Inovação é a base do futuro da economia

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Digitalização, inovação, qualificação de recursos humanos e sustentabilidade são as linhas gerais do plano para uma economia mais forte em 2030

Portugal definiu uma estratégia para alicerçar o crescimento económico para os próximos anos e, no caminho, aproximar-se dos níveis da União Europeia. Nesta estratégia, os 50 mil milhões de euros prometidos pela Europa ao abrigo do novo Quadro Comunitário e do Plano de Recuperação e Resiliência têm papel fundamental. Apoiar o conhecimento, a investigação, a digitalização e a sustentabilidade são vistos como fatores cruciais para a transformação da economia nacional.
A aposta do programa definido pelo Governo tem como um dos principais eixos estratégicos a Investigação e Desenvolvimento (I&D) e a aproximação entre a inovação e a produção como fator de diferenciação do produto português nos mercados externos.
Um dos caminhos para chegar a essa ambição é melhorar as qualificações da população, de modo a aumentar o número de licenciados e doutorados e, assim, preencher os cerca de 25 mil empregos altamente qualificados que deverão a ser criados no âmbito da I&D.
A ideia passa mesmo por estabelecer uma relação direta entre a comunidade de investigadores e as empresas para criar melhores empregos e transformar o conhecimento acumulado no país em produtos e serviços inovadores para exportação. De tal forma que os objetivos estabelecidos pelo programa são aumentar a despesa total em I&D para 3% do produto interno bruto (PIB), o peso do investimento empresarial para 14,5% do PIB e garantir um crescimento anual positivo de investimento direto estrangeiro.
Com estas medidas, o Governo espera aumentar em 25% o número de empresas exportadoras, com produtos cada vez mais inovadores para elevar as vendas ao estrangeiro até aos 53% do PIB em 2030. A alta tecnologia tem um enfoque especial e deverá valer 9% das exportações totais de bens por essa altura. O plano pretende ainda que o número de novas empresas de base tecnológica, serviços intensivos e indústria criativa duplique.
Passo ainda importante no plano nacional para 2030 é a transição climática e a sustentabilidade dos recursos, nos quais se propõe uma redução de 45% a 55% das emissões globais de gases com efeito de estufa e em 40% no setor dos transportes, em relação a 2005, enquanto que o peso das energias renováveis no consumo bruto de energia tem uma meta de 47%.
António Poças, presidente da NERLEI – Associação Empresarial da Região de Leiria, diz que este ciclo de investimentos é algo que “não nos podemos dar ao luxo de deixar que seja desperdiçado”, uma vez que vai permitir alavancar o crescimento, “potenciando os benefícios da digitalização e da descarbonização da economia”. O dirigente e empresário acredita que o país e a região vão estar melhores dentro de 10 anos, com empresas mais profissionalizadas na sua gestão e mais robustas. “Estamos convictos que seremos bem-sucedidos nestes investimentos e com isso iremos contribuir para uma sociedade mais justa, mais solidária e onde as desigualdades serão atenuadas”, afirma.
Adaptar o comércio tradicional
As medidas do plano do Governo para 2030 preveem um efeito forte sobre a indústria e sobre o setor tecnológico, mas a economia do país e da região precisa de se adaptar também noutros setores.
Luís Gomes, presidente da ACCCRO – Associação Empresarial das Caldas da Rainha e do Oeste, aponta a digitalização como um passo importante a dar também nos segmentos mais tradicionais. “Já começámos a dar passos na direção da digitalização dos negócios e a pandemia veio mostrar que as pessoas se estão a adaptar muito facilmente”, realça o dirigente. A associação propôs uma plataforma que abarque toda a oferta do concelho, “para conseguirmos ter online o peso que o comércio tradicional tem nas Caldas, modernizando-o, e aproveitando o capital humano e os recursos que até a nível académico”, sustenta.
Além do comércio tradicional, Luís Gomes vê a região com um forte impulso das tecnologias. “Temos que agarrar novos empresários, pensar que vai ser uma geração que nasceu na era da tecnologia, que consome tecnologia e através dela”, realça.
Aproveitando o facto de o teletrabalho se estar a enraizar, Luís Gomes acredita que a região tem capacidade para tirar disso proveito através de aposta em espaços de coworking, até como fator de atratividade de novos habitantes por via de um maior nível de qualidade de vida face às grandes cidades. “O teletrabalho foi algo que nos foi imposto, mas que nos aproxima da família e acaba por ser bom para a economia e para a cidade. Muita gente vai daqui trabalhar para Lisboa e pode ficar cá, consumir cá”, sustenta.
O empresário acredita que estas são oportunidades que a economia local não pode deixar passar, mas sempre sem perder a essência do que diferencia as Caldas da Rainha, que é ter este comércio de contacto e de proximidade, “que é a nossa génese e mais-valia”, defende.

Pensar o território
Parte fundamental no desenvolvimento da economia na próxima década é o meio académico, não só na função de formar os profissionais de amanhã, mas também pela vertente de investigação. É o caso da Escola Superior de Turismo e Tecnologias do Mar (ESTM), de Peniche, que tem no seu meio o centro de investigação Cetemares.
O diretor da ESTM, Paulo Almeida, defende que “as regiões devem ter bem definida a sua estratégia de desenvolvimento local, integrada numa estratégia nacional, tendo como foco a atração de investimento e a internacionalização” e acrescenta que seria “miopia de pensamento” não definir essa estratégia.
O economista elenca cinco grandes desafios, que são também oportunidades, para que a região aproveite os programas de financiamento. Abrem-se desafios científicos, com a articulação entre centros de investigação e entidades públicas e privadas, quer na produção quer na partilha de conhecimento. Desafios digitais, através da inovação de base tecnológica. Desafios Sociais, com uma aposta clara na formação ao longo da vida e na inclusividade. Desafios Económicos, com apostas no trabalho em rede e, na autenticidade regional, na identificação de áreas de investimento e na atração, retenção e promoção do talento. E ainda desafios de sustentabilidade, quer na racionalização dos recursos naturais, quer ao nível da conversão para as energias renováveis e na certificação da região como destino de inovação sustentável.
Paulo Almeida defende que esta estratégia deve ser definida a nível regional, uma vez que trabalhar numa forma mais reduzida “é perder escala, massa crítica e pensamento estratégico”. O economista acredita que o Oeste “vai ser um exemplo de economia social, assente na retenção e promoção do talento e na inovação sustentável” e que, se não conseguir aproveitar esta oportunidade, “individualmente, cada um com as suas responsabilidades públicas e privadas, falhámos, perdemos uma oportunidade e ficamos com uma dívida para com a Região”. ■

“Acredito que o Oeste vai ser um exemplo de economia social, assente na retenção e promoção do talento e na inovação sustentável”
Paulo Almeida

“A digitalização dos negócios é importante e já estamos a dar passos nesse sentido”
Luís Gomes

Guilherme Collares Pereira economista

Criar e acrescentar
valor para todos

É reconhecido por todos que o atual modelo sócio-econômico não é sustentável, e as razões são sobejamente conhecidas, embora por vezes esquecidas.
A exaustão dos recursos naturais não renováveis, os recursos renováveis em risco, a poluição crescente, o empobrecimento do patrimônio genético, a desigualdade social, o aumento da população mundial e a elevada concentração urbana, entre outros.
O panorama é muito preocupante, pois ainda acrescem as alterações climáticas, que ameaçam seriamente o nosso Planeta.
Felizmente ainda há soluções para inverter todos estes impactos negativos, mas que têm que ser trazidas ou reforçadas no desenvolvimento das políticas sociais, económicas, tecnológicas e científicas, que sobretudo terão que regular as atividades e os comportamentos dos indivíduos, das instituições públicas e privadas, e naturalmente, dos Governos.
É igualmente imprescindível que os Empresários e especialmente os Políticos, pensem e atuem, com estratégias e planos, de longo prazo.
As empresas, também as da Região Oeste, nas suas estratégias empresariais têm de ter uma orientação multidimensional e, como atrás referido, de longo prazo, para atingir objetivos sustentáveis, num contexto cada vez mais competitivo e incerto.
As empresas têm de ter uma “Visão”, que é o farol que orienta todas as políticas e atividades, e uma “Missão”, que é o PROPÓSITO, a partir do qual se estabelecem os objetivos e definem estratégias.
Nunca como agora as questões da sustentabilidade e da valorização dos recursos duma nova economia verde, estiveram em cima da mesa, com tanta acuidade e de forma central na agenda do “new green deal” da Comissão Europeia e dos principais programas estratégicos internacionais.
Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), são a nova linguagem comum, que se quer universal, centrados nos chamados 5 P’s: Planeta; Pessoas; Prosperidade; Parcerias e Paz.
Neste mundo em que as alterações climáticas são cada vez mais evidentes, o objetivo principal dos negócios deve ser mais do que gerar valor para benefício próprio, mas sim criar e acrescentar valor para todos. Às empresas não basta fazer tudo bem, precisam de fazer coisas boas. Não interessa serem as “Maiores” da região, do país, do mundo, mas sim as “Melhores” para as comunidades onde estão inseridas.
Efetivamente a empresa deve ser mais do que uma unidade económica que gera riqueza, e no seu propósito, envolver todas as Partes Interessadas numa partilhada e sustentável criação de valor.
O acesso à igualdade de oportunidades e a promoção do “Bem Comum”, sempre garantindo que não ficará ninguém excluído deverá ser uma preocupação de todos.
Recentemente, e em boa hora, surgiu o movimento ESG (sigla que em Português significa ambiente, social e governança), que define critérios, que permitem medir os impactos nestas três vertentes, dos investimentos realizados pelas empresas.
Os comportamentos das empresas nas áreas ambiental, social e de governança, estão a ser cada vez mais valorizados, pelos clientes/consumidores/cidadãos/contribuintes que felizmente começam a exigir, sobretudo os mais novos, práticas efetivas nestas importantes áreas, que têm que passar a ser certificadas.
Naturalmente que estas exigências de reporte, se aplicam sobretudo junto das empresas cotadas em bolsa, mas tem sido crescente a adesão das PME europeias.
Faço votos para que a Gazeta das Caldas, e com o peso dos seus 96 anos, continue a ser uma referência na Região do Oeste, na difusão da informação, da notícia, e do conhecimento, desenvolvendo a sua atividade com total transparência e ética. Muitos parabéns!!! ■

Empresários e especialmente os Políticos devem pensar e atuar com estratégias e planos de longo prazo

Os comportamentos das empresas nas áreas ambiental, social e de governança, estão a ser cada vez mais valorizados