“Luiz Pacheco Essencial” fala sobre a vivência do autor nas Caldas

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A apresentação da obra decorreu no Espaço da Raia, em Lisboa

“Luiz Pacheco Essencial”, assim se designa a obra de António Cândido Franco lançada a 21 de Outubro, no Espaço da Raia – Tráfico de Edições e Afins , junto à Rua dos Anjos (Lisboa). Na obra há várias referências às vivências do escritor “maldito” nas Caldas da Rainha, onde viveu desde finais de 1964 até 1968.

António Cândido Franco lecciona Literatura na Universidade de Évora e dirige há vários anos a revista libertária “A Ideia” que se dedica ao estudo sistemático do Surrealismo português. São de sua autoria também estudos sobre Fialho de Almeida, Mário Cesariny, Pedro Oom, Almeida Garret ou Ângelo de Lima. Já biografou outros autores como Agostinho da Silva ou Teixeira Pascoaes. Agora foi a vez de se dedicar à biografia de Luiz Pacheco. “O passeio que proponho ao leitor será pois também uma travessia dos acidentes alucinantes da vida dele”, afirma António Franco na contracapa da obra.
Em “Luiz Pacheco Essencial” é-nos dado a conhecer que o escritor, assim como o seu pai, sofria de asma. E esse motivo traz Paulo Guerreiro Pacheco desde a infância a fazer a temporada de Verão às Caldas, “a banhos nas águas férreas das termas e a ares no vasto e fresco parque dos hotéis e do hospital”. Luiz Pacheco mal se pôs de pé começou a acompanhar o pai nas vindas às Caldas e a seguir-lhe os passos. “A mãe nunca os acompanhava e prescindiam da criada”, narra o autor explicando ainda que inicialmente pai e filho se instalavam no Hotel Lisbonense, “um vasto edifício napoleónico na entrada da vila, sobranceiro ao parque”. Posteriormente, passaram a alugar um andar numa casa particular, na zona baixa da povoação, a uma senhora, Eugénia de Vasconcelos Soeiro de Brito, “que lhes tratava da roupa e da comida”, conta-se na obra. São depois contadas as várias vicissitudes de vivência de infância e de juventude de Luiz Pacheco em Lisboa como a sua forte ligação à literatura e desde cedo ao mundo da edição, em paralelo com as primeiras idas para a prisão por causa do envolvimento com raparigas menores de idade.

Textos e livros escritos nas Caldas

Próximo do Natal de 1964, casado com Maria Irene, de 17 anos e pai de três filhos, Pacheco instala-se com a família na cidade termal das Caldas da Rainha que ele conhecia de frequentar em criança. A cidade seria para o escritor “um porto salvo de perigos, com encantos suficientes para distrair a moça e agradar aos filhos”. Além do mais era um lugar “onde a comida era farta e barata e nunca faltava em gosto e variedade”, lê-se no livro. O artista caldense Figueiredo Sobral que já era seu conhecido desde os anos 40 acabou por ser martirizado por Pacheco, com “castigadas sátiras tendo-o crismado por “Picasso das Caldas”, conta António Franco.
A tribo – como se referia à família – instalou-se num rés-do-chão da Rua Rafael Bordalo Pinheiro, “uma das mais sossegadas da povoação numa casa fronteira a um dos ângulo do parque, com bom ar, silêncio e o mercado diário da praça mesmo à mão”, conta-se no livro. Segundo António Franco, Maria Irene “foi sensível à monumentalidade do lugar e as crianças gostaram daquele jardim frondoso, sem fim, cheio de recantos e de segredos”.
O escritor viveu nas Caldas até 1968 e segundo António Cândido esses quatro anos da fase caldense de Pacheco constituem-se como uma parcela autónoma da sua vida, de grande significado na sua acção de escritor.
Expedia os seus livros a partir dos Correios da localidade e é das Caldas que escreve textos e livros que vão ser apreendidos pela Pide. Em 1965 é na cidade termal que escreve o texto “O Coro dos Cornudos” que vai ser integrado numa antologia organizada por Natália Correia, que seria apreendida e processada e o texto de Pacheco acusado de abuso de liberdade de imprensa.

Casa nova
no Casal da Rochida

Em Maio de 1966, a “tribo” foi obrigada a deixar a rua do parque e a mudar-se para os arredores da cidade, a nascente, para o Casal da Rochida, na estrada do Coto. “As faltas de dinheiro para a renda e as dívidas à senhoria ditaram a mudança”, conta-se no livro. Instalaram-se num primeiro andar de um casal que ficava a mais de meia hora a pé do centro, no meio de pinhas e de pequenos pomares. “Tinha uma única vantagem: era quase dado. Pagavam a luz à Câmara Municipal e pouco mais”, pode ler-se na obra. Segundo o autor a relação do casal continuava a degradar-se. Por baixo do andar onde viviam havia uma adega que vendia vinho e água-pé e o escritor passou a ser assíduo frequentador.
Nessa época, Pacheco tinha a decorrer vários casos em Tribunal dado que tinha publicado a versão portuguesa da Filosofia de Alcova, do Marquês de Sade, entre outros processos judiciais relacionados com textos seus que foram publicados numa antologia editada por Natália Correia.
“O dinheiro era uma aflição com Luiz Pacheco a viver dos artigos de jornal e dos pedidos de esmola”, conta-se no livro. A situação familiar agrava-se e os desacatos entre o casal levou a que ficassem sem os dois filhos mais velhos. Com Pacheco e Maria Irene ficou apenas o mais novo, que nasceu nas Caldas.
A mulher do escritor foi trabalhar para uma fábrica de bolos, a ganhar vinte escudos por dia. Pacheco nessa altura, 1965, em nada colaborou na imprensa tendo regressado aos artigos apenas em 1967, o que para ele, que só vivia dos jornais, era uma eternidade. Em Março desse ano começou a colaborar com o Jornal de Notícias do Porto ao qual se seguiram colaborações com muitos outros periódicos.
Na Primavera de 1967 acabou novamente preso por causa do rapto de Maria Irene, ficando na prisão das Caldas que então estava situada ao cimo da praça da fruta. “Era um calabouço húmido e escuro, na dependência dum antigo palacete de pedra, exposto ao Norte”. Segundo António Franco, Pacheco continuou a trabalhar nos 45 dias que esteve naquela prisão. Os textos produzidos foram publicados no Jornal de Notícias e no Jornal do Fundão. Pacheco sai da cadeia graças a um advogado das Caldas, António Maldonado Freitas, “seu mecenas caldense que lhe arranjou modo de pagar a fiança e apelou da sentença para o Tribunal da Relação de Coimbra”, pode ler-se na obra. “O processo regressou à primeira instância, com obrigação de se repetir o julgamento, o que deu algum alívio ao escritor.”
No entanto, era tarde para salvar o seu relacionamento com a sua mulher Maria Irene que em Agosto de 1967, após uma discussão violenta com agressões físicas, decidiu regressar à Sertã, tendo o escritor sofrido com a separação e tendo-se refugiado no álcool. “Abalou-o tanto que a longa noite do seu alcoolismo que começou nesse dia de Agosto de 1967, durará quase vinte anos”, conta António Franco acrescentando que então Pacheco, incapaz de voltar à Rochida, fica num quarto de uma pensão vazia no centro das Caldas.
Aguardava vários julgamentos relacionados com as suas publicações e vida pessoal. “Foram meses de espera em que parou quase por completo de trabalhar e se entregou a bebedeiras que duravam dias seguidos”, conta-se neste livro. Regista-se também que o escritor chegava a níveis de inconsciência que chegou inclusivamente a dormir no cemitério em Tornada.
Em Novembro de 1967 o processo por causa da publicação e tradução de Sade passou em tribunal plenário e coube-lhe uma das penas mais pesadas, nove meses de prisão remível a dinheiro. Em Junho de 1968 Pacheco regressa à prisão das Caldas para cumprir a pena da Sertã (rapto da mulher, de quem já se havia separado).
Publicar os inéditos de Pacheco

A partir de 1968 regressa a Lisboa, de novo às prisões e no encalço da polícia política pois desde Julho de 1968 – quando ainda estava nas Caldas – a Pide tinha-o identificado como contacto de gente jovem ligada à Frente de Acção Popular. Nesta fase voltou a entrar num período de furiosa vertigem alcoólica pois vivia numa “única bebedeira de vários dias em que não dava acordo e dormia caído em qualquer escada”. O livro percorre toda a vida deste escritor que faleceu em 2008.
Na apresentação deste livro, António Franco referiu a importância de poder editar vários textos inéditos de Luiz Pacheco que se encontra na posse do seu filho Paulo Pacheco (presente na sessão e fiel depositário dos escritos do seu pai). Por agora, as questões relacionadas com partilhas – dado que o escritor possui oito herdeiros legais – não permitem dar a conhecer ao público estes textos de Pacheco.