Rancho Folclórico e Etnográfico “Estrelas do Arnóia” – Sancheira Grande

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Gazeta das Caldas
O Rancho Folclórico e Etnográfico “Estrelas do Arnóia” tem elementos dos 10 aos 70 anos

“O convívio é o mais importante, é aquilo que une o grupo”

 

Começaram por juntar-se para brincar ao Carnaval, mas rapidamente tiveram a vontade de criar um rancho a sério. Têm 22 anos, apresentam-se como “Estrelas do Arnóia” – numa referência ao rio que passa pela freguesia – e são hoje 40 pessoas que sobem ao palco em representação da Sancheira Grande (A-dos-Negros) e do concelho de Óbidos. Incluem nos seus trajes duas figuras únicas: a Bernarda e o moço de recados de Óbidos.

Maria de Assunção Silva. Foi esta a senhora e acordeonista que em 1995 fundou o Rancho Folclórico e Etnográfico “Estrelas do Arnóia”, grupo que nos primeiros anos actuava apenas pelo Carnaval. “Era a minha mãe. Ela sabia tocar, já tinha algum repertório, por isso decidiu criar um rancho na Sancheira Grande”, conta Luís Duarte, responsável pelo grupo praticamente desde o seu início. Os primeiros trajes não eram etnográficos, assemelhavam-se à maioria dos outros ranchos, com as saias vermelhas em destaque. Foi em 2000 que o guarda-roupa mudou.

“Percebemos que aqueles trajes carnavalescos não tinham nada a ver com folclore, não eram representativos das antigas tradições da nossa aldeia, daí que tenha havido a necessidade de mudar”, explica Luís Duarte, salientando que antes de avançar com novos trajes o rancho dedicou bastante tempo à recolha de informações junto da população mais idosa da Sancheira e arredores. Perguntaram como é que as pessoas se vestiam no início do século passado, quais eram as principais actividades económicas da localidade, que profissões existiam que entretanto o tempo fez desaparecer. Ouviram testemunhos, viram fotografias, pesquisaram até no arquivo da Torre do Combo. Só depois recriaram o modo como se vestia aquela gente.
Hoje sobem ao palco com os trajes de padeira, alfaiate, trabalhador da eira, ceifeiro, moleiro, domingueiro, noivos, traje de ir à missa e o de negociante de gado. Mas aquilo que mais os distingue de outros ranchos são as figuras da Bernarda e o traje tradicional de Óbidos. A primeira era uma mulher forte que fazia o transporte do gado até Lisboa, o segundo era um rapaz cuja única função era fazer os recados às senhoras ricas de Óbidos. Embora não fosse uma pessoa abastada, o moço de recados tinha que estar sempre apresentável: usava umas calças brancas com uma cinta vermelha, uma camisa riscada e um chapéu de palha.
Mas a preocupação com a etnografia não se deu apenas ao nível dos trajes. As actuações do rancho “Estrelas do Arnóia” passaram também a incluir algumas representações, como é exemplo uma descamisada (desfolhada do milho) numa eira, que acompanha a música “Vira do milho rei”.
“Pretendemos apresentar um espectáculo equilibrado: nem teatro a menos, nem dança a mais”, realça Luís Duarte. Algumas das modas deste rancho são a Valsa a Dois Passos, Fadinho Batido, Verde-Gaio e Contradança. Como a Sancheira Grande é uma aldeia que fica muito próxima da antiga Estrada Real (actual EN115), e durante muito tempo esse foi o único caminho que ligava Caldas da Rainha a Lisboa, passava por aquela terra muita gente. Desde pessoas que iam aos banhos no Hospital Termal, como outras que se deslocavam à região para trabalhar nas campanhas agrícolas. “Como pernoitavam na Sancheira, acabámos por absorver as suas danças e trajes típicos”, acrescenta o responsável.

JOVENS COM VONTADE

Já passaram 22 anos e nem tudo foram rosas. É assim que Luís Duarte reflecte sobre o seu percurso enquanto principal responsável do rancho. “Já tive momentos em que me senti muito cansado e até pensei em desistir. Houve também uma altura em que fiquei sozinho, porque toda a direcção abandonou o projecto, e eu nem sabia reservar um autocarro na Câmara. Cheguei a ter que me impor a pessoas que eram minhas colegas na escola, outros que tinham idade para serem meus pais”, desabafa Luís Duarte, salientando que actualmente tem um grupo de jovens em quem confia para “passar a pasta”. Esse dia há-de chegar.
Luís Capinha, 25 anos, tem sido o braço direito de Luís Duarte. Organizou este ano, em conjunto com outros elementos da sua idade, o festival de folclore na Sancheira Grande, o primeiro em 22 anos que deu lucro. Além do espectáculo com os ranchos convidados, a organização preparou um jantar para a população animado por um conjunto de baile (para o qual se inscreveram 180 pessoas) e também vendeu mais de 400 rifas. Resultado? “O festival pagou-se a ele mesmo e ainda nos sobraram 500 euros”, revela Luís Capinha, que é hoje responsável pelos contactos com os outros grupos de folclore e pelo agendamento das actuações.
Luís Duarte praticamente não esteve envolvido nos preparativos para o último festival, realizado no primeiro fim-de-semana de Setembro. “Confesso que fiz quase de propósito, para ver até onde é que aquela equipa tão jovem conseguia ir. A verdade é que cumpriram todos os objectivos e conseguiram provar a um conjunto de pessoas mais velhas que eram capazes”, afirma, realçando que há agora um maior espírito de união dentro do grupo do que há uns anos. Mesmo que só sejam necessárias três pessoas para determinada tarefa, oferecem-se seis: há mais gente a querer ajudar, a maioria com fortes raízes no rancho porque começou a dançar em criança. Como é exemplo Luís Capinha.
Tinha 10 anos quando se estreou pelo “Estrelas do Arnóia” e já nasceu a ouvir folclore, com a mãe, a tia e a avó a pertencerem ao rancho “Alegria da Nossa Terra” das Trabalhias. Foi depois numa das actuações do grupo da Sancheira Grande nas comemorações do 25 de Abril (em A-dos-Negros), que Luís Capinha decidiu pedir à família para experimentar. Passaram-se 15 anos.
 “Já aqui cresci muito e aprendi enquanto pessoa, já conheci lugares que nunca teria conhecido caso não andasse no rancho, já fiz muitos amigos. Sem dúvida que o convívio é o mais importante, é a mais valia que une o grupo”, conta o jovem, que relembra as palavras do seu avô quando entrou para o rancho. “Dizia-me que o ‘Estrelas do Arnóia’ era uma amostra de rancho, que bons eram os outros do concelho, mas hoje já reconhece que o nosso é dos melhores e mais falados”, refere Luís Capinha.
O rancho de A-dos-Negros fez este ano cerca de 15 serviços. Já actuou de Norte a Sul do país – Portimão, Aljezur, Braga, Águeda, Vila Praia de Âncora, Arganil, Porto, Matosinhos e Ovar são alguns dos locais por onde passou – e conta ainda com uma internacionalização.
Em 2002 partiu em direcção à Galiza (As Pontes de García Rodriguez), numa viagem que foi uma verdadeira aventura. Isto porque Luís Duarte confiou na palavra de “nuestros hermanos” e fez o contrato de permuta por telefone, sem assinar nada. Quando chegou ao ponto de encontro com o rancho espanhol, em Santiago de Compostela, não tinha quaisquer informações e garantias sobre o local onde o seu grupo ia pernoitar e se estavam asseguradas as refeições. “O mais engraçado é que ninguém sabia disto, todos os elementos pensavam que eu tinha tudo controlado desde o início”, recorda o responsável, que em breve espera poder levar novamente o rancho “Estrelas do Arnóia” ao estrangeiro.

 

22 anos de história…

9 de Fevereiro de 1995: Criação do Rancho Folclórico e Etnográfico “Estrelas do Arnóia”, na sequência de uma brincadeira de Carnaval.
1997: Participação na gravação do CD das comemorações dos 850 anos da vila de Óbidos com a música “Marcha da Sancheira”.
2000: Início de uma recolha etnográfica junto da população de Sancheira e arredores; mudança para os trajes actuais, representativos das tradições da localidade e do concelho.
2002: Primeira internacionalização, com uma actuação em Espanha (As Pontes de García Rodriguez)
2011: Participação no programa de festas da RTP, gravado em Óbidos
2012: Apresentação para o Comité Olímpico de Badminton em Óbidos; Participação no projecto “Maiando os Maios”; Medalha de Mérito atribuída pela Junta de Freguesia de A-dos-Negros.
Todos os anos, no 1º fim-de-semana de Setembro, o rancho organiza o seu festival de folclore.