Na Idade Média o Mosteiro de Alcobaça e Lisboa desenvolveram-se em simultâneo

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Gazeta das Caldas
Nos finais do século XII o Mosteiro de Alcobaça desenvolveu-se a par e passo com a Lisboa cristã conquistada aos mouros | I.V.

Sabia que na Idade Média o Mosteiro de Alcobaça se desenvolveu a par com a capital do reino, Lisboa? A historiadora Iria Gonçalves explicou a ligação entre estes dois locais, numa sessão do ciclo Manuscritos de Alcobaça, que se realizou a 14 de Julho.

 

“Embora pareça estranho, guardadas as devidas especificidades que têm a ver com uma entidade urbana e uma entidade monástica, Lisboa e o Mosteiro de Alcobaça, ao longo da Idade Média, fizeram um caminho semelhante”, explicou a historiadora Iria Gonçalves em mais uma sessão do ciclo de conferências Manuscritos de Alcobaça.
A historiadora esclareceu que estes dois locais fizeram um “percurso muito semelhante”.
Ora note-se: a Lisboa Cristã e o Mosteiro de Alcobaça nasceram em épocas muito próximas (1147 e 1153 respectivamente), pelas mãos do mesmo rei – D. Afonso Henriques – e ambas com apoio estrangeiro (no caso de Lisboa os cruzados nórdicos e no de Alcobaça pelos monges cistercienses que vinham de França).
E tendo estas entidades uma importância extrema no país, “tinham necessariamente que se cruzar”.

As ligações estão, por exemplo, no número de propriedades que o Mosteiro tinha nas várias zonas de Lisboa. No século XIV o mosteiro tinha mais de 30 propriedades em Lisboa. “Uma boa parte da cidade tem casas do Mosteiro”, incluindo propriedades de prestígio e em ruas nobres lisboetas, esclareceu Iria Gonçalves.
Por outro lado, havia viagens constantes entre estes dois sítios. Mensageiros iam e vinham de Alcobaça, tal como procuradores e comerciantes. A título de curiosidade, era em Lisboa que se compravam os bens mais sofisticados, raros ou de melhor qualidade: peças de prata, instrumentos musicais, cordas de Tanger, óculos, balanças, armas, confeitos, amêndoas, tecidos e especiarias puras. Por exemplo, o açafrão era dez vezes mais caro do que qualquer outra especiaria: 38 gramas custavam 600 reais, o equivalente à renda anual de uma boa casa em Lisboa.
E em termos de tecidos, há registos da compra de 2,5 centímetros de escarlata que foram adquiridos por 300 reais, quando um alqueire de trigo custava sete reais.
Por outro lado, os monges de Alcobaça vinham de todo o país, incluindo de Lisboa.
A directora do Mosteiro, Ana Pagará, revelou à Gazeta das Caldas que está a ser feito o levantamento a câmaras laser do monumento, “que vai revolucionar os estudos científicos sobre o Mosteiro”.
Esta foi mais uma sessão do ciclo que surgiu para dar a conhecer ao público os 468 manuscritos do scriptorium do Mosteiro, que são “um dos maiores bens de Alcobaça”.
No futuro será feito um projecto sobre a paisagem cisterciense a nível europeu, cujo objectivo é estudar “a relação entre a presença dos cistercienses e o desenvolvimento sociocultural e económico das áreas rurais”, esclareceu Ana Pagará. Além de Alcobaça, fazem parte as abadias de Claraval (França) e Villers (Bélgica).