Mostra do Teatro D. Maria II ligada às Caldas

0
548
Mostra tem curadoria de Tiago Bartolomeu Costa que nasceu nas Caldas e se formou na ESAD.CR. Está junto à obra “Inês Cabrocha Brasileira” de Eduardo Malta que pertence ao Museu Malhoa

O CCC acolhe uma mostra que liga o Teatro D. Maria II às Caldas, através de artistas, atrizes, cenógrafos e obras que pertencem ao Museu Malhoa

Abriu ao público, a 6 de maio, na galeria do CCC, a exposição “Quem és tu? Um teatro nacional a olhar para o país”. Com curadoria de Tiago Bartolomeu Costa, a mostra, organizada em 15 núcleos temáticos “não conta uma história única”, disse o curador à Gazeta das Caldas. Tiago Bartolomeu Costa -que nasceu nas Caldas e se formou em Programação e Produção Cultural na ESAD – explicou que a exposição “estabelece uma ponte entre diferentes acontecimentos e ainda como, através do teatro, se pode contar a história do país”.
A colonização, a descolonização, os direitos das mulheres, gestos de apoio ao regime e também de resistência estão presentes em “Quem és tu” . É através de materiais documentais – figurinos e trajes, fotografias, registos sonoros e audiovisuais, programas, objetos de cena, imprensa – que é possível documentar “a história social e política que o país construiu, observando a permeabilidade e a resistência do teatro a essas realidades”, informou o curador. Esta exposição, que está a ser apresentada em várias localidades, tenta também estabelecer ligações com as comunidades onde se apresenta.

Auto da Fundação no Parque

Mesa guarda peças de Virginia Vitorino, atriz e autora que viveu 20 anos nas Caldas

No caso das Caldas, em 1935, houve a estreia – em récita única – do “O Auto da Fundação das Caldas”, apresentada no Parque. Foi uma das ações que a Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro fez pois, na época. Esta companhia teatral acompanhou 45 dos 48 anos da ditadura do Estado Novo. Só a revolução levaria ao fim do contrato, em 1974.
A peça representadas nas Caldas “é uma espécie de relato místico e mítico da história de Rainha D. Leonor e da sua passagem por esta zona”, explicou Tiago Bartolomeu Costa, referindo que há imagens de Amélia Rey Colaço, vestida de Rainha D. Leonor, pois a atriz interpretou o papel principal da peça fundacional sobre as Caldas.
A companhia – por ser concessionária de um teatro público – “tinha que realizar o périplo pelas cidades e contar as suas histórias em palco”, contou o curador.
Presentes estão também vários desenhos e o toucado que a atriz usou numa peça que foi dedicada a Inês de Castro e que foi levada à cena pela mesma companhia, em 1932, em Alcobaça.

O toucado que Amélia Rey Colaço usou quando interpretou Inês de Castro em Alcobaça

Virgínia e a pintura de E. Malta
Entre 1947 e 1967 viveu nas Caldas, na Rua General Queirós, a autora Virgínia Victorino. Primeiro habitou no Hotel Lisbonense, numa altura “em que é a autora mais lida em Portugal” As suas peças são apresentadas com regularidade no Teatro Nacional D. Maria II “e tem uma relação próxima e cúmplice com o regime”, disse o curador. Apesar de tudo “também escreveu várias peças dedicadas à emancipação feminina”, acrescentou Tiago Bartolomeu Costa.
Da exposição no CCC faz igualmente parte o quadro “Inês Cabrocha Brasileira” da autoria de Eduardo Malta (1900-1967) que pertence ao Museu de José Malhoa. É que este autor, que chegou a pintar cenários para o Teatro Nacional, “era o mais importante retratista do país” e por haver este conexão, a reprodução da obra foi pedida ao museu caldense.
Pode também ser apreciado o telão “Bonecos de Bordalo” que fez parte do cenário do Passa por mim no Rossio” (1991).

Debate, jogo e peça no CCC
A 26 de maio, será representada no CCC, a peça “Casa Portuguesa” que conta a história (ficcional) de um ex-soldado da Guerra Colonial que, dialogando com os seus fantasmas, se vê confrontado com a decadência e a transformação do ideal de casa, de família, de país e do cânone da figura paterna. Esta representação também integra a Odisseia Nacional, iniciativa que integra o périplo do Teatro D. Maria pelo país.
No dia 27 de maio, decorrerá uma visita-jogo para crianças sobre a exposição e um debate com Nuno Costa Moura (investigador e diretor do Museu Nacional de Teatro e Dança) e com a historiadora Sónia Vespeira de Almeida. Depois das Caldas, a mostra “Quem és tu” segue para Viseu. No total, ao longo do ano, passará por mais de uma dezena de concelhos em Portugal continental e ilhas, numa parceria com a Comissão Comemorativa 50 anos do 25 de Abril e o Museu Nacional do Teatro e da Dança. ■