1.º de Maio nas Caldas da Rainha: da euforia à desmobilização

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Sebastião Barata
historiador

O 1.º de Maio de 1974 foi dia de grande euforia no concelho, segundo a Gazeta das Caldas.
Se o 25 de Abril de 1974 foi a madrugada que inaugurou o dia inicial inteiro e limpo, o 1.º de Maio, seis dias depois, foi a tarde que confirmou a totalidade e a imaculabilidade da Revolução. Em Lisboa, no até então denominado Estádio da FNAT, centenas de milhares de pessoas escutaram essa ideia nos discursos de Álvaro Cunhal e Mário Soares. “Se alguém queria saber quais eram os sentimentos, qual é a vontade, quais são os objectivos do nosso povo – hoje, este dia, deu a resposta!”, sentenciou o secretário-geral comunista. “Em 25 de Abril, as Forças Armadas destituíram o governo fascista (…). Mas foi hoje, foi aqui, que nós destruímos o fascismo!”, asseverou o líder socialista.
À semelhança da capital, milhares de portugueses saíram à rua no 1.º de Maio para celebrar a recém-conquistada liberdade. Caldas da Rainha não foi excepção. A dimensão da adesão popular é bem visível nas filmagens mudas disponibilizadas no sítio da RTP Arquivos. Uma Praça da República cheia de caldenses, que depois seguiram em cortejo pela rua José Malhoa, envergando tarjas e faixas com as mais diversas mensagens, desde apelos ao fim da guerra a pedidos de reconhecimento do direito à greve. Esta foi, de acordo com a Gazeta das Caldas, a terceira grande manifestação nas Caldas na primeira semana em liberdade: a 27 de Abril, os caldenses manifestaram-se em apoio à Junta de Salvação Nacional (JNS) e, a 29, uma multidão recebeu os oficiais do 16 de Março e com eles marchou desde os Paços do Concelho ao quartel do Regime de Infantaria n.º 5 (RI5).
A edição de 8 de Maio da Gazeta das Caldas oferece-nos um registo escrito do 1.º de Maio, que serve de legenda às imagens de arquivo da RTP. Lê-se na reportagem que a manifestação começou às 16h, com a largada de pombos na Praça da República, como símbolo da paz. Depois, da varanda dos Paços do Concelho, discursaram um representante da Comissão Democrática Eleitoral (CDE), um estudante, um metalúrgico, um empregado comercial, e o presidente do Sindicato. Nas janelas da sede camarária, foram ovacionados dois oficiais do exército que haviam integrado a coluna militar do 16 de Março. De acordo com o jornal, o cortejo iniciado depois das intervenções decorreu cívica e ordeiramente, em ambiente de “euforia e concórdia”.
Torna-se mais difícil percepcionar a dimensão e adesão popular ao 1.º de Maio nos anos seguintes, pois os relatos diferem um pouco consoante as fontes.
No decorrer da década de 1970, as reportagens da Gazeta foram perdendo o entusiasmo. O tom em 1975 foi menos eufórico, dando conta de “algumas manifestações nas Caldas” com “alguns milhares de pessoas”, e, no ano seguinte, os participantes nas iniciativas passaram a ser quantificados em “centenas” e não milhares. Contudo, o relato das comemorações é bastante diferente nas páginas do Avante!, o órgão central do PCP. Em 1977, por exemplo, a Gazeta foi da opinião de que “terá sido neste ano que o 1.º de Maio foi comemorado mais atabalhoadamente, havendo uma menor mobilização popular”; mas, segundo o jornal do Partido Comunista, foram registados 1500 caldenses nas ruas da cidade. E em 1979, o Avante! deu conta de 3500 pessoas em manifestação na Praça da República; todavia, na Gazeta não houve nota de reportagem sobre o 1.º de Maio desse ano.
Ainda assim, o rescaldo das comemorações de 1979 faria correr alguma tinta. Após alguns vereadores da Câmara terem considerado a celebração do Dia do Trabalhador desse ano uma “agressão ideológica”, o executivo do PSD proibiu as manifestações na Praça da República. A decisão valeu uma forte condenação da Comissão Concelhia do PCP, em comunicado publicado na Gazeta. Nas mesmas semanas, também as Comissões Concelhias de PS e PSD trocaram acesos comunicados acerca do papel da Câmara Municipal nas comemorações do 25 de Abril. Como se pode ver, na década de 1970 ainda fervilhavam lutas partidárias no concelho, à boleia das comemorações da Revolução.
Na década de 1980, torna-se mais fácil determinar o esmorecimento das comemorações do Dia do Trabalhador nas Caldas da Rainha. Segundo a Gazeta, em 1984, na sessão solene da Assembleia Municipal no 10.º aniversário da revolução, nem mesmo o deputado da APU (Aliança Povo Unido, coligação integrada pelo PCP) fez referência ao 1.º de Maio no seu discurso. No semanário, as edições do mês de Maio cobriam as comemorações do 25 de Abril e passavam às preparações das Festas da Cidade, ‘saltando’ o 1.º de Maio. Até no Avante!, no levantamento dos principais focos de mobilização do país, se deixou de ler o nome das Caldas da Rainha, sendo que os sindicalistas e trabalhadores do concelho passaram a ser mobilizados para as comemorações em Leiria ou Marinha Grande. A tendência manter-se-ia nas décadas seguintes.
Na memória institucional da revolução, o 25 de Abril ficou ‘a sós’ como a data fundadora da democracia e do fim do Estado Novo, não obstante a indiscutível importância (muito para lá do plano simbólico) que o Dia do Trabalhador de 1974 teve na cronologia dos acontecimentos de há 50 anos. Na memória colectiva, o 1.º de Maio tornou-se uma data assinalada sobretudo à esquerda, nomeadamente pelos partidos desse quadrante e pelos sindicatos. Nas Caldas da Rainha, cedo convertida em bastião do PPD/PSD, a data não mais agitou os ânimos políticos e populares como nos primeiros anos de liberdade. ■

Escrito de acordo com a antiga ortografia.