Rafael Bordalo Pinheiro nasceu há 175 anos e a sua alma era caldense…

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Rafael Bordalo Pinheiro nasceu a 21 de março de 1846 e viveu nas Caldas em finais de oitocentos. Completam-se 175 anos do seu nascimento, data que tem sido assinalada em Lisboa e nas Caldas, onde fundou a sua fábrica de cerâmica. Em breve terá, no centro da cidade termal, um novo monumento

Para a historiadora de arte Raquel Henriques da Silva, Bordalo (1846-1905) é tão importante para a cultura portuguesa “que poderíamos celebrá-lo todos os anos e não apenas nas datas “redondas”.
No entender daquela académica, Rafael Bordalo Pinheiro (RBP) é uma figura “que continua plenamente atual” que deixou marcas nas áreas da ilustração, caricatura, cerâmica e na produção de jornais e revistas.
“Uma das coisas que nos permitem constatar a grandeza de Rafael é que os mais novos adoram trabalhar a partir dele e com o repto dele”, salientou a investigadora, sublinhando que as críticas que o criador fez à sociedade portuguesa e aos portugueses em geral são atualizadas.

Bordalo veio para as Caldas em finais de oitocentos. Fundou a fábrica em 1884

O criador multifacetado e as Caldas da Rainha são indissociáveis

Raquel Henriques da Silva recordou que RBP viveu no final do século XIX, “num regime com alguma liberdade, apesar de ter sido perseguido pela censura por causa dos seus trabalhos”. No entanto “ele conseguia dar a volta à situação”, referiu.
Em sua opinião, Rafael “conheceu algum sucesso lá fora”, nomeadamente, nas exposições universais onde participou como a de Paris em 1889.
O artista, que se dividia entre Lisboa – de onde é natural – e as Caldas, onde se fixou em finais de oitocentos, era oriundo de uma família ligada às artes.

Grupo de Aprendizes da Fábrica em 1888. Diretor Artístico Rafael Bordallo Pinheiro, sentado ao centro, entre os aprendizes da Fábrica de Faianças da Companhia das Caldas da Rainha, abriu em 1884 e chegou a ter uma escola. Identificamos, assim, este grupo Da esquerda para a direita- Fila do fundo José Francisco (formista), Etelvino Santos (rodista), José Couto (pintor), Francisco Vitorino (formista), Avelino Belo (modelador), Daniel Sousa (pintor), José Carlos dos Santos (pintor), Francisco Elias (modelador), Francisco Lucas (formista) e João Gil (formista) Segunda fila Alfredo Galrão (formista), António Angélico (formista), João Angélico (formista), José Lucas (formista), Evaristo Alves (formista); Luís do Couto (formista), João Pereira dos Santos (pintor), António Mafra (formista) e Francisco da Clara (formista) Francisco Elias e Avelino Belo foram colaboradores de peças, consideradas obras-primas, como a Jarra Beethoven

Bordalo “apaixonou-se pela qualidade material da cerâmica tradicional das Caldas e daí ter apostado na criação da sua fábrica. Fê-lo dentro do espírito da época – das Arts and Crafts – ligando as vertentes artísticas à indústria”, sublinha a docente universitária, que considera que Bordalo foi influenciado não só pelos valores da cerâmica popular como pela Arte Nova. “Ele era de uma inventividade absoluta e que teve continuidade na cerâmica com o seu filho Manuel Gustavo”, referiu Raquel Henriques da Silva.
Embora haja outros artistas de relevo seus contemporâneos, como o irmão Columbano, ou o pintor caldense José Malhoa, Bordalo “é a figura mais moderna do seu tempo”.
A historiadora sabe que o artista terá em breve um novo monumento em sua honra que será colocado no centro da cidade e acha que o reconhecimento “é devido”.
Para a livreira Isabel Castanheira, a presença de RBP na cidade termal já fez das Caldas um símbolo importante do universo relacionado com este autor. A ligação do artista à cidade poderia, na sua opinião, ser reforçada com a criação de um Festival de Ilustração bordaliano, dedicado, por exemplo, às criações de personagens míticas como o Zé Povinho e a Maria Paciência.
Em relação à Rota Bordaliana, esta autora considera que “merecia um guia que contasse a história das peças e também alguns mapas que mostrassem onde estão colocadas”.
A autora de vários livros sobre RBP defende, também, a criação de um centro de estudos bordalianos, que “serviria para trabalhar ao pormenor os mais diversos aspetos da sua grande obra”. Para a livreira, RBP nasceu em Lisboa “mas também pertence às Caldas da Rainha”.
Elsa Rebelo, diretora artística da Fábrica Bordallo Pinheiro, considera que RBP “fugiu à mundialidade de Lisboa e escolheu as Caldas para se misturar com a natureza e, como referiu, “fez-se operário” na sua própria fábrica.
A responsável considera que o autor “aliou a perfeição técnica à fantasia e génio criativo”, produzindo “verdadeiros delírios em barro, investindo todas as suas energias na cerâmica”. A também artista salientou que Bordalo “aplicava sabiamente na prática os conhecimentos, invadindo de força, energia e sonho os seus colaboradores e aqueles que encontrou pelo caminho nas mais diversas áreas”. E considera, ainda, que a energia de RBP “continua a ser força motriz para muitos criativos nos dias de hoje. “Aqui na Fábrica Bordallo Pinheiro, em Portugal e pelo mundo inteiro, porque a sua obra… jamais se esquecerá”, assevera.
Por seu lado, Nuno Barra, administrador da Bordallo Pinheiro e da Vista Alegre considera que o aniversário de RBP” é sempre um momento importante que deve ser assinalado”. Além disso, a ligação do artista às Caldas é fundamental e indissociável. “É uma figura incontornável das Caldas. Ele nasceu em Lisboa, mas acredito que a sua alma é caldense”, rematou o responsável. ■