Presidente da Três Cês critica Festa da Cerâmica

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Notícias das Caldas
Jean Ferrari diz que “não é com palestras na ESAD e exposições no Museu que se apoia a cerâmica de autor” (Foto de Arquivo)

Jean Ferrari, presidente da Associação Três Cês (Cerâmica Criativa Contemporânea), não está satisfeito com a Molda, um evento que integra a Festa da Cerâmica e que decorreu em 2016. Para o dirigente é preciso apoiar os autores, não bastando realizar conferências e exposições.

Jean Ferrari diz que há autores que estão a deixar a cerâmica e que são necessárias políticas de apoio à criação. “É preciso trazer a cerâmica para a rua, ao encontro das pessoas nos mercados, nas praças e nas praias”, defende o representante dos ceramistas contemporâneos, não só da região como de todo o país.
Este arquitecto francês tem casa na Serra dos Mangues (perto de S. Martinho do Porto) e reparte a sua vida entre Portugal e França, dedicando-se em simultâneo à arquitectura e à cerâmica.
“No princípio até achei a Molda uma boa iniciativa”, disse à Gazeta das Caldas, mas depois de ver que o evento apostava essencialmente em conferências e em exposições, concluiu que “não é a cerâmica que se destaca, mas é a cidade que sobressai”.
Estranha que não se refira o contexto geral dos projectos que liga as cidades de cerâmica de Portugal e de outros países europeus, que tiveram os primeiros encontros em Alcobaça. Admirou-se ainda com o facto das Caldas não se ter aliado àquele concelho vizinho onde há pelo menos meia dúzia de fábricas de carácter inovador. “Caldas avançou sozinha e, aparentemente, não está a colaborar com ninguém”, acrescentou o responsável, que defende a continuidade territorial para que qualquer projecto ligado à cerâmica possa crescer.
Assim, na sua opinião, a Molda é uma iniciativa onde a cerâmica serve apenas de pretexto para as Caldas “se orgulhar de ser a cidade onde se estão a desenvolver este tipo de projectos”.
O representante dos ceramistas diz que a situação económica de vários autores “é pior do que era há dez anos” e que muitos estão a desistir, não podendo suportar as despesas das deslocações de eventos que se realizam longe das zonas de residência.
Este ano não houve a feira de cerâmica contemporânea anual em S. Martinho do Porto, uma realização que a Três Cês organiza há mais de uma década. Esta foi substituída por uma exposição integrada na Feira de S. Bernardo, onde se aliou a cerâmica de autor às peças de unidades industriais alcobacenses. De ano para ano, são menos os autores a participar, sobretudo os que vivem longe do Oeste e para quem é difícil suportar as despesas inerentes às participações. O dirigente defende que, para garantir a participação dos ceramistas, é necessário apoiar financeiramente as suas deslocações e estadias.
“A crise obriga a que os autores tenham mais do que uma ocupação, impossibilitando que possam participar regularmente nos eventos”, referiu o responsável.
O desconhecimento por parte do público também não ajuda a valorizar a cerâmica de autor e, por isso, considera importante apostar na formação. “Não é fazendo palestras na ESAD e exposições no Museu que se apoia a cerâmica de autor”, disse o dirigente que defende eventos para o público em geral para que este possa ver trabalhar ao vivo e, assim, “perceber porque é que uma peça vale cinco e outra vale 50 euros”.
O dirigente recordou que há escolas caldenses – ESAD e Cencal – de onde saem ceramistas que precisam de apoio na fase inicial da sua carreira. “Há necessidade de apoiar a criatividade e isso não se faz com palestras e exposições”, disse. Por isso, propôs que existisse um sítio bem localizado na cidade, que se tornasse num atelier de trabalho ao vivo que receberia autores e recém-formados em cerâmica. Seria um espaço de realização de exposições e de venda.
Para motivar o público, Ferrari gostaria de aliar a execução de trabalhos ao vivo, com cozeduras de peças, exibição de filmes e venda de peças de autor. “As pessoas param, escutam e, se estiverem interessadas, ficam”, disse acrescentando que “é preciso trazer a cerâmica para a rua”.