Zeca Afonso tem papel central na música contemporânea lusa

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Musicólogo deu a conhecer a música de intervenção deste cantor-cidadão

Rui Vieira Nery veio às Caldas falar da música de Zeca. E considera-o uma figura incontornável da música portuguesa do século XX

 

“Zeca Afonso é uma figura central da cultura portuguesa do século XX”, disse o musicólogo Rui Vieira Nery, no sábado, 27 de maio, no CCC, em mais uma iniciativa do núcleo da Associação José Afonso (AJA) das Caldas, no âmbito da celebração dos 40 anos da Festa da Amizade, realizada nesta cidade.
Em noite de várias iniciativas, o pequeno auditório esteve a meio gás para ouvir o especialista, que explicou o percurso do músico de intervenção “que é, sem dúvida, uma figura incontornável sobretudo se pensarmos em Zeca como compositor e que é inseparável também como cidadão e como homem do mundo”. Na sua opinião, Zeca Afonso teve também “uma dimensão internacional importante” pois ao longo da sua carreira atuou várias vezes em Espanha, França, na Alemanha, Itália e chegou a ir ao Brasil.
No entanto, nos eventos e festivais dedicados às canções de intervenção, o cantor encontrou “o seu espaço natural e teve a oportunidade de se encontrar com os grandes nomes latino-americanos que faziam intervenção através das canções”. E ainda acrescentou que esses cantores referem Zeca Afonso “com um respeito e admiração muito especial”. Atualmente, com o circuito que existe dedicado à World Music, o musicólogo crê que o cantor “teria tido uma outra visibilidade e repercussão”.
Por outro lado, Nery duvida que Zeca Afonso desejasse essa projeção, esse reconhecimento no mercado internacional. “Penso que ele estaria mais ligado ao trabalho que fazia no que diz respeito à intervenção cívica e cultural no seu país”, disse. O convidado considera mesmo que Zeca Afonso não era um artista de mercado que quisesse “ser exibido de palco em palco. Não era essa a sua ideia como autor”.
Para o investigador, José Afonso alia a música de tradição de Coimbra à sua formação cultural e literária “que é muito rica”. Mostra que a conhece a fundo, desde os trovadores portugueses sem esquecer Camões. Noutras canções revela-se conhecedor da poesia portuguesa contemporânea e tanto revela ligação à poesia surrealista “como noutros temas se mostra fã da poesia popular. Em todos os temas, dá-lhe um traço pessoal”, disse. No final, o musicólogo deixou a nota que é necessário entrevistar quem privou com o cantor de modo a completar a sua história e o legado deste grande artista que tem várias ligações às Caldas da Rainha. ■