O berço das Caldas que se uniu a freguesias que já foram do concelho de Óbidos

    0
    108

    A freguesia de Nossa Senhora do Pópulo uniu-se às do Coto e de S. Gregório em 2013, na última reorganização administrativa. A primeira, urbana, forma com Santo Onofre a sede do concelho e foi no seu território que a povoação nasceu, em finais do século XV, por vontade de D. Leonor.
    Conta a lenda que quando a rainha, mulher de D. João II, se deslocou de Óbidos para a Batalha viu no lugar da Copa (hoje fronteiro ao hospital termal) doentes que se banhavam em charcos. Questionou-os e responderam-lhe que se curavam naquelas águas. A rainha, também debilitada, fez uso das águas termais e também se tratou. Decidiu, então, criar uma povoação, com trinta moradores e, em 1485, fundou o primeiro hospital – com igreja e ampla zona verde anexas – onde os doentes se podiam curar de várias maleitas.
    Segundo Fernando Correia, médico e historiador, este era um famoso conjunto hospitalar “único no seu género em todo o mundo” e ao qual recorreram para tratamento reis e rainhas de Portugal.
    O desenvolvimento das Caldas iniciou-se com Afonso VI de Portugal, que fez reconstruir e ampliar o hospital. Apesar da prosperidade que teve por base as termas e na cerâmica, o concelho só foi criado em 1821.
    Foi durante o século XIX que a vila cresceu com a moda das estâncias termais, passando a ser frequentada pelas classes abastadas. Algumas deslocavam-se de comboio, uma novidade que chegou em 1887. A função assistencial das Caldas foi reforçada com a criação do Hospital de Sto. Isidoro em 1893.
    Em paralelo, criaram-se fábricas e oficinas de cerâmica que converteram a então vila num dos principais centros produtores do país, com destaque para as criações de Manuel Mafra e de Rafael Bordalo Pinheiro. Este último criou a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, que funcionou entre 1884 e 1907.
    O crescimento demográfico vivido no século XIX prosseguiu no século XX, com a elevação a cidade em Agosto de 1927.
    Ao longo do tempo, outras artes prosperaram neste território, como a pintura e a escultura, fazendo das Caldas um centro de artes plásticas, onde se destacaram nomes como os de José Malhoa, António Duarte e João Fragoso, que têm museus homónimos na cidade. Além desta freguesia guardar em si a génese da localidade, somam-se factos como o “Golpe das Caldas”, em 16 de Março de 1974, que antecedeu a revolução dos cravos. Ao longo dos tempos, não faltam neste território histórias de soldados, acolhidos no hospital, e de refugiados europeus que viveram nas Caldas, fugidos da perseguição nazi.
    Mesmo em frente à sede da freguesia realiza-se a Praça da Fruta, cujo tabuleiro original remonta a 1834, altura em que foi demolida a Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Ainda hoje é naquele empedrado que os produtores de frutas e legumes vendem os seus bens. O dinamismo leva a que, em 1750, tenha sido construído o primeiro edifício destinado ao “Passo do Concelho, Câmara, Cadeia e Assougues” fora do Hospital Termal, passando a haver uma separação física da municipalidade em relação ao Hospital. Desta forma é reforçada a importância da Praça da Fruta, que já era um pólo regional atractivo.
    A denominação de Rossio da Vila manteve-se até 1887, quando lhe foi atribuído o nome de Praça Maria Pia. Em 1880, a Câmara iniciou obras destinadas a ampliar a rede de esgotos e a tornar o Rossio mais atraente. Assim, foi construído o tabuleiro central, inaugurado em 1883, que acolhe um dos ex-libris da cidade: a Praça da Fruta.

    Coto, a mais pequena “freguesia” caldense

    O Coto é a “freguesia” mais pequena do concelho, pois antes passar para a União, tinha uma extensão de 5,63 Km2 que eram ocupados por 1200 habitantes. Os registos mais antigos da localidade datam do século XIV e há, por exemplo, um mapa referente a propriedades da Igreja de Santa Maria de Óbidos e de bens deixados ao clero e pode ler-se: “o casal deixado à igreja por mestre Gil, no Coto (junto à Tornada)”. Aquele documento especifica que a propriedade ficava junto ao limite Sul da extensão máxima dos Coutos de Alcobaça. A paróquia do Coto foi criada em Abril de 1610 e foi nesse ano que foi mandada erigir a Igreja Paroquial, a Nossa Senhora dos Anjos. Em 1793 surgem os primeiros registos de baptismo, o que aponta para a criação da Paróquia local. Com a reforma administrativa de Passos Manuel, em 1836, o Coto passou a pertencer às Caldas. Nesta freguesia, de cariz agrícola, a maioria dos habitantes praticou-a com o fim de subsistência. Já no século passado registou-se uma tradição laboral ligada ao trabalho dos sapateiros que não teve continuidade pois foi adaptado à indústria do calçado. Na década seguinte começaram a surgir os primeiros operários fabris com o aparecimento da empresa “Águas do Areeiro”.

    Rancho e etnografia unidos em S. Gregório

    S. Gregório situa-se entre as Caldas e A-dos-Francos e confina com Óbidos, concelho a que pertenceu até Setembro de 1895, quando transitou para Caldas. Não se conhece bem a origem desta terra, no entanto, em 1512, com 32 vizinhos, fazia parte do recenseamento de Óbidos. Entre as gentes desta localidade destacaram-se duas irmãs, naturais da Fanadia: a D. Rosalina e a D. Gertrudes Carlota, que ficaram célebres por terem sido doceiras, em Lisboa, na corte do Rei D. Carlos. Com a crise e queda da Monarquia, em resultado do Regicídio de 1908 e da implantação da República a 5 de Outubro de 1910, as caldenses voltaram à terra natal, tendo-se dedicado à venda de cavacas e beijinhos, junto ao Hospital Termal. Esta freguesia rural – que até 1985 se designou S. Gregório da Fanadia – possui uma das maiores manchas florestais do concelho onde a produção de cereais, azeite e vinho foram substituídas por fruticultura. Da Fanadia destaca-se o seu Rancho Folclórico “As Ceifeiras”, fundado em 1934 e agraciado com a Medalha de Bronze da Cidade, em 2011.

    Descrição da União de freguesias de N. Sra. do Pópulo, Coto e São Gregório

    LUGARES
    Nossa Senhora do Pópulo: Lagoa Parceira, Imaginário, Rochida, Crocha, Santa Rita e Lavradio
    Coto: Casais da Ponte, Vale do Coto, S. Jacinto, Casais da Serralheira
    S. Gregório: Fanadia, Casais da Boa Vista, Casais da Paraventa, Casais da Mata Velha

    Pontos de Interesse
    Monumentos:
    Nossa Senhora do Pópulo: Hospital Termal, Parque, Mata, Chafariz das Cinco Bicas, Igreja de Nossa Senhora do Pópulo, Igreja de S. Sebastião, Igreja do Espírito Santo, Museus, Centro de Artes, Praça da Fruta, Jardim de Água
    Coto: Igreja Paroquial Nossa Sra. dos Anjos, Capela de S. Jacinto, Miradouro do Vale do Coto e Moinho das Carrascas
    S. Gregório: Igreja Paroquial de de S. Gregório, Capela de N.ª Sra. da Conceição e Igreja de São Sebastião e Santa Ana (Fanadia)

    Associações:
    Nossa Senhora do Pópulo: ACCCRO, Associação de Artesãos, Associação de Dadores de Sangue, Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários, Casa do Benfica, Orfeão Caldense, entre tantas outras
    Freguesia do Coto: Associação “ARECO” e Associação de Desenvolvimento da Freguesia do Coto
    Freguesia de S. Gregório: Grupo Desportivo da Fanadia, Rancho Folclórico e Etnográfico “As Ceifeiras” da Fanadia, São Gregório Ginásio Clube, Centro de Apoio Social da Freguesia de São Gregório

    Datas festivas
    Nossa Senhora do Pópulo: Festa do 15 de Maio, Feira do 15 de Agosto e Festa da Espiga na Lagoa Parceira
    Coto: Festa do Chouriço (Fevereiro), Festa de São Jacinto (Julho, pontualmente), Festa em Honra de Nossa Senhora dos Anjos (1ª semana de Setembro)
    S. Gregório: Festa a São Gregório – segunda quinzena de Agosto
    Fanadia – Festa a São Sebastião – 20 de Janeiro; Santa Ana no primeiro fim de semana de Agosto

    Principais Actividades económicas
    Nossa Senhora do Pópulo: Comércio, Indústria e Serviços
    Coto: Agricultura, Pecuária, Floricultura, Comércio e Formação Profissional
    S. Gregório: Agricultura e Pecuária

     

    Segredos Escondidos

    Tríptico da Igreja do Pópulo


    A Igreja de Nossa Senhora do Pópulo é o único edifício classificado como Património Nacional das Caldas da Rainha. Construída nos finais do séc. XV, é a capela do hospital fundado pela rainha D. Leonor. Arquitectonicamente pertence ao ciclo manuelino primitivo, impondo-se a torre sineira pela sua beleza e imponência. O interior, que possui admiráveis azulejos, é de uma só nave ostenta na bela abóbada as marcas manuelinas. O arco triunfal é digno de nota e encontra-se ornamentado com o escudo real e um tríptico, proveniente da escola de Lisboa que floresceu no séc. XVI.
    Trata-se de um tríptico de pinturas a óleo sobre madeira que data de 1510-1515 e que é considerada uma obra prima da pintura portuguesa. Trata-se de um caso ímpar de solução estética, concebida com perfeita integração no espaço. É atribuída ao Mestre da Lourinhã (desconhece-se o seu nome), mas sabe-se que seria um artista erudito do círculo intelectual da rainha D. Leonor a quem se deve a encomenda da obra. Trata-se de um trabalho desenvolvido em parceria entre o Mestre da Lourinhã e Cristovão Figueiredo.

    Painéis de azulejo da Capela de S. Jacinto (Coto)


    Não há registos documentais conhecidos sobre a origem desta capela, supostamente anterior ao século XVII, construída na “antiga carreira do gado”. A capela de S. Jacinto no Coto, obra assinalada pela data de 1745 sobre a porta da sacristia tem uma frontaria muito sóbria, delimitada por pilastras de pedra e com um frontão triangular de um equilibrado valor barroco clássico que revelam a remodelação da época de D. João V.
    No interior, há um segredo que vale bem a visita: há painéis azulejares que representam cenas da vida de S. Jacinto, uma temática muito invulgar e talvez única na azulejaria portuguesa. Segundo um parecer de José Meco, a qualidade pictórica dos azulejos da Ermida de São Jacinto “é excepcional”.

    Museu Etnográfico da Fanadia (S. Gregório)


    Na aldeia da Fanadia há um espaço museológico etnográfico que reúne a colecção particular de artefactos agrícolas que pertencem a Sérgio Pereira, um dos responsáveis pelo Rancho “As Ceifeiras”. Este Museu Etnográfico do Rancho foi iniciado em 1984 e está instalado num espaço que foi um lagar de azeite até 1965.
    Da colecção fazem parte peças recolhidas, ao longo dos tempos, pelos responsáveis do grupo etnográfico local. Os objectos, instrumentos de trabalho e utilidades para as habitações, referem-se ao quotidiano de uma aldeia de feição agrícola.
    Segundo o site daquele espaço museológico, as peças que compõem a colecção são recolhidas na Fanadia e nas aldeias vizinhas “numa permanente pesquisa etnográfica como documento histórico da eterna luta de sobrevivência do homem com a terra, para estudo e afirmação da identidade local e regional”. N.N.