Optimismo e cooperação foram palavras de ordem nas Jornadas de Cerâmica em Alcobaça

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Estará a nuvem negra, que levou tanta empresa de cerâmica a fechar nos últimos anos, finalmente a passar? Há quem acredite que sim, a julgar pelos dois dias de debate sobre o sector promovidos em Alcobaça pela 2ª Conferência Iterregional CeRamICa Plus – Jornadas Internacionais de Cerâmica.
Nos passados dias 6 e 7, ceramistas, empresários e representantes de diversas entidades de Portugal, Hungria, Roménia, Grécia, Espanha, Eslovénia e França reflectiram sobre o passado e o futuro do sector. Um encontro que decorre na recta final do projecto CeRamICa, desenvolvido desde 2009 com financiamento do Programa de Cooperação Territorial Europeia INTERREG IVC.

Istvan Almas, do Município de Hodmezovasarhely (Hungria), acredita que deste projecto pode sair “um modelo negocial bom para a Europa”

As dificuldades que o sector da cerâmica enfrenta fizeram já correr muita tinta e foram repetidas por inúmeras vezes, sobretudo quando mais uma empresa fechava. Só nos concelhos de Alcobaça e Caldas da Rainha ter-se-ão perdido nos últimos anos cerca de 5.000 postos de trabalho na cerâmica e encerrado mais de uma centena de empresas.
Do preço da energia, à falta de apoios, dificuldades no financiamento, passando pela concorrência do mercado asiático, muitos foram os factores que condenaram muitas empresas de cerâmica, algumas das quais com várias décadas de existência. Mas houve quem conseguisse ultrapassar estes tempos difíceis. Como? Arriscando, inovando, apostando na formação e na qualidade, indo mais além.
Uma das empresas que conseguiu vencer a crise foi a alcobacense Faria & Bento, que aceitou o desafio de dar a conhecer o seu trabalho nestas Jornadas de Cerâmica. Com quase três décadas de existência e 160 trabalhadores, esta empresa procurou sempre fazer coisas diferentes para se afirmar no mercado além fronteiras e se afastar dos produtos made in Ásia.
Carlos Faria garante que não foi fácil e admite que a aposta na diferença fez com que muitas vezes os seus produtos não fossem aceites de imediato. “Foi-nos dito muitas vezes que estávamos demasiado à frente”, lembra. Mas ao que parece, foi precisamente o facto de “estar à frente” que deu força à empresa.
Hoje, 98% da sua produção segue para países estrangeiros, sobretudo Inglaterra, Estados Unidos da América, Egipto e Austrália. Ao Brasil não conseguem chegar por causa das taxas alfandegárias e começam agora a introduzir os seus produtos na Rússia. Mas este é um trabalho que não se pode descurar. “É um trabalho que tem que ser feito no dia-a-dia. É um caminho que pode não ter fim”, referiu.
A escolha da Faria & Bento para estar representada logo no painel de arranque do encontro em Alcobaça teve um objectivo. É que a empresa é um exemplo da importância da inovação, da formação e do empenho para o sucesso.

Perspectivas de recuperação “sustentada e forte”

Duarte Garcia, Presidente da Associação Portuguesa da Indústria da Cerâmica (APICER) salientou o peso que a indústria cerâmica portuguesa tem na Europa. Com 300 empresas activas e cerca de 16.300 trabalhadores, a luta que se impõe é “por uma cerâmica competitiva”. E num mundo em constante mudança, o responsável diz que “neste momento temos razões de sobra para estarmos optimistas quanto ao futuro deste sector económico”.
Porquê? Porque as revoluções do Médio Oriente já tiveram repercussões na China, de onde vem a maior concorrência, e os salários dos chineses tiveram que ser “discretamente aumentados”. Além disso, a energia também está mais cara naquele país. “São boas notícias para a cerâmica europeia”, afiançou Duarte Garcia.
No que diz respeito à cerâmica utilitária e decorativa, que mais peso tem na região, o responsável salienta “um aumento significativo das encomendas”, sobretudo pelo retorno de alguns clientes que se tinham voltado para a Ásia e pela abertura de alguns mercados. “As fábricas estão a conseguir dar a volta”, apontou. Por isso acrescenta: “auguro para este subsector uma recuperação sustentada e forte”.
Também confiante no futuro está José Vala, do Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e à Inovação (IAPMEI). Mas para alcançar o sucesso há aspectos a ter em conta.
A inovação é um deles. E isto é tão válido para peças modernas e contemporâneas como para o trabalho de peças mais artesanais, que devem ser reinventadas. Depois, ainda que “a vertente patrimonial deva ser mantida”, José Vala defende que “terá que se trabalhar muito em termos cooperativos e em termos de parcerias”, e é precisamente para isso que serve o trabalho desenvolvido pelo projecto CeRamICa e o encontro realizado em Alcobaça.
Nesse sentido, deu conta da intenção de realizar um encontro de competitividade com os empresários da região, onde deverão ser definidos os caminhos a seguir. Também a Nerlei – Associação Empresarial de Leiria, deu conta dos projectos que tem em mãos para fomentar a cooperação entre as empresas, que passam pela realização de tertúlias mensais (a cerâmica será o tema de uma delas), pela Escola de Negócios para executivos e empresários ou pelo desenvolvimento de um novo programa MOVE, recentemente aprovado.

Experiências de cooperação estrangeiras

Já no segundo dia de conferência, Charles Fillit, director da Associação Francesa de Cidades de Cerâmica e Coordenador de Acções com associações congéneres italianas, espanholas e romenas, manifestou a vontade de estabelecer uma parceria com o Município de Alcobaça. Já para Istvan Almas, vice-presidente do Município de Hodmezovasarhely (Hungria), a cooperação internacional tão defendida no encontro poderá também passar pela criação de “um modelo negocial bom para a Europa”.
É no seu município que o projecto encerra, no próximo mês de Setembro. Destes três anos de trabalho, em que se fizeram visitas de estudo, se partilharam experiências e boas práticas, deverá sair um pacote de recomendações que será entregue às entidades europeias e aos seus decisores.
O anfitrião do encontro, Paulo Inácio, salientou o facto de estarem reunidos em Alcobaça nomes tão importantes do mundo da cerâmica, sobretudo numa altura em que o crescimento das empresas portuguesas “é tão importante para o país”.

Joana Fialho
jfialho@gazetadascaldas.pt

Jardim D’Arte deve abrir a 15 de Maio

Outra das empresas convidadas para dar o testemunho do seu sucesso foi a caldense Braz Gil Studio, que espera abrir em Maio o seu projecto de turismo industrial – o Jardim D’Arte.
De acordo com Miguel Braz Gil, a ideal que sempre guiou a empresa onde está com os dois irmãos e o pai foi que “o caminho da cerâmica vai não tanto pelo preço, mas pela inovação e pelo valor acrescentado que podemos colocar em cada peça”. E isso pode ser facilmente comprovado em cada uma das peças que são produzidas na manufactura caldense, onde cada detalhe é tido em conta.
As peças da Braz Gil Studio chegam já a vários pontos do globo e a qualidade do seu trabalho é reconhecida em muito lado. Mas a empresa tinha o problema da distribuição para dar resposta, e foi assim que nasceu o Jardim D’Arte. Uma loja com produtos da empresa, outra com produtos tão nacionais como compotas, queijos e mel, um restaurante – onde se vai mostrar “quão bela pode ser a porcelana utilizada” – uma pequena manufactura e uma galeria de exposições são alguns dos espaços que compõem este Jardim com uma área total de 20.000 metros quadrados, localizado no Imaginário, a poucos quilómetros do centro da cidade das Caldas.
Para Miguel Braz Gil, o novo empreendimento alia os conceitos de bem-receber e bem-estar, num “espaço que dignifica um produto tão nobre quanto é a cerâmica”. O que se pretende é “que as pessoas nos visitem, possam experimentar a cerâmica, senti-la e, se possível, comprá-la”.
Numa altura em que os custos de produção são cada vez maiores, o empresário defende que “acrescentando valor, é possível que a indústria cerâmica seja próspera, como já o foi”.
Quando o Jardim D’Arte abrir portas, a Braz Gil Studio torna-se uma das poucas empresas na área da cerâmica a desenvolver turismo industrial. Nas Caldas, a Molde mostra como se faz a sua cerâmica utilitária e em Alcobaça também na Arfai IGM se pode ver in loco o processo de produção de cerâmica decorativa.
Nesta empresa alcobacense fundada em 1992, também representada nas Jornadas, cuja produção segue para mais de duas dezenas de países, o número de visitantes subiu de 300 em 2005 para 8.000 em 2009, e “tudo sem apoios de qualquer entidade competente”, seja em dinheiro, seja no apoio à promoção, lamentou Carla Moreira.
Já depois de ter sido visitada por cerca de 20.000 turistas, a Arfai IGM viu-se obrigada a rever o turismo industrial devido à crise. Hoje, a visita à fábrica já não é gratuita como no início. Tem um custo simbólico de cinco euros que reverte em desconto caso os visitantes queiram fazer compras na loja da fábrica. As visitas, que se fazem apoiadas por um vídeo disponível em três línguas, direccionam-se agora também aos estudantes.
Carla Moreira queixa-se da falta de um circuito turístico em Alcobaça que faça com que as pessoas fiquem mais tempo e vejam mais coisas. “Alcobaça não se faz só do Mosteiro”, criticou.

J.F.

Exposição no Mosteiro até 4 de Maio

As Jornadas Internacionais de Cerâmica contemplaram ainda a realização de uma exposição onde se recupera a “Cerâmica em Alcobaça: 1875 até ao presente – CeRamICa Plus”. Na Galeria de Exposições Temporárias do Mosteiro de Alcobaça conta-se a história de uma actividade cuja primeira fábrica foi fundada em Alcobaça em 1875, por José dos Reis dos Santos.
Olaria de Alcobaça, Raul da Bernarda e Faianças Vestal são algumas das ‘chancelas’ que marcam inegavelmente a história da faiança alcobacense e que já fecharam portas. Algumas das suas peças mais características são recuperadas numa mostra onde se projecta também o futuro com o trabalho das empresas resistentes e de artesãos, que se encontram actualmente a laborar,
Uma mostra que pode ser vista até 4 de Maio.

J.F.