Ordenados baixos tornam o sector da hotelaria pouco atractivo para os jovens

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Gazeta das Caldas
Perante a necessidade de o sector dar melhores condições aos trabalhadores, as empresas dizem que não têm receita para aumentar os salários

O sector da hotelaria e turismo não está a aproveitar os recursos que estão a ser formados pelas escolas da região. Esta é a conclusão que se pode tirar da conferência organizada pela associação empresarial Óbidos.com no passado dia 16 de Novembro sobre as dificuldades de recrutamento nestas áreas. Os salários oferecidos pelas empresas não são compatíveis com o que se aufere sobretudo no estrangeiro, mas os empresários também dizem que as receitas não permitem pagar mais, muito por causa das elevadas cargas fiscais.

Célia Roque, directora do Centro de Emprego das Caldas da Rainha, disse que não tem sido fácil corresponder aos pedidos de recursos humanos para o sector hoteleiro e aponta como motivo a elevada exigência requerida e os ordenados baixos.
A responsável adverte que a qualificação que se pede para o sector tem que ser reconhecida de outra forma: se não se puderem atingir patamares salariais mais elevados, é necessário então criar outro tipo de regalias. E salientou ainda que a elevada rotatividade de trabalhadores em empresas que apostam em serviços de qualidade “não é benéfica”.
Os directores da Escola de Hotelaria e Turismo do Oeste (EHTO), da Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar (ESTM) e da Escola Profissional da Nazaré (EPN) completaram o painel e dizem que, numa altura em que o sector está em crescimento, os recursos que formam não estão a ser absorvidos pelas empresas da região.
A razão prende-se sobretudo com a questão dos ordenados. Paulo Sousa, director da escola nazarena, referiu que uma pesquisa pelos anúncios de emprego nesta área permite facilmente perceber que o ordenado oferecido é quase sempre o mínimo ou perto disso. Esse valor está muito aquém das expectativas de quem investiu na qualificação profissional. E as próprias ofertas de emprego não dão preferência a pessoal qualificado.
“Este é um problema que vai acabar por afastar os jovens deste sector e já temos exemplos disso na nossa escola, em que os pais desaconselham os filhos por esses motivos”, sustenta.
Por outro lado, os jovens que seguem esta área de formação acabam por preferir ir trabalhar para o estrangeiro, “à procura de melhores condições porque a diferença nos salários é muito grande”, acrescenta.
Paulo Almeida, director da ESTM, reforçou que a sua escola prepara “pessoas com elevado perfil de competências, como apresentação, comunicação, novas tecnologias e isto deve ser potenciado pelas empresas”. E reforça que muitos dos alunos que estagiam nas Ilhas Baleares acabam por ser convidados a ficar, o que atesta que “são bons profissionais”.
Paulo Almeida acrescenta que é necessário o turismo apostar na qualificação e na valorização das pessoas “porque pior que os clientes não voltarem, é não recomendarem”.
Daniel Pinto, director da EHTO, reforçou que as condições que são dadas aos profissionais do sector não são as ideais e apresentou alguns números. Dos alunos formados na escola, 90% estão inseridos no mercado de trabalho, dos quais 75% trabalham no próprio sector da hotelaria. Entre estes, 86% arranjaram emprego em menos de três meses. Os que emigraram representam 12% do total de alunos empregados.
Em relação aos vencimentos, 43% recebem entre 550 e 750 euros e 18% ganham até 1000 euros mensais. “Tem que haver um esforço para valorizar estas remunerações”, reforça.

SECTOR PRECISA DE SE REINVENTAR

Mas se do lado dos trabalhadores o nível salarial é considerado baixo, do lado dos empresários regista-se a dificuldade em fazer subir as folhas de ordenados.
Um empresário do sector hoteleiro presente na plateia referiu que os encargos associados aos ordenados são muito elevados e que um salário mínimo, que é legitimamente considerado baixo pelo trabalhador, “porque só leva para casa 497 euros”, custa mais de 850 euros à entidade patronal, fora o sistema de saúde e segurança no trabalho e seguros.
O mesmo empresário referiu que se a carga fiscal fosse mais branda sobre as empresas, estas poderiam libertar mais valor para os seus colaboradores.
Uma representante da empresa Humangext, empresa especialista em consultoria para os recursos humanos, confirmou que existem dificuldades no sector quer por parte das empresas, quer dos trabalhadores. “O salário não dá para 14 horas de trabalho e para pagar as despesas, e as empresas não conseguem pagar mais devido aos custos directos e indirectos”, referiu.
Entre os oradores, Paulo Almeida defendeu que os empresários não devem temer por folhas de ordenados mais elevadas quando se trata de mão-de-obra qualificada porque esta “valoriza as empresas, enquanto a não qualificada acaba por ficar mais cara”. É necessário, por isso, “reorganizar, valorizar as empresas e inovar”, rematou.

“Horários não são nada aliciantes”

António Baião, presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares do Centro, disse à Gazeta das Caldas que o o afastamento dos jovens das profissões na hotelaria e turismo começa a ser um problema e existem vários factores a contribuir.
Por um lado, quando são estagiários, os jovens são utilizados para tarefas que não são aquelas em que são formados. “São paus para toda a obra”, refere. Por outro, os salários que lhes são atribuídos não correspondem à qualificação com que saem das escolas. São colocados como aprendizes, com o salário mínimo ou menos, quando saem como cozinheiro de terceira, ou empregados de mesa, ou balcão de segunda. E depois “os horários não são nada aliciantes”, acrescentou.
Por isto, muitos jovens optam por continuar a estudar, muitas vezes noutras áreas.
Voltando à questão dos salários, António Baião lembrou que foi recentemente negociado um novo contrato de trabalho para a hotelaria com a AHRESP, que estipula um ordenado de estagiário de 570 euros mensais. Nos hotéis, um empregado de mesa ou balcão de segunda categoria pode variar dos 605 aos 650 euros, consoante a categoria da unidade. Os valores para o trabalho de cozinha é ligeiramente superior.
Na restauração os valores são ainda mais baixos pois um aprendiz de cozinheiro pode ganhar 460 euros, enquanto para um empregado de mesa de segunda o valor de referência é de 568 euros.
“E quando falamos de estabelecimentos de fast food os trabalhadores demoram dois a três anos a atingir as categorias profissionais”, acrescenta.
António Baião diz que os empresários e as escolas devem reflectir sobre o que se está a passar, sob o risco de dentro de alguns anos o sector não ter mão-de-obra disponível.

J.R.