Óbidos quer transformar-se também numa vila literária

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Notícias das Caldas No Dia Mundial do Livro (23 de Abril) a Livraria de Santiago abriu exclusivamente as suas portas para a apresentação da obra Óbidos – De “vila museu” a “vila cultural”. A sua abertura definitiva está prevista para meados de Maio.

Este espaço estará integrado numa rede gerida pela Sociedade Vila Literária, uma associação sem fins lucrativos, que nasceu com alguns associados, como a Ler Devagar e a Bichinho do Conto, mas que é aberta à participação de todos quantos a queiram integrar.

Na livraria de Santiago estão expostos à volta de 40 mil livros e José Pinho, proprietário da livraria lisboeta Ler Devagar (que funciona no espaço cultural da LX Factory em Alcântara) prevê que, no total, consigam ter em Óbidos 170 mil títulos, até 2016, espalhados por vários espaços.

A primeira vez que ouviu falar no projecto de criação de uma livraria numa antiga igreja na vila de Óbidos, José Pinho, da Ler Devagar, atravessava os céus de Itália. A livreira Mafalda Milhões, que também regressava de Reggio Emília, naquele país, onde participava num projecto do município ao nível da Educação, contou-lhe o que pretendiam fazer em Óbidos e era um projecto que “tinha mesmo a sua cara”.

Quando visitou o espaço pela primeira vez, em 2011, este ainda estava em recuperação e a primeira impressão de José Pinho foi que não interessava, pois tratava-se de uma vila pequena e já havia uma livraria nas Caldas, a 107. Mas depois foi convidado a visitar a vila e começou a pensar num projecto mais ambicioso, com outros espaços que poderiam aliar-se à antiga igreja, que nas últimas duas décadas tem funcionado como espaço multiusos, funcionando em rede.
“Já houve muitas ideias de fazer cidades do livro em Portugal, que não funcionaram porque nos sítios onde as idealizaram fazer não era possível”, explicou José Pinho, acrescentando que em Óbidos é diferente, pois já existem vários espaços, alguns sem utilização, que poderão ser cheios com livros e outras actividades relacionadas com a literatura.
“Nunca se pretendeu uma livraria estanque, mas montar um projecto com linguagem distintas, tendo em conta as características dos espaços”, referiu Mafalda Milhões, da Bichinho do Conto que, juntamente com José Pinho, está hoje no projecto deste o seu início.
No arranque estarão também o espaço do Mercado Biológico e a Galeria novaOgiva, ambos na Rua Direita. A galeria continuará a funcionar como o espaço de excelência para acolher as grandes exposições de arte contemporânea, mas uma das suas paredes passará a estar repleta de livros. As estantes são feitas a partir de paletes que existiam nos armazéns da Câmara.
Já o espaço do mercado biológico (antigas instalações dos bombeiros dentro do castelo) vai ser explorado por muita gente. “Vai ter um conjunto de bancas novas para os fornecedores de produtos biológicos ali poderem comercializar os seus produtos e, à noite, transforma-se num bar, mantendo os produtos biológicos”, explicou o presidente da Câmara, Telmo Faria.
Em todas as paredes serão montadas caixas de frutas, cujos topos são cortados, permitindo-lhes acolher cerca de 30 mil livros relacionados com as áreas da natureza, agricultura e viagens.
Numa segunda fase serão intervencionados outros espaços, mas em recuperações de baixo custo, que trabalham os processos da criatividade e da sustentabilidade. No Museu Abílio estarão expostos livros de artes performativas e design, enquanto que na galeria do Pelourinho haverá poderá poesia e obras de Fernando Pessoa.
A ambição é grande, os responsáveis querem ter em Óbidos a presença de todos os títulos editados em português, para isso contam com a presença de todas as editoras, e terão também alfarrabistas.
A aposta na cultura num país em crise não assusta os responsáveis, que acreditam no sucesso do projecto e garantem que o livro “é o melhor presente que se pode dar a alguém e de menor custo”, pois existem exemplares a partir de um euro.
Neste momento estão 13 pessoas a trabalhar na preparação e arranque da livraria e, de acordo com José Pinho, o investimento ainda não está estimado.
“O património quer-se vivo”
“Acho que hoje [23 de Abril] foi um dia muito feliz porque num dia dedicado ao livro e à leitura conseguimos que a vila viesse à livraria”, destacou José Pinho, dando nota que convidou todos os comerciantes que encontrou a estar presentes. Acrescentou ainda que todos os que quiserem poderão associar-se a esta iniciativa.
No Dia Mundial do Livro foi apresentada a obra Óbidos – de “vila museu” a “vila cultural”, da autoria de Clara Moura Soares e Maria João Neto, do Instituto de História de Arte.
Maria João Neto registou “com muito agrado a intervenção feita na igreja porque o património quer-se vivo”. Referindo-se à vila, a docente universitária explicou que “sentiu-se uma carga muito negativa” até depois do 25 de Abril de 1974, ligando-a muito ao antigo regime.
A preocupação com o património já vem desde o século XIX e registou-se com muita intensidade na 1º República. Entre os marcos importantes desta preservação, foi dado destaque à transformação do castelo em pousada, durante o Estado Novo, assim como o trabalho de António Ferro na propaganda à vila.
Maria João Neto não vê que “seja uma Disneylândia” tudo o que é feito em Óbidos, destacando que desde que se consiga trazer pessoas ao património e, com essa vertente lúdica, conseguir passar conhecimento às pessoas e valorizar o seu lado cívico com uma sensibilização para a sua preservação, é sempre positivo.
“O património é visto como um motor para a coesão social e o empreendedorismo”, disse, acrescentando que “ao lado do copo de ginja d’Óbidos precisamos de ter a cultura, gerar empregos e ter sucesso económico”.

“Histórias com Bicho” reabre em meados de Maio
A livraria Histórias com Bicho, nos Casais Brancos (Óbidos), vai reabrir em meados de Maio, com diversas iniciativas. O imóvel encontra-se fechado desde que o temporal de 18 de Janeiro o afectou, sobretudo ao nível do telhado, instalação eléctrica e comunicações. “Tivemos muita sorte porque como estávamos em altura de balanço tínhamos os livros fora do alpendre”, contou a responsável pela livraria, Mafalda Milhões à Gazeta das Caldas.
Entretanto, o tempo não permitiu a colocação do novo telhado, tendo as obras na antiga escola primária dos Casais Brancos, apenas arrancado a 23 de Abril. F.F.