para o hipermercado do Continente de Oeiras.
Paulo Lage quer voltar a convidar Teresa Lima e Telmo Pereira para darem mais formação em terras brasileiras. A presença dos dois formadores foi importante para quem quis aprender mais sobre a azulejaria e inclusivamente “fez mexer com a economia local, dado que vieram participantes de outras regiões”, referiu.
De acordo com este gestor cultural, além da aprendizagem das técnicas, “é preciso implementar quase tudo de raiz, incluindo a aquisição e distribuição do próprio barro, própria para fazer azulejo”, concluiu.

 

O cirurgião que fundou a primeira fábrica de cerâmica no Brasil

No sábado, 12 de Janeiro, Paulo Lage apresentou no Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha, o seu livro “A Vida e a Obra de António José Vieira de Carvalho”, editada pela Palco Editora e ilustrada pelo artista de Ouro Preto, Marcos Meira.
O livro dá a conhecer a vida e a obra de António Vieira de Carvalho (1756-1818), no ano em que se assinalam os 200 anos da sua morte. António Vieira de Carvalho viveu em Vila Rica (hoje Ouro Preto), na segunda metade do século XVIII até o início do século XIX, e tornou-se o primeiro professor de um curso de medicina do Brasil colonial. Foi nessa localidade que surgiu a primeira escola de medicina do Brasil, dois anos antes de São Paulo e sete anos antes da Bahia e do Rio de Janeiro. Na obra, Paulo Lage relata também o facto de Vieira de Carvalho ter sido o fundador da Cerâmica Saramenha, a primeira fábrica de louça brasileira. O lançamento deste livro decorreu em Outubro na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Ouro Preto.

N.N.

 

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O gestor cultural brasileiro apresentou o livro sobre Vieira de Carvalho no passado sábado em Vila Nova da Barquinha | J.S.
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O painel “Alegoria Eléctrica” feito em parceria entre Telmo Pereira e Rafael Zavagli e que pode ser apreciado na cidade de Cataguases | D.R.