OPINIÃO: Diversidade do Jazz mostrou-se nas Caldas

0
152354

O Jazz internacional voltou às Caldas da Rainha no passado fim-de-semana. A abrir a terceira edição do Caldas Nice Jazz, os cantores Anthony Strong e Tokunbo protagonizaram no grande auditório do Centro Cultural e de Congressos dois espectáculos de grande nível mas bem distintos. Se um foi a tese do jazz clássico, o outro foi a síntese do que poderá estar por vir.
Em fim-de-semana de alerta meteorológico a nível nacional, Anthony Strong voltou a mostrar uma vez mais que é um autêntico furacão em palco. Entrou em cena com a promessa de divertir a audiência e não desiludiu. Ao longo de uma hora e meia, disparou, literalmente – porque cantadas a um ritmo alucinante – algumas das mais emblemáticas composições do cancioneiro popular norte-americano e também um par de peças da sua autoria.
As hostilidades musicais abriram com uma versão plena de swing do clássico “Steppin’ Out with My Baby”, composto por Irving Berlin nos anos 1940, e seguiram sempre em andamento rápido, a puxar pelo fôlego dos espectadores. Se “Luck be a lady” foi a ocasião certa para Anthony Strong puxar pelas palmas ritmadas do público, “Delovely” permitiu-lhe recordar Cole Porter e “My ship” trouxe às Caldas a memória do  compositor Kurt Weil. Lá mais para a frente do espectáculo, o cantor britânico havia de convocar também para a sua ceia jazzística a obra de George Gershwin, representado pelo emblemático “They can’t take that away from me”, e regressaria a Irving Berlin, através do clássico “Cheek to Cheek”, e a Cole Porter, com “Too darn hot”.
O ímpeto de Strong, na voz e ao piano, só acalmou ao décimo terceiro dia, que é como quem diz na décima terceira canção. Em “Learning to unlove you” o cantor aceitou finalmente entregar-se a uma balada, talvez por ser uma composição da sua autoria. Antes, em “The gambling man blues”, recordou os tempos em que era estudante da arte das artes e em que passava os dias a jogar poker online, certamente com o mesmo ritmo frenético com que vive e actua em palco. “Unforgettable”, popularizado por Nat King Cole, e “Overjoyed”, de Stevie Wonder, quase não lhe sobreviveram em palco, ao contrário de “Hallelujah I Love Her So”, que fez justiça ao génio de Ray Charles.
Depois da tempestade, a bonança
Ao forte furacão Anthony sucedeu a bonança de Tokunbo, cantora criada entre a Nigéria e a Alemanha e celebrizada como vocalista do grupo alemão Tok Tok Tok.
O jazz de Tokunbo não é já o jazz de Anthony Strong, ainda profundamente alicerçado na herança de Nova Orleães e formatado pelo revivalismo da era do swing e dos grandes crooners, como Frank Sinatra. A cantora prefere navegar pela fusão com a soul e com as músicas do mundo, anunciando um jazz que está por vir. No seu repertório não entram por isso nem Cole Porter nem George Gershwin. Todo o seu cancioneiro é povoado por composições originais que falam de temas contemporâneos, desde a amizade, como sucede em “Apple pie”, até à discriminação, em “Gypsy girl”, e à vulnerabilidade, evocada em “Cast away”.
A reacção à proposta musical de Tokunbo não é contudo linear: primeiro estranha-se, depois entranha-se. Sobressaem a suavidade da sua voz e a sobriedade que a cantora exibe em palco, ambas sublinhadas pela ausência da bateria. Ao invés do habitual esquema instrumental, Tokunbo prefere o violino, o baixo acústico e a guitarra, também ela acústica.
O resultado final pode ser sentido pelo público como uma sucessão de canções pouco diferenciadas e até monótonas. Tal deriva, contudo, não de uma qualquer incapacidade vocal para criar dinâmicas, mas sim de uma opção estética assumida por Tokunbo. A sua música é assim mesmo e todo o contexto instrumental é em si próprio uma parte integrante da mensagem que a cantora e guitarrista quer comunicar. Embora diferente, porque com outras referências culturais, evoca, por vezes, o universo musical criado por Lizz Wright ou até mesmo alguns trabalhos mais recentes de Cassandra Wilson.

João Moreira dos Santos
Crítico de jazz. Autor do programa «Jazz a Dois» (Antena 2)