Apostar na educação para combater a desigualdade

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A formação e educação foram apresentados como a solução para diminuir as desigualdades de oportunidades entre homens e mulheres, que continua a ser uma realidade em todos os sectores, defenderam vários oradores num colóquio online promovido pela EHTO

A desigualdade de género é transversal na sociedade e o sector do turismo não é uma excepção, diz Vera Cunha, do departamento de formação do Turismo de Portugal, quando convidada a falar sobre as oportunidades entre mulheres e homens no mercado laboral. Antes da pandemia, este sector era responsável por um em cada 11 empregos a nível mundial. Cerca de 60 a 70% da mão de obra do turismo a nível mundial é feminina, mas existe alguma sub-representação e a segregação dentro da área, sobretudo hoteleira, concretizou a responsável, exemplificando que, “por defeitos de linguagem”, normalmente fala-se da governanta e do director de hotel.
Vera Cunha referiu-se também à pouca qualificação a que normalmente o sector está associado, o que leva a que depois também seja mais difícil o crescimento profissional dentro das estruturas. Defende, por isso, que é importante investir na formação.
Para a jurista Joana Gíria a informação e educação são determinantes para se mudarem mentalidades e esbaterem-se estereótipos assentes no género, como o do barman e da senhora da limpeza.
“São atribuídos à mulher normalmente a extensão dos trabalhos de cuidado e dos trabalhos domésticos que se fazem em casa”, disse, destacando que é fundamental uma educação para a cidadania nas escolas, contribuindo para o esclarecimento das pessoas e para uma “política que tem que estar assente na dignidade do ser humano”.
Joana Gíria citou um estudo recente da Conferencia das Nações Unidas que diz que as respostas à pandemia são dadas sobretudo por mulheres mas que, por outro lado, são elas a maioria dos trabalhadores a serem dispensados por todos os sectores de actividade.
“Se há um sexo que fica desprotegido é o feminino, porque as mulheres continuam a ser as que estão na linha da frente na luta para combater este vírus, estando em maior número na área da saúde e nos lares”, realçou a jurista, que já presidiu à CITE- Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego.
Também presente neste colóquio online, Ângela Carreira, técnica da CITE, lembrou que esta organização tem contribuído para a diminuição dos estereótipos que persistem no mercado de trabalho, e defende que esse combate deve ser feito através da formação. “Temos boa legislação a nível da parentalidade e da representação equitativa das mulheres e homens nos cargos de topo, mas falta-nos muito esta prática”, sustentou .

MULHERES “MAIS RENTÁVEIS E PERFECCIONISTAS” DO QUE OS HOMENS

O único homem num painel de mulheres, o empresário Carlos Martinho, partilhou a experiência na sua unidade hoteleira em que cerca de 80% dos trabalhadores são mulheres.
“Acho que elas são muito mais rentáveis e perfeccionistas do que os homens”, disse o empreendedor, acrescentando, ainda, que ao nível dos vencimentos também não existem grandes alterações.
Neste encontro, foram ainda partilhadas histórias de uma empreendedora que abriu um negócio em plena pandemia, e o percurso de três alunas.
Catarina Mendes é directora geral e proprietária do Aquae Ductus Suites em Óbidos, um alojamento de charme situado junto ao Aqueduto. Trata-se de um sonho antigo, que a empresária está a conseguir concretizar com o apoio da família. “O meu marido fica em casa a tomar conta do nosso filho para que eu possa tratar do alojamento”, disse, realçando que as mentalidades estão a mudar e que, por exemplo, na hotelaria já se vêem mulheres a trabalhar nos bares e restaurantes, um mundo até há pouco tempo muito masculino.
Os oradores destacaram a capacidade de reinvenção rápida do sector do turismo, dando o exemplo da campanha para fazer férias dentro do país, que terá ajudado muitas famílias do interior.
No final, Madalena Rodrigues, formadora na EHTO, realçou que este é o momento de transformar um sector que foi bastante atingido pela crise e que pode, mesmo, servir para mostrar que “homens e mulheres, pela sua competência e mérito, devem ser vistos como pessoas e é nessa condição que devem ser escolhidos para cargos de chefia ou de operação”.