Escrito a Chumbo 13

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27 e 30 de março de 1974

“Assegurado: o R.I.5 continuará a ser centro de instrução de milicianos”, garantia a Gazeta das Caldas do dia 27 de março. No pós-Golpe das Caldas, a incerteza relativamente à unidade militar na cidade termal era grande. “Estamos agora habilitados a informar os leitores de que no aquartelamento militar da urbe prosseguirá o funcionamento dos cursos de sargentos milicianos”, informava, acrescentando que “os instruendos do período decorrente estão, desde quarta-feira, a receber instrução com absoluta normalidade”.

AMÉRICO TOMAZ VEIO À REGIÃO
Outro dos destaques passava pela vinda do Chefe de Estado a Peniche e a São Martinho do Porto. “O senhor Almirante Américo Tomás, acompanhado por membros do Governo, esteve ontem na vila de Peniche onde visitou as obras em curso para ampliação do porto de pesca. À tarde o Chefe do Estado deslocou-se a São Martinho do Porto e aí examinou os resultados dos trabalhos de desassoreamento da baía. O Presidente da República foi recebido, em qualquer das duas localidades, pelo governador civil, presidentes das Câmaras de Peniche e de Alcobaça e pelas demais autoridades locais”, lê-se.

DESIQUILÍBRIO E INQUIETAÇÃO
Há um outro artigo que, pela atualidade política, nos chama a atenção. “Desequilíbrio e inquietação” é o título. “Existe hoje, na verdade, um problema sério que anda na preocupação de toda a gente: para onde vai a juventude? pergunta-se, a cada passo, em presença de certos desmandos que os jovens praticam. O problema não diz respeito apenas a nós, antes pelo contrário, atinge lá fora uma periculosidade bem mais activa e perniciosa do que em Portugal. Por quê? É complexa a razão determinante e múltiplas serão as causas que a originam. Diremos, no entanto, que a fonte de tal inquietude residirá, talvez, na falta de orientação e de disciplina atribuída aos pais, abrindo mão de certa austeridade que antigamente constituía a regra fundamental da educação dos filhos. O após guerra foi doloroso não apenas para a criança que se viu privada do pai, e também da mãe, durante a sua formação; mas ainda do clima de sossego propício à educação da sua mentalidade. Por outro lado, as nações que ganharam a guerra não conseguiram, porém, alcançar a paz, vivendo-se, há anos, neste clima de incerteza que tanto prejudica não apenas o trabalho dos povos, mas, especialmente, dos jovens da hora presente. Assim, relaxando-se a vigilância do educador, o filho fica sujeito aos empurrões do meio, à crise da adolescência, sem ter, em contrapartida, quem o esclareça e o conduza à resolução dos seus instintivos problemas. Deu-se à mocidade, por escassez de vigilância e por certa condescendente transigência, uma liberdade que se tornou perigosa por se lhe permitir ultrapassar as fronteiras que lhe deviam estar vedadas. Evidentemente que não defendemos uma rigidez de princípios tão extremista que lhe venha a ser prejudicial. Não. No meio termo estará a verdade, a qual é função do educador saber dosear na proporção conveniente”, diz o jornal, sujeito ao regime vigente. “Perante a inquietação social e o desequilíbrio moral nascido da falta de formação cristã, que é tradicional na família portuguesa, e de alguns exemplos menos ortodoxos, o jovem vive hoje ao sabor das ideias, sem um rumo definido que o oriente, descontente com os outros e consigo próprio. E lança-se, então, ao sabor dos instintos, que certas correntes favorecem, disposto a viver o dia de hoje como a única realidade que conta e lhe dá prazer. A noção de justiça adultera-se-lhe em presença do que observa nas grandes assembleias mundiais; e a própria integridade de carácter esfarela-se-lhe nas mãos em frente do exemplo que a cada passe lhe vem ao caminho e que até algumas vezes encontra no viver adulterado do próprio lar. De certo modo, os filhos são aquilo que nós quisermos que eles sejam e que nos hão-de continuar no tempo. Se falharam, os culpados havemos de ser nós, que não os soubemos preparar para os embates da sociedade, nem refrear, nem instruir. Andam para aí raparigas ainda marcadas pela pureza inocente da idade e já moralmente se encontram sorvadas por suas atitudes sem pudor, frequentando meios que lhes não são próprios, vestindo-se por figurinos atrevidos, usufruindo una liberdade criminosa. Pergunta-se: estas raparigas terão pais responsáveis pela sua educação e dignidade?”. Mesmo conhecendo a História, não deixa de impressionar a visão que existia do mundo, da sociedade, da individualidade e do pensamento crítico, a forma como a Mulher era vista há apenas meio século atrás, em Portugal.
“Não esqueçamos que esta mocidade será amanhã uma classe responsável na continuação da Pátria e dos valores que a dignifiquem. Estará ela à altura da sua missão? E não esqueçamos ainda que os filhos são sempre os mais implacáveis juízes das acções dos pais, apesar de serem os mais benevolentes também. É certo que a razão chega um dia; mas às vezes o seu advento surge como uma irremediável frustração. E só nós, pais seremos os culpados do infortúnio duma vida a quem nunca soubémos incutir esperança, a quem jamais ensinámos a demandar o norte”. Impressiona também o jogo mental e a forma como o regime aprisionava através das restrições de informação, da propaganda (e bem pior).
E quem são estes jovens que eram referidos nesta reflexão? É a geração hoje já adulta e nalguns casos já sénior. E o que se diz hoje sobre os mesmos temas? Este exercício de reler o que se pensava e dizia no passado é bem interessante para aprender e comparar com o que se diz hoje…

A CERÂMICA DAS CALDAS
Nesta edição vemos ainda o nascer da Feira da Cerâmica nas Caldas num interessante artigo com o seguinte título “Feira Cerâmica, Pois!…”
“O Centro Cerâmico de Caldas da Rainha tem agora direito e dever de criar, manter e impor uma Feira Anual de Cerâmica, mas só e só da Cerâmica por si pensada e feita. A cidade tem, para isto, as melhores condições, sob todos os aspectos e ângulos, e isto é muito importante para o seu Comércio e o seu Turismo. Com efeito nos dias escolhidos a Feira atrairá muitos visitantes, uns para verem e comprarem para os seus lares e ofertas, outros para fazerem as suas encomendas aos fabricantes expositores, sendo certo que se verificará, entre tais outros, a presença de interessados estrangeiros de vários continentes, deixando cá lucro económico e lucro moral. Ao mesmo tempo elementos locais idóneos podem e devem avivar a Feira com Cursos de Cerâmica Técnica e Artística, Colóquios, Palestras, Exposições Simultâneas…”, lê-se na peça que diz que “têm assim as unidades Cerâmicas locais, e também o seu Artesanato, estímulo para produzirem mais e melhor, e possibilidades de mais ritmo e segurança na colocação das suas produções”, dizendo ainda que “estamos convictos de que, apesar de tudo, actualmente, a Metrópole não está suficientemente sabedora da valia das Louças Caldenses, Artística e Utilitária: a Feira instruirá…”
Na Gazeta refere-se também que “é único o rol (sempre a crescer) das peças distintas, e das suas aplicações, e dos seus sentidos, criadas pela inventiva e gosto da Cerâmica Caldense: chega e sobra para exigir e impôr uma Feira própria. A Cerâmica Caldense, nas actividades domésticas e na decoração dos lares guindou-se, pelo seu Portuguesismo e Méritos, a um lugar cimeiro que tem que defender e apontar: deve-se-lhe vénia!…Entre todas as louças decorativas é impar a louça decorativa caldense, nas formas, nas cores e nas finalidades, o que parece ser ignorado por decoradores e decoradoras responsáveis, pelo que lhes aconselhamos que meditem e completem a sua cultura, para que melhor desempenhem o seu prestimoso papel social”.
Depois explica-se que “devem-se estas linhas a uma conversa com um lúcido ceramista de cá. Aqui ficam, base e apontamento, ponto de partida para a planificação do seu objecto: a Feira Cerâmica, anual, de Caldas da Rainha, com interesse nacional”.
Mas afinal esta ideia só seria retomada alguns anos depois do 25 de Abril de 1974, no mandato do primeiro presidente de Câmara eleito democraticamente, Lalanda Ribeiro. E ainda durou vários anos esta iniciativa.

A ÁGUA
Na ordem do dia estava também o abastecimento de água no concelho. “O Ministério das Obras Públicas não tem presente o grave problema do abastecimento de água ao concelho das Caldas” é o título da peça que conta que “quem se debruça sobre as actividades de fomento prosseguidas na cidade e nas freguesias pelo Governo e pela Câmara observará que se realizaram ou estão em curso obras públicas em todos os sectores menos num. Ensino, estradas, electrificações, arruamentos, saneamento e desporto são alvo de todas as atenções. Abastecimento de água não. Concluímos que as repartições do Ministério das Obras Públicas que o tem a seu cargo estão menos atentas que os demais serviços do mesmo departamento estadual”.
O jornal diz que “quase tanto como no saneamento e mais ainda do que nos sectores restantes, as carências de abastecimento de água haveriam de ter sido ponderadas. Com vistas à tomada de medidas urgentíssimas e urgentes. Gravíssima a situação de algumas povoações do Concelho, que bebem ou podem beber de fontes inquinadas ou suspeitas de inquinação. Digna de nota a angústia de populações que perguntam a si mesmas qual o dia de amanhã perante a falta de providencias que substituam periclitante abastecimento por uma rede capaz. Ficamos por aqui. As autoridades locais, administrativas e sanitárias, equacionaram devidamente os problemas no ministério competente. Resta que este passe da inacção à actividade.”
Mas só com o 25 de Abril e com as câmaras democráticas este processo ficou concluído.

A IGREJA DE N. SRA. PÓPULO

“O monumento nacional caldense é admirado em cada dia pelos visitantes da Igreja de N. S. do Pópulo – Duas sugestões à Comissão de Turismo”, lemos no jornal de há 50 anos.
“Com a feliz decisão de transformar a Igreja de Nossa Senhora do Pópulo em centro de atracção turística, a cidade valorizou-se com mais um elemento poderoso para o seu património. Não obstante, continua o templo a ocupar o lugar que lhe compete como altar da Fé e até, neste momento, está a servir de igreja matriz que, em verdade, nunca deixou de ser. Deve ter-se presente que muitos milhares de caldenses, baptizados e casados canónicamente há mais de 20 anos, não esquecem a velha igreja anexa ao Hospital de Dona Leonor. A acção conjugada da Secretaria de Estado da Informação e Turismo e da Edilidade, sob a presidência de Artur Capristano, tornou possível o fim de um espectáculo que a nós mesmos se nos ofereceu repetidas vezes. Esse espectáculo era o de ver chegar às portas encerradas do templo do Centro Hospitalar grupos de turistas, mais de estrangeiros do que de nacionais, a quererem admirar o interior e a não o poderem fazer. Com a abertura, dentro de um horário, o esplendido tríptico seiscentista (que esteve exposto em Londres lado a lado e ao mesmo nível das maiores obras picturais de Arte Antiga), o batistério, os azulejos e as preciosas imagens ficarão patentes a um público ávido de admirar o Belo. A Igreja de Nossa Senhora do Pópulo pode ainda transformar-se num autêntico museu. Desde que existe, há séculos, ali se vêm reunindo paramentos e alfaias que conviria ficassem exposto”, conta a Gazeta das Caldas, sugerindo “à Comissão Municipal de Turismo que, com o apoio do Estado, da Igreja e da Câmara, promova tal exposição permanente embora sem prejuízo do culto. E também lhe sugerimos a propaganda conveniente desta realidade: o templo, com as suas obras de Arte, está aberto a quem o queira visitar”.
Um assunto que permanece por resolver ainda hoje.

CRÓNICA D’ALDEIA
Nesta semana encontramos ainda uma Crónica d’Aldeia na Gazeta que nos fala de: “o telefone transformado em Instrumento de arrelias em vez de agradável e útil meio de intercomunicação”.
É que “a quem, de há tempos a esta parte, tenha necessidade de se servir do telefone como meio rápido (?) de dar satisfação aos seus anseios, anseios que tanto podem ser de ordem comercial ou de modo de vida como de simples mensagem familiar espera-o uma tamanha teia de dificuldades na obtenção de livre trânsito telefónico que mais parece ter de vencer o desbravar duma densa e imensa floresta virgem do que contactar um mundo devassado pelos mais inacreditáveis meios de diálogo à distância. Chega a gente a pasmar!!!. A pasmar e a desesperar!! Não se concebe que serviços de tanta monta no escoamento de tantos e tão variados problemas da vida quotidiana, andem tão afastados das necessidades da hora presente. Perde-se muito tempo inutilmente ao telefone, meus senhores, e deixam-se de tratar muitos assuntos, relacionados até com a saúde pública, que deveriam correr seus trâmites com a presteza perante que lhes é essencial na conjuntura. Circuitos impedidos a toda a hora e indicativos que não se conseguem marcar depois de repetidas tentativas, dão ideia duma tremenda saturação de serviço telefónico que é urgente remediar. Cremos firmemente que às entidades responsáveis não passa despercebida tal situação. Ponto e que se procure resolve-la”, aponta.
50 anos depois neste campo há todo um Mundo Novo com o surgimento dos telemóveis, que fez tornar em nada uma questão que então era uma ameaça para todos!

Para a semana trazemos mais artigos escritos a chumbo, cada vez mais próximos do 25 de abril. Até lá.