Misericórdia de Óbidos lança nova obra e é reconhecida pelo seu trabalho cultural

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Gazeta das Caldas
O provedor da Misericórdia de Óbidos, Carlos Orlando, na sessão de encerramento, que contou com a presença de Bernardo Reis, da União das Misericórdias Portuguesas

A Santa Casa da Misericórdia de Óbidos lançou o “Testamento do beneficiado Faustino das Neves”, o 9º livro publicado na última década. Este trabalho de recuperação e divulgação cultural foi elogiado por Mariano Cabaço, responsável pelo Gabinete do Património da União das Misericórdias Portuguesas, durante o 2º Simpósio de História e Arte na Misericórdia, organizado por esta instituição e que decorreu nos dias 5 e 6 de Julho.

O beneficiado Faustino das Neves (1615 – 1689), natural de A-da-Gorda e que foi retratado pela pintora Josefa d’Óbidos, exerceu vários cargos dentro da Misericórdia de Óbidos, tendo sido até seu provedor. Foi sacerdote e depois beneficiado (padre que goza de um chamado Benefício Eclesiástico, ou seja, possui uma renda instituída, geralmente, por algum benfeitor, com a obrigação de rezar ou de exercitar algum outro ministério espiritual) da Igreja de São Tiago de Óbidos, junto da sua habitação, na cerca do castelo. Ocupou uma posição de relevo na sociedade seiscentista obidense, possuindo um considerável património, que se reflecte na quantidade de bens que legou a diversas instituições e a diversos particulares, como atesta o testamento que agora foi publicado em livro.
Gazeta das CaldasEsta obra, da autoria do historiador Ricardo Pereira, assenta no testamento de Faustino das Neves, existente no Arquivo Histórico da Misericórdia obidense, entidade a quem ele chamou de sua herdeira universal e testamentária.
Este é o 9º livro publicado pela Misericórdia, a que se junta uma reedição, desde Catálogos das Mesas Administrativas (1546-2017) e Guias do Arquivo a seis Livros de Acórdãos e Eleições da instituição, desde o ano de 1546 ao ano de 1780.
“Se tudo correr bem vamos editar ainda neste final de ano o Livro de Acórdãos e Eleições referente aos anos de 1780 a 1863”, disse o investigador Ricardo Pereira, destacando a colaboração neste projecto do provedor Carlos Orlando, do mesário José Duarte e do desenhador gráfico e paginador Joaquim António Silva.
Este trabalho contínuo de investigação e divulgação foi elogiado por Mariano Cabaço, responsável pelo Gabinete do Património Cultural da União das Misericórdias Portuguesas, que se referiu à Misericórdia obidense como sendo a instituição que terá uma das produções editoriais mais regular entre todas no país.
Durante a apresentação da obra, também o presidente da Câmara de Óbidos, Humberto Marques, convidou a Misericórdia a fazer um segundo lançamento durante a próxima edição do Folio. Nessa altura será também reeditado o guia do arquivo desta instituição, fundada em 1511.
O provedor Carlos Orlando manifestou interesse no convite e destaca que é preciso “envolver a comunidade obidense no festival, Óbidos não se pode limitar a ser um espaço onde se realiza o Folio e a comunidade não faz nada”. O responsável também já lançou um convite ao historiador obidense Bruno Silva para passar à escrita a intervenção sobre as Bandeiras da Misericórdia, que proferiu durante o simpósio.
Património ao serviço da comunidade

Depois de realizar o primeiro simpósio em 2011, sete anos depois a Misericórdia de Óbidos avançou com o segundo, subordinado ao tema pintura, iconografia e arte, tendo em conta que este ano se realiza o Ano Europeu do Património Cultural. Foram escolhidas boas práticas em restauro, algumas delas premiadas, em Leiria, Óbidos, Santarém e Alvalade (Santiago do Cacém) e os seus responsáveis relataram os procedimentos feitos.
Esta instituição tem desenvolvido um trabalho social, mas também cultural, na defesa do património. O seu provedor, Carlos Orlando, destaca que não pretendem mostrar que são ricos, mas sim colocar todo esse património ao serviço da comunidade para que tenha usufruto público. Por exemplo, o retrato do beneficiado Faustino das Neves e os retábulos de S. Vicente (actualmente a serem restaurados no Politécnico de Tomar) são algumas das cerca de 20 obras da Misericórdia em exposição no Museu Municipal.
O simpósio terminou com a actuação do quarteto de saxofones da Sociedade Musical e Recreativa Obidense, seguido de uma visita guiada à exposição “do Povo ao Rei – Santuário do Senhor Jesus da Pedra”, orientada por Ana Calçada, e que se encontra patente no Museu Paroquial.