Nicul investe 1,8 milhões de euros nas Relvas

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Gazeta das Caldas
A automatização dos processos não fará diminuir a mão de obra. Pelo contrário, a empresa até estima aumentar o número de postos de trabalho.

A Nicul – Nova Industria de Cutelarias, Lda. iniciou há dois meses obras de ampliação das suas instalações nas Relvas (Santa Catarina). A empresa está a implementar dois projectos no âmbito do Portugal 2020 para inovação no processo produtivo e de apoio à internacionalização, que ascendem a 1,8 milhões de euros.

O plano de investimento que a Nicul está a implementar tem por base três pilares fundamentais: a modernização do processo produtivo, o aumento da capacidade de produção e o reforço das exportações.
A maior fatia do investimento, na ordem dos 1,3 milhões de euros, é destinada a dotar a unidade industrial de nova maquinaria e software, permitindo introduzir tecnologia de ponta, como o corte a laser e também a robotização.
“A empresa estava numa situação em que tinha que fazer investimentos”, uma vez que tinha alcançado a sua capacidade máxima de produção, disse à Gazeta das Caldas o director-geral da empresa, João Ramalho. A Nicul preparou-se em termos de estrutura organizativa e financeira para investir com capitais próprios, mas depois surgiu a oportunidade de o fazer com recurso aos quadros comunitários. “Avançámos com os dois projectos e foram ambos aprovados”, refere João Ramalho, acrescentando que os processos foram céleres e os rácios de aprovação foram “acima da média nacional, fruto desse trabalho que fizemos anteriormente”.
Apesar de já ter algum grau de automatização, a Nicul passa a contar com equipamento ao nível do melhor que existe no mercado, com ganhos significativos na capacidade de fabrico. Das actuais 700 mil peças por ano, vão passar a sair das linhas entre 1 milhão a 1,2 milhões de peças por ano. O volume de negócios, que no ano passado foi superior a 1,4 milhões de euros, poderá aumentar para os 2 milhões de euros dentro de três a quatro anos.
A nova maquinaria irá também transformar o processo de desenvolvimento de produto da empresa, o que, de resto, já foi iniciado. Se até esta fase esse desenvolvimento ainda tinha uma grande componente artesanal, agora a empresa já trabalha com design industrial para conceber os seus novos produtos. “O processo que vamos implementar torna fundamental ter essa área desenvolvida, porque é a partir dos desenhos em 2D e 3D que os produtos vão entrar em produção”, explica.
Apesar da introdução de maior automatização na sua fábrica, a Nicul não vai reduzir o seu número de postos de trabalho, pelo contrário. João Ramalho diz que, desde a fase de candidatura, o número de colaboradores já cresceu de 36 para 40 e adianta que, em finais de 2019, quando os trabalhos estiverem concluídos e a nova maquinaria em funcionamento, os postos de trabalho deverão continuar a aumentar.

À CONQUISTA DE NOVOS MERCADOS

A segunda parte do investimento, cerca de meio milhão de euros, é destinada a um programa de apoio à internacionalização. Actualmente a Nicul já se encontra presente em cerca de 40 países e nos cinco continentes. A estratégia passa por reforçar a presença nos países onde já se encontra e expandir-se para novos mercados.
“A diversificação é importante, já tivemos experiências de mercados que estávamos a trabalhar relativamente bem e, de repente, fecharam-se, como o Brasil e a Rússia”, observa João Ramalho.
Os dois projectos acabam por se complementar, refere o director-geral da empresa. “Para crescer a nível externo, tínhamos que estar equipados para responder ao aumento de procura e às especificações dos mercados e dos clientes”, sustenta.
O reforço da internacionalização terá por base a prospecção e a presença internacional da marca, a presença na Web e o marketing internacional.
Actualmente a quota de exportação da empresa é de 60% do volume de negócios e o objectivo é aumentá-la para os 75%.
Os projectos de modernização e internacionalização obrigam a empresa a ampliar as suas instalações em mais 1.200 m2, um crescimento próximo dos 50% em relação à actual capacidade instalada. Um dos novos edifícios será afecto à produção e outro será destinado ao apoio à comercialização e logística.
Os trabalhos ao nível das estruturas vão ainda dotar a fábrica da Nicul de painéis fotovoltaicos, que irão contribuir para maior eficiência energética e ambiental. A empresa prepara-se ainda para iniciar vários projectos de certificação.
Se o processo de aprovação dos fundos comunitários surpreendeu o empresário pela celeridade, o mesmo não aconteceu em relação ao de ampliação das instalações. “A resposta a um pedido de viabilidade pode demorar um ano e as empresas não podem estar esse tempo à espera para tomar decisões”, observa o empresário. João Ramalho destacou o apoio que recebeu da autarquia das Caldas da Rainha, na pessoa do presidente Tinta Ferreira, na tentativa de agilizar processos, “mas há uma série de entidades pelas quais estes têm que passar que os tornam demasiado morosos”, acrescentou.
Isso acaba por criar dificuldades quando os projectos apoiados por quadros comunitários têm prazos de implementação relativamente curtos. “Já temos os equipamentos adquiridos, vamos recebê-los a partir de Outubro, mas só há dois meses foi possível começar as obras”, lamenta.

Uma história com mais de 40 anos

A Nicul é uma das empresas que compõem o cluster da indústria de cutelaria de Santa Catarina e Benedita e goza de reputação a nível global. A empresa tem três linhas principais de produtos: as facas profissionais direccionados à hotelaria e restauração, as facas direccionadas aos profissionais do sector da transformação alimentar, e as cutelarias domésticas.
A empresa foi fundada nas Relvas, em 1972, por José Maria Ramalho, pai dos actuais sócios da empresa, João e Maria José Ramalho. No entanto, as raízes da empresa são mais antigas.

Gazeta das Caldas
Os irmãos Maria José e João Ramalho são a segunda geração à frente da Nicul

João Ramalho conta que terá sido nas Relvas que nasceram as cutelarias da região. “Nos anos de 1940 havia cerca de 15 oficinas artesanais na localidade, o meu avô tinha uma delas e foi assim que as coisas começaram”, conta. Algumas dessas oficinas evoluíram para fábricas.
José Maria Ramalho começou a trabalhar em cutelaria com o seu pai, mas acabou por integrar uma dessas empresas, a ICEL. Ali esteve 25 anos como vendedor, ao fim dos quais voltou às Relvas para fundar a Nicul.
Nessa altura, o modelo de negócio era diferente do que é hoje. As peças de cutelaria eram comercializadas em feiras e romarias e João Ramalho conta que “há quem diga que até à saída das igrejas se vendia”. Mas depois o negócio foi evoluindo e os produtos da Nicul chegaram inclusivamente ao então Ultramar, onde foram comercializadas até 1975.
As portas da internacionalização voltaram a abrir-se na década de 1990. “Foi nessa altura que começou a procura de novos mercados, inclusivamente a nível interno, como a grande distribuição”, diz o director-geral da Nicul.
João Ramalho e Maria José Ramalho já trabalhavam na empresa quando o pai faleceu, o que os obrigou a pegar nos destinos da Nicul, uma missão que cumprem com o orgulho de perpetuar o legado da família.
A empresa tem também uma identidade marcada com a localidade das Relvas. Cerca de 70% dos colaboradores são locais, valor que já chegou a estar próximo dos 90% nas décadas de 1980 e 1990. Hoje trabalham também na firma pessoas das Caldas da Rainha, Rio Maior, Coimbra e até de Viseu.
A questão é que a região tem falta de mão de obra disponível para trabalhar nesta indústria, que emprega cerca de mil pessoas de forma directa. “É um trabalho manual, que tem as suas especificidades, como qualquer outra. O problema é que há falta de quem queira aprender o ofício e os centros de formação não estão direccionados para este tipo de industria”, lamenta João Ramalho.
De resto, diligenciar junto das entidades competentes para a criação de cursos de formação nesta área foi uma das questões que levou os empresários do sector a associarem-se. Outro motivo foi a criação recente do selo de garantia Cutelarias de Santa Catarina e Benedita, que visa reconhecer e proteger a industria local nos mercados externos. J.R.