Tratores marcharam até às Caldas em protesto

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Tratores em Óbidos, antes de seguirem para as Caldas

Reivindicar a adoção de medidas que reabilitem a agricultura do Oeste, e do país, é o objetivo do movimento cívico de agricultores que já possui um manifesto reivindicativo para entregar ao próximo titular da pasta da Agricultura

Raquel Silva saiu de trator, do concelho do Bombarral, às 7h00 da manhã da passada quinta-feira (15 de fevereiro) e regressou já era de noite. A agricultora, que integra o Movimento de Agricultores do Oeste de Portugal, juntou-se ao protesto que envolveu cerca de duas centenas de tratores e máquinas agrícolas numa marcha lenta entre o Bombarral e as Caldas da Rainha por melhores condições no setor.
“Produzo pera rocha e uvas e tenho sentido muitas dificuldades.  Ao nível da fruticultura não conseguimos produzir quantidade para fazer face à despesa, porque existe muito desperdício e que gostávamos de eliminar. Já na vinicultura o vinho não é escoado, estamos com uma grande retenção a nível nacional”, explicou à Gazeta das Caldas.
Também Rui Henriques, fruticultor nos Vidais, aderiu ao protesto. Começou por se juntar a outros agricultores, provenientes de  Alvorninha, Salir de Matos, Vidais, S. Gregório e Fanadia, perto da central fruteira da Frutalvor e, juntos, partiram rumo ao largo do Santuário do Senhor da Pedra, em Óbidos, onde viriam a concentrar-se todos e seguirem para as Caldas. “Temos de lutar pelos nossos direitos. A nossa zona é caracterizada por ter uma agricultura de qualidade mas o preço dos combustíveis, adubos e fertilizantes faz com que o custo de produção seja cada vez mais alto e o preço de venda não está a acompanhar esse custo”, explicou. O também presidente da junta de freguesia dos Vidais realça que, enquanto não houver regras para o produtor receber o preço justo de produção, “a agricultura tem os dias contados”. Garante que a grande diferença entre o preço que sai da exploração e o que é pago pelo consumidor final fica nos intermediários, defendendo que é preciso tomar “medidas urgentes” para uma reforma agrícola. Outros problemas com que se deparam são o aumento de doenças e pragas, sobretudo na pera Rocha, e a existência de menos apoios.
Proveniente de uma família de agricultores, Rui Henriques salienta que está a ser cada vez mais difícil a continuidade no sector e que há jovens que se vêem obrigados a abandonar a agricultura. “São motivados a fazer projetos, mas têm de recorrer à banca para fazer o investimento e só depois é que recebem o apoio. Além disso, depois também é muito complicado receberem o dinheiro e, por vezes, torna-se insustentável manter a atividade”, explica.
A marcha lenta, que começou no Bombarral, provocou durante a manhã constrangimentos à circulação na Estrada Nacional (EN) 8, com parte do trânsito a ser desviado para a A8. Acompanhados pelas forças policiais, os tratores chegaram às Caldas pela hora de almoço e concentraram-se no campo da feira, onde foi lido o manifesto reivindicativo. Seguiram depois em marcha pelo centro da cidade e regressaram  às respetivas localidades ao início da noite.
Manifesto reivindicativo
O movimento, que nasceu de forma espontânea há cerca de três semanas e que tem um  grupo no Whatsapp com mais de mil membros, assume-se apartidário e é constituído por representantes das várias áreas produtivas. Nicolau Félix, membro do movimento cívico e fruticultor na Capeleira (Óbidos) reconhece que o descontentamento dos colegas de outros países da União Europeia e a falta de condições para trabalhar,  que os está “empurrar para uma situação dramática”, foram a “gota de água” que os trouxe à estrada. De acordo com o responsável, os mercados estão “desregulados” e as políticas europeias criam, constantemente, novas exigências aos agricultores ao nível da higiene e segurança alimentar, de regras laborais e ambientais. Embora favorável a essas regras, Nicolau Félix realça que o seu cumprimento leva a um aumento dos custos de produção e, depois, quando há escassez de produtos,   “fazem-se acordos comerciais com países extra-comunitários, sem que eles sejam obrigados a cumprir as regras que nos exigem”. Entre as reivindicações estão a necessidade de criação de um modelo regulado que assegure uma adequada distribuição dos lucros gerados ao longo das diferentes fileiras, assim como o “rigoroso” controlo dos produtos alimentares importados de países extracomunitários.
A garantia de recursos hídricos é outra das exigências, defendendo, na região Oeste, a construção de uma rede pública de açudes e pequenas barragens para aprovisionamento de água, o avanço do “Projeto Tejo” para reabastecimento das infraestruturas hídricas e a  simplificação do processo para a realização de captações de água.
Outra das preocupações é o rejuvenescimento do setor. A idade média do agricultor português ultrapassa os 64 anos, mais seis do que a média comunitária, partilhou Nicolau Félix, acrescentando que apenas 4% dos agricultores portugueses têm menos de 40 anos, para concluir que, se nada for feito,  “não haverá agricultores em 2050.  “Continuará a haver agricultura, mas nas mãos de grupos e fundos de investimento”, alertou.
O manifesto, que está a ser assinado pelos agricultores, será entregue ao futuro ministro da Agricultura, após as eleições legislativas de 10 de março e a formação do novo governo. No entanto, deixam a promessa: “esta foi a primeira, mas haverá mais”. ■