Há encontros informais de poesia para assistir no Museu Bernardo

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António Amaral Tavares (ao centro) foi o convidado a participar na quinta tertúlia poética do Museu Bernardo

Desde Dezembro do ano passado que o Museu Bernardo organiza encontros informais de poesia. O autor José Ricardo Nunes, que reside nas Caldas da Rainha, é o responsável pela iniciativa. Já convidou Rui Almeida, Jorge Rosa, Margarida Vale de Gato, Mário Parissy e, mais recentemente, António Amaral Tavares.
Este último veio de Coimbra e esteve à conversa sobre a sua poesia no dia 18 de Fevereiro. Pela primeira vez nas Caldas, encontrou uma sala cheia à sua espera.
Autor de quatro obras – Trabalhos em Vidro (2012), Talvez seja essa certeza (2014), Movimento de Terras (2016) e Animais Incluídos (2016) – António Amaral Tavares começou a escrever aos 20 anos. “Percebi que não gostava daquilo que escrevia e isso, juntamente com outros episódios da minha vida, fez-me parar”, relevou. A pausa durou 10 anos e não se resumiu à escrita: neste tempo o poeta também não leu um único livro.

Só por volta dos 40 anos voltou a pegar na caneta – escreve sempre à mão e só depois transcreve os versos para o computador – na altura com as influências dos últimos poetas que se lembrava de ter lido. António José Forte, Herberto Helder e António Gancho são alguns exemplos.
Para o seu regresso à poesia muito contribuiu um workshop de escrita criativa. “Sempre fui contra esses cursos, achava que as pessoas com talento para a escrita traziam-no no sangue e pronto, mas enganei-me”, contou o autor de 52 anos.
António Amaral Tavares escreve num pequeno caderno – diz na brincadeira que as folhas pequenas o obrigam a pensar em poemas mais sucintos – e gosta de fazê-lo em casa ou no museu do parque biológico onde trabalha aos fins-de-semana, em Miranda do Corvo.
“Quando parto para o exercício da escrita, a maioria das vezes já tenho o poema estruturado na minha cabeça”, disse o autor, que em 2015 venceu o Prémio Nacional de Poesia Diógenes. Ao público confidenciou também que tardou muito em escrever sobre temas que, em tempos, eram autênticos tabus. “Por exemplo sobre a minha mãe ou o colégio interno onde andei. Dei um grande passo quando escrevi esses poemas”, frisou, realçando que nesses momentos a poesia teve um efeito catártico sobre si.
Na opinião de António Amaral Tavares a sua escrita anda de versos dados com “o cerco das sombras, da memória e da morte, com a angústia que esses cercos provocam no pensamento”. Já José Ricardo Nunes definiu-a como “poemas curtos mas com uma carga fortíssima”, identificando também uma série de palavras que o autor usa com muita regularidade: poeira, vidro, medo, cães, fígado, morte, corpo, cidade, desengano e ferida.
Henrique Fialho, que escreveu pela primeira vez sobre António Amaral Tavares no seu blogue “Antologia do Esquecimento” – a propósito do livro “Talvez seja essa certeza” – disse que estranheza, dúvida e espanto foram os sentimentos mais imediatos na primeira vez que leu a sua poesia. “Outra das características do António, sobretudo nos primeiros poemas, é um diálogo constante com obras de outros autores, sejam músicos, pintores ou cineastas”, acrescentou.
Nesta tertúlia foram lidos poemas das várias obras de António Amaral Tavares e dois inéditos. “Doutor eu tenho uma guerra tremenda dentro da minha cabeça”, deixado para o fim, “é absolutamente esmagador e um dos poemas da língua portuguesa para todo o sempre”, realçou José Ricardo Nunes.
No próximo encontro, dia 25 de Março, o autor convidado será Miguel Martins.