“Fui-me habituando à dura realidade de que sozinha não podia mudar o mundo” conta Catarina Furtado

0
561
Gazeta das Caldas

CatarinaFurtadoA 11ª edição da Feira do Livro, organizada pelo Colégio Frei Cristóvão (A-dos-Francos), convidou Catarina Furtado para apresentar “O Que Vejo e Não Esqueço”, o mais recente livro da apresentadora, lançado em Junho deste ano. Há 15 anos Embaixadora da Boa Vontade, do Fundo das Nações Unidas Para a População, Catarina Furtado levou os alunos, pais e professores numa viagem até Guiné-Bissau, Moçambique, Cabo Verde, Índia e Sudão do Sul, alguns dos países que a receberam em missão. “O livro é uma homenagem às pessoas maravilhosas que lá conheci, é sobre as suas histórias e não sobre mim”, disse ao público que, aberta a sessão de perguntas, esteve sempre de braço no ar.

O cenário montado pelos alunos do Colégio Frei Cristóvão faz lembrar um estúdio televisivo de um típico programa de entrevistas. Sem precisarem de teleponto, tal como verdadeiros profissionais, Letícia e João vestem o papel de apresentadores, fazendo um breve apanhado do percurso da convidada. “Começou na dança, seguiu para o jornalismo, depois para a televisão. Entretanto, também já deu cartas no mundo da representação e, na música, como letrista”.
Catarina Furtado é chamada ao palco e soltam-se aplausos. Antes, já se haviam “soltado os beijos”, quando os alunos interpretaram o tema dos Ala dos Namorados, escrito pela apresentadora. “Vocês são mais ricos que muitos meninos que eu tenho conhecido pelo mundo inteiro, que me pedem encarecidamente para estudar”, começa por dizer, pedindo às crianças para valorizarem a escola. É que, alerta Catarina, em vários pontos do mapa, há muitas outras crianças, impedidas de agarrar os livros porque são obrigadas a trabalhar.
A vontade de ir à escola é tanta que, algumas vezes, se sobrepõe a tudo o resto. “Uma das perguntas que mais me marcou foi feita por um menino que, naquele dia, ainda não tinha comido nada… pensei que me ia pedir comida, mas perguntou-me se lhe podia dar explicações para a escola”, recorda a apresentadora, que traz ao pescoço um colar feito em papel, comprado numa associação em Sudão do Sul.

“Pessoas que não têm nada”

Depois de, há nove anos, ter terminado a terceira série de “Príncipes do Nada”, na RTP, Catarina Furtado acreditava que não havia muito mais a acrescentar sobre as suas missões enquanto embaixadora da ONU. Nesse programa, a apresentadora levou a sua passagem por cerca de 10 países ao grande ecrã, num formato semelhante ao da reportagem, dando a conhecer as duras realidades, vividas não só por essas populações, mas também pelos voluntários e ONG’s que se encontram no terreno.
Foi Francisco Camacho, director editorial da Esfera dos Livros, “quem me convenceu de que ainda existiam histórias que não tinham sido partilhadas na televisão e mereciam ser contadas”, explica Catarina Furtado que, feito o convite, foi à procura dos blocos de notas onde registava os episódios e pensamentos do seu dia-a-dia como voluntária.
“Assim nasceu um livro que homenageia pessoas como a enfermeira Laura”, com quem Catarina se cruzou em Moçambique. Sem cama e com menos de duas refeições por dia, Laura dedica a sua vida a salvar crianças, “milhares ao longo do tempo”, que são abandonadas com Sida e mordidas pelos mosquitos. “Alguém que não tem nada e vai bater à porta de toda a gente para conseguir leite para as crianças”, conta a autora.
Em Moçambique morrem diariamente 11 mulheres ao dar à luz. Mas, piores são os motivos que dão origem a este número: falta de recursos financeiros para pagar o atendimento num hospital, ausência de transportes e estradas em más condições ou, “simplesmente um marido que não autoriza o parto assistido”.
“Estas mortes evitáveis são o que não me deixa calar”, continua Catarina Furtado, relembrando também os meninos que conheceu na Índia, a viver numa lixeira, e que bebem da mesma água onde tomam banho e urinam.

Voluntária desde criança

A inquietação com a desigualdade surgiu muito cedo, pelo facto da sua mãe ser professora do ensino especial. O primeiro episódio do livro recua precisamente até um dia de voluntariado com o Tó, um dos alunos da mãe com Trissomia 21. “Numa ida à praia, o Tó foi cumprimentar duas senhoras, mas assim que estendeu braço, uma delas gritou ‘tirem-me isto daqui!’. Para mim, foi um sinal de que o mundo não estava bem”, lembra Catarina Furtado que, na altura criança, só conseguiu reagir cuspindo na cara da senhora. “A partir deste dia, senti que devia dedicar o meu tempo aos “Tós” desta vida”.