“Os grupos infantis são mais comunicativos, espontâneos e alegres do que os adultos”

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“As Caiadeiras” das Gaeiras é actualmente o único rancho infantil do concelho de Óbidos

Têm 12 anos e são o rancho mais jovem do concelho de Óbidos. Não só em tempo de existência (surgiram em 2005) como em média de idades (os bailarinos têm no máximo 18 anos). Chamam-se “As Caiadeiras” numa homenagem às mulheres que antigamente caiavam as casas das Gaeiras: dizem os mais velhos que enquanto as senhoras pintavam as paredes, os seus maridos seguravam-lhes as escadas para que não caíssem.
Os 40 elementos do Rancho Folclórico Infantil “As Caiadeiras” das Gaeiras pertencem também à Sociedade Filarmónica Recreativa Gaeirense.

António dos Santos, 73 anos, tem três netos e uma nora no rancho. Toca bumbo e desde o início que pertence à tocata, onde se integram os elementos mais velhos do grupo. É que a dançar estão apenas crianças e jovens, dos quatro aos 18 anos. Não fosse a sua família pertencer ao rancho, provavelmente já tinha saído, mas por enquanto mantém-se motivado (e para as curvas) para continuar a tocar.
“Lembro-me bem que a vontade de criar um rancho nesta associação era já muito antiga, mas só há 12 anos é que houve uma direcção com coragem para avançar com o projecto”, refere António dos Santos, que também nos dá conta que o nome do rancho – “As Caiadeiras” – tem origem numa lenda antiga. “Dizem os mais antigos que quando a Rainha D. Leonor passou de Óbidos para as Caldas viu um conjunto de casas muito brancas num alto. No dia seguinte mandou cá vir os seus aios para que as nossas caiadeiras também fossem caiar o Hospital Termal. Diz-se até que a vila se chama ‘Gaeiras’ por causa das ‘Caiadeiras’”, conta.
Entre os vários utensílios que o rancho leva para as actuações, destacam-se as escadas de madeira que relembram os escadotes a que subiam as senhoras e que eram segurados pelos seus maridos para que não houvesse o risco destas caírem.
Como um dos elementos mais velhos do grupo, António dos Santos afirma que em 12 anos nunca presenciou uma falta respeito por parte de um dos jovens. E também garante que para isso nunca foi necessário aplicar regras muito rígidas: “eles andam à vontade e com liberdade, às vezes brincam mais do que ensaiam, mas isso também faz parte porque no dia-a-dia estão muito ocupados e precisam deste tempo para se divertirem”.
Quem confirma esta ideia é João Roberto, 56 anos, porta-voz do rancho. “É impressionante que quando há uma actuação eles assumem essa responsabilidade como se fossem adultos, mantêm uma postura muito séria”, comenta o responsável, que também integra o rancho desde o princípio. Mas se hoje as crianças se concentram em aprender (além de brincarem), nos primeiros ensaios não foi assim tão fácil reter-lhes a atenção. Os quatro pares iniciais não tinham mais que sete anos e eram muito irrequietos.
“A estratégia foi abrir a porta dos ensaios aos pais, porque na sua presença os miúdos comportam-se muito melhor”, explica João Roberto, realçando que os primeiros ensaios começaram em Maio de 2005 para a estreia do rancho infantil na festa de Natal da associação nesse mesmo ano. Ainda hoje os pais são presença assídua no salão da Filarmónica Gaeirense às segundas-feiras, local e dia em que o rancho ensaia.
Os principais responsáveis pelo grupo nos primeiros anos eram três Luíses: Luís do Coito (vice-presidente), João Luís Roberto (director) e Luís Duarte (ensaiador). Este último é também o ensaiador do Rancho “Estrelas do Arnóia” (Sancheira Grande) mas acabaria por deixar o grupo das Gaeiras em 2016. Actualmente é Beatriz Santos, 18 anos, quem assume esta responsabilidade com a ajuda do colega Daniel Marques, da mesma idade.

“NÃO PODIA DEIXAR QUE O RANCHO ACABASSE”

Com a saída do casal Luís e Sara Duarte, que desde sempre foi ensaiador do rancho das Gaeiras, o grupo entrou num período de crise e os ensaios chegaram mesmo a ser interrompidos. “Senti-me muito angustiada porque dei conta que havia o risco do rancho acabar e eu não podia deixar que isso acontecesse”, diz Beatriz Santos, para quem o rancho faz parte da sua própria história. Afinal, por cá anda desde os seis anos. “É curioso que por volta dos 10 chorava porque não queria vir aos ensaios, hoje agradeço à minha mãe por me ter obrigado a ficar”, refere a jovem, que após algumas reuniões com a direcção da associação, se chegou à frente para ser a nova ensaiadora. Isto em Maio deste ano.
“Fi-lo porque ao mesmo tempo não queria que o rancho ficasse nas mãos de alguém que não tinha quaisquer ligações ao grupo”, acrescenta, admitindo que nos primeiros tempos não foi fácil passar de “Beatriz, a amiga” para “Beatriz, a ensaiadora”. Com os irmãos e o namorado no rancho, como fazer para impor a sua vontade? Como fazer para que não levassem a mal caso fosse necessário falar num tom de voz mais ríspido? “Sem dúvida que ao início foi complicado, mas acho que eles perceberam que como ensaiadora tinha o dever de tratar todos de igual forma”, explica.
Como ensaiadora, a jovem tem mantido as bases deixadas pelos anteriores responsáveis, introduzindo apenas algumas alterações ao nível das coreografias e das letras das músicas. Fados batidos, corridinhos, valsa a dois passos e verdes-gaios são as principais modas do rancho gaeirense, que em várias canções faz referência às pessoas, aos costumes e aos ex-líbris da vila: ao convento, à barragem do Arnóia, aos moinhos e, claro está, às suas antigas caiadeiras.
Beatriz Santos não só dança no rancho como também toca na banda filarmónica das Gaeiras. É uma filha da colectividade. Quando olha para os 12 anos que entretanto passaram, apercebe-se como já aprendeu e cresceu tanto graças a estes dois grupos. “Valores como a união, a amizade, o respeito e o compromisso são aqui cultivados todos os dias”, refere.

“GOSTÁVAMOS DE TER MAIS APOIO DA NOSSA POPULAÇÃO”

A banda filarmónica e o rancho folclórico são as duas principais actividades culturais que existem nas Gaeiras. Mas a população parece ligar muito mais ao futebol. Este é o desabafo de João Roberto, que lamenta não ter mais gente da terra a participar nas iniciativas promovidas pela associação. “Os espectáculos são grátis, podíamos ter muito mais público. Não podemos esquecer que são crianças e jovens que actuam e eles precisam muito dos aplausos da plateia para se sentirem motivados”, diz o responsável, realçando que à excepção do acordeonista, todos os elementos sobem ao palco como voluntários. Com cerca de 10 saídas por ano, o rancho infantil das Gaeiras leva o nome da freguesia e do concelho de Norte a Sul do País. “Mas as pessoas parecem esquecer-se disso”, acrescenta João Roberto.
Embora seja trabalhoso manter um grupo do qual não resultam lucros (só despesas), todo este esforço acaba por sair recompensado quando é dia do rancho actuar. Melhor ainda se o espectáculo for longe, pois nestas ocasiões os elementos organizam piqueniques, que resultam em grandes momentos de convívio e nas melhores histórias para mais tarde recordar.
“Há 12 anos que lido com toda esta juventude e posso dizer que é uma grande alegria, quase pareço mais novo por causa deles”, brinca João Roberto, cuja experiência lhe diz que os grupos infantis são mais divertidos, comunicativos e espontâneos que os adultos. “Até acho que é mais fácil lidar com os jovens do que com os adultos, porque eles aceitam melhor as nossas opiniões”, refere o responsável, para quem o rancho é um “hobby” que muito contribui para aliviar o stress após um dia de trabalho.
“Os miúdos tratam-nos como se fôssemos família e nós sentimos a responsabilidade de os educar para a vida como se eles fossem nossos filhos. É uma alegria fazer parte do seu crescimento”, acrescenta.