Pai passa vivências com as filhas para BD

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Alexandre Esgaio é autor de livros de BD e é ilustrador de livros infantis. Deixou a psicologia para se dedicar às artes

O nazareno Alexandre Esgaio, autor de BD, revela o que vive quando cuida das duas filhas. Situações hilariantes, amorosas e bem-humoradas não faltam neste novo livro

A Nazaré é conhecida por ser uma sociedade matriarcal, mas há exceções e Alexandre Esgaio é um bom exemplo. Pai de duas meninas, este nazareno não pode descurar o cuidado às garotas, mas não se pode esquecer que tem, também, uma casa para arrumar, roupa para lavar e comida para fazer…. Eis o D.A.D. – o acrónimo de Desempregado, Artista e Dona de Casa -, personagem autobiográfica que já tinha publicado, mas ganhou novo fôlego na pandemia, chegando agora aos escaparates das livrarias.
D.A.D. foi editado pela Suma de Letras, tem 128 páginas, e reúne tiras onde a personagem “sofre” às mãos das irrequietas filhotas. O autor diz que se inspira nas situações do quotidiano para criar as tiras, não decalcando do real, mas transformando e até exagerando situações, tornando algumas hilariantes.
Há espaço para birras, para quedas e tropelias várias. Assim como há também referências a grandes nomes da arte, homenagens do autor que surgem nalgumas estórias e que surpreendem os leitores.
“Comecei por divulgar as ilustrações do D.A.D. no meu blogue e redes sociais”, contou Alexandre Esgaio à Gazeta das Caldas, explicando que o impacto foi imediato. De tal forma que acabou por publicar uma edição de autor, um especial que incluía os desenhos que fez, um por dia, durante a quarentena.
“A reação foi fantástica!”, disse Alexandre Esgaio, dado que o livro esgotou rapidamente e o autor teve de fazer uma segunda edição. O interesse do público manteve-se e, como tal, acabou por surgir o convite da editora Suma da Letras para Alexandre Esgaio publicar o novo D.A.D..
O autor formou-se e exerceu Psicologia Clínica infantil durante seis anos. Considera-se “psicólogo para sempre”, apesar de desenhar e de querer fazê-lo a tempo inteiro. Algo que para já, diz, ainda não é possível e, como tal, trabalha também num armazém de livros para uma editora.
As filhas de Alexandre Esgaio têm 14 e 7 anos mas são retratadas desde pequenas nas tiras.
“Não gosto de apenas transpor situações do quotidiano para o papel”, disse o ilustrador, que prefere transformar as situações. Por vezes exagera-as e tornando-as meio alucinadas.
Em sua opinião, o livro ultrapassa a questão de ser uma relação de pai e filhas, pois, na verdade, “é uma BD sobre relações humanas”.
O ilustrador diz que se deixa influenciar por quase tudo, pois está sempre a ter novas ideias para as suas ilustrações. E uma das áreas de casa que está sempre a contribuir para novas tiras é a cozinha. Ou seja, é entre tachos e panelas que o desenhador ganha novas inspirações para o trabalho criativo.

Este é um autor que desenha, ilustra e que “rouba” plástico ao mar

 

Plástico das praias para criar
Há uma outra vertente criativa a que Alexandre Esgaio se dedica.Sendo um autor que se preocupa com o ambiente, é comum encontrá-lo nas praias – da Grande Lisboa e também quando regressa à Nazaré – a recolher lixo. Mais interessante é o que faz com o lixo, pois cria peças artísticas.
Começou por recolher plástico com amigos e trazia apenas um saquinho com algum plástico. “Agora passei a trazer toneladas!”, contou o autor, que encontra redes, garrafas, boias, brinquedos, cordas, filtros de ETAR, chupetas e apetrechos de pescadores e muitas tampas de garrafas.
Com estas peças, o ilustrador faz intervenções de arte. Uma das últimas foi um tentáculo gigante, uma peça construída com plástico que foi apanhado em várias praias da costa Oeste.
Para a construção das peças, Alexandre Esgaio contou com a ajuda de um grupo de mulheres migrantes e refugiadas no espaço da Associação Renovar a Mouraria, inserido no programa europeu Wemin (programa piloto de inserção de mulheres migrantes e refugiadas).

Artista diz que é urgente começar a agir em relação à proteção do planeta

O tentáculo gigante esteve exposto na Fundação Gulbenkian durante a Conferência Internacional “A Travessia – Refugiados Climáticos, que futuro?” e, mais tarde, passou a estar exposto no espaço da Associação Renovar a Mouraria.
As ventosas deste tentáculo foram feitas com as tampas plásticas de garrafas encontradas nas zona de costa.
“Aproveito materiais que encontro na rua”, disse o artista, que reaproveita, por exemplo, velhas gavetas que servem de base para pinturas, transformando, assim, o lixo em obras de arte.
Por vezes, pinta tábuas em madeira e avisa no Facebook onde as deixou para os interessados as podem ir buscar.
Entretanto, o nazareno garante que a personagem D.A.D “é para continuar”, assim como o trabalho de ilustrador infantil. Tem no seu CV a ilustração de várias obras de autores e editoras, tendo inclusivamente ilustrado obras para os mais novos sobre temas como a perda ou o divórcio. É, ainda, o ilustrador da obra “Roubar ao Mar” de Carmen Zita Ferreira.
“Gosto muito de ilustrar histórias de outras pessoas”, disse Alexandre Esgaio que tem na calha um novo projeto de ilustração, dado que pediu histórias a cinco autores e espera dar-lhes vida a seguir complementando as narrativas com os seus desenhos. E o artista vai também dar continuidade à sua fanzine “É Fartar Vilanagem!” e ao blogue “Maria Macaréu”, onde partilha os seus desenhos, a sua banda desenhada e ainda o seu amor pelo rock n’ roll e também pelo mar. ■