Urbanismo de Paulino Montez pode ser aproveitado para um roteiro turístico

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João Maia e Silva junto ao seu trabalho onde se encontra a interpretação que fez do Plano de Paulino Montez (1949) | N.N.

“As Caldas da Rainha de Paulino Montez” é o título de um projecto de investigação do arquitecto João Maia da Silva, que foi apresentado a 13 de Janeiro na Galeria do Espaço do Turismo.
O investigador esteve nas Caldas a estudar o território e a pesquisar o que resta do plano urbanístico de Paulino Montez, feito em 1949. Para o autor, há condições para se constituir um roteiro pelas zonas urbanísticas criadas nos anos 40, podendo assim perceber-se o que resta daquele plano e compreender melhor a configuração da cidade de hoje.

O trabalho de investigação de João Maia e Silva teve como objectivo reconhecer e mapear a cidade das Caldas de Paulino Montez (Peniche, 1897- Lisboa, 1988). O autor quis produzir um guia que permita ao visitante percorrer a cidade e ver o que resta do Plano Geral de Urbanização de Paulino Montez de 1949. Este autor trabalhou para o Estado Novo numa época em que havia vontade governamental em que as cidades tivessem planos urbanos. “O grande cérebro foi o engenheiro Duarte Pacheco que coordenou esse projecto e o arquitecto Paulino Montez surge nesse contexto”, disse João Maia e Silva, arquitecto de Braga que efectuou este estudo sobre as Caldas. Apesar do autor do plano estar ligado ao regime – que tinha uma visão conservadora no que diz respeito à cidade -, Paulino Montez conseguiu ir um pouco mais além no que diz respeito ao planeamento da cidade. No seu traçado, incorporou tendências recentes, influenciadas pelo City Beautiful, um movimento norte-americano do início do séc. XX que deu origem ao modernismo e influenciou os planos das cidades de Detroit, Chicago e Washington D.C.. Esta escola utilizava composições muito axiais e simétricas que foram usadas nalgum traçado caldense.
Para traçar o seu plano, Paulino Montez apostou na criação de zonas específicas. A zona histórica já estava bem delimitada e a esta somou-se o centro administrativo das Caldas que ainda hoje se mantém e onde se concentra a Câmara, o Tribunal e a igreja. Os seus edifícios, em estilo “português suave”, são normalmente identificados com o Estado Novo. “Paulino Montez gostaria que aquele estilo de edifícios tivesse sido respeitado e continuado na urbanização da Avenida 1º de Maio”, disse João Maia e Silva.
O autor do Plano de 1949 preocupou-se também com as entradas da cidade. A que se situa a sul (onde se encontra a estátua da Rainha) tinha como função ser um centro recreativo pois tinha o Parque e os hotéis da cidade. Montez criou também um eixo comercial que liga o centro histórico à estação ferroviária. Esta última era considerada uma porta importante dado que “a chegada do comboio era fundamental”, comentou João Maia e Silva. Quem chegava às Caldas, desembocava logo numa avenida que, naquela época, tinha também “um carácter de praça”. Para João Maia e Silva trata-se de reconhecer uma porta principal “que nos conduz para o centro moderno da cidade ou nos empurra para conhecer a parte histórica”. A partir daquela zona, “conduzia-se os visitantes para as zonas importantes das Caldas”, disse.
O arquitecto, de 30 anos, comentou que, para Paulino Montez, “a organização da cidade obedecia a uma hierarquia de funções muito bem delimitadas”. O autor do Plano de 1949 também se preocupou em criar eixos de ligação territorial com o território circundante à localidade.
Para João Maia e Silva é fundamental conhecer o plano de Montez para compreender “porque é que a cidade hoje é assim e não de outra maneira”. E essa informação é útil “para os arquitectos que vão intervir nas Caldas como para os turistas que se interessam em conhecer melhor as cidades que visitam”.

“Descobrir as camadas das cidades”

João Maia e Silva obteve uma bolsa para efectuar este trabalho. O arquitecto investigador gostou de descobrir as sucessivas camadas construtivas que constituem a cidade das Caldas. “Foi o que mais gostei na minha investigação: descobrir e desmontar essas diferentes fases”, disse o autor, acrescentando que foi agradável, relativamente a Paulino Montez, perceber o dualismo do seu plano. Por um lado, a visão oficial imposta pelo regime e, em simultâneo, “a sua vontade em aplicar traços de outras tendências”. Para entender a cidade das Caldas é necessário “perceber a visão urbana que Paulino Montez idealizou, sendo que a cidade actual não é nem esta visão, nem é totalmente independente dela”.
O investigador considera que Paulino Montez foi um dos agentes de transformação do território caldense e que permanecem ainda muitos dos traços do seu plano. Assim, defende que este estudo “pode estimular um conhecimento desta cidade à luz deste plano”, bem como “fornecer algumas pistas conceptuais para uma eventual intervenção futura sobre esta cidade”.
Além das Caldas, Paulino Montez foi o responsável por planos de urbanização de Mafra, Peniche, Foz do Arelho, praias da Consolação, de S. Bernardino e do Baleal. Foi também professor de Urbanologia na Escola de Belas-Artes de Lisboa. Nas Caldas ainda organizou a V Exposição Agrícola, Pecuária, Industrial e de Automóveis (1927), além de ter criado o pedestal do monumento ao pintor José Malhoa (1928). Foi membro do júri do Concurso para o Monumento à Rainha D. Leonor e delineou o anteprojecto para o edifício do Museu José Malhoa (1934), erguido em 1940, com desenvolvimento do arquitecto Eugénio Corrêa.
A mostra, patente na Galeria do Turismo (onde este estudo sobre as Caldas se integra) destaca o património arquitectónico das cidades portuguesas no séc. XX entre 1910 e 1974 e integra outros trabalhos de investigação de autores que participaram na 2ª edição do Programa de Bolsas de Investigação para jovens Arquitectos. Pode ser vista até ao final de Janeiro.