A cidade das águas

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Gazeta das Caldas
Paulo Caiado | D.R.

Na minha última crónica referi que o facto de estarmos há décadas a aguardar que o hospital termal reabra, está a protelar um conjunto de acções que poderiam ter tornado Caldas da Rainha uma verdadeira “Cidade das Águas”.
Hoje, a cidade é conhecida por ter o mais antigo hospital termal do país num tempo em que quase já não existem hospitais termais no país.
Não existem no sentido em que quase todas as valências que poderiam caracterizar um hospital termal já não serão admitidas pelo ministério da saúde como parte do SNS. Os benefícios que no passado eram reconhecidos pelo mundo médico hoje são alvo de cepticismo. Poucos médicos já receitam “uma ida às termas” ao invés de um antibiótico ou um qualquer outro medicamento. Por isso os hospitais termais tendem a desaparecer dando lugar a clinicas de águas agregadas a um ou vários hotéis de luxo. Não é por acaso que muitos dos antigos balneários termais hoje estão concessionados a hotéis que incorporaram a talassoterapia aos seus spas onde complementam com outras terapêuticas que estão na moda mas que o Estado não reconhece ao ponto de nem colherem em sede de IRS.
Numa consulta a diferentes sites de lazer e turismo vemos que aquelas que são consideradas as dez melhores estancias termais do país: Vidago, Monção, Unhais da Serra, Curia, Gerês, Luso (que inclui como excepção um centro de reabilitação), Monte Real, Caldas de Aregos, S. Pedro do Sul e Caldas de Monchique, não têm hospital termal mas têm hotéis com spas que incorporaram as antigas termas. O mundo mudou e assim mudaram os hábitos dos portugueses. As antigas termas que eram destinadas sobretudo a um público sénior são hoje procuradas como centros de lazer e repouso por gerações muito mais jovens e endinheiradas. O seu guia de viagens já não será a revista do ACP ou a Flama mas a TimeOut ou o TripAdvisor e é lá, nas apresentações e nos comentários, que vamos encontrar o que os novos consumidores (e não pacientes) procuram. Hotéis Resorts &Spa, não Hospitais Termais. Quem vai a um hospital que não seja recomendado por um médico? E qual o médico na actualidade que prescreve uma “ida a banhos” em vez de um receituário farmacêutico?
O hospital termal de Caldas será um ponto de atracção e servirá como principal ícone patrimonial da cidade e da estratégia de Cidade das Águas que se pretende implantar, mas por si só não será nem rentável nem servirá para cativar turistas internos ou externos. A Cidade das Águas terá de ser muito mais e o trabalho para a tornar assim já deveria ter começado há uma geração atrás. Precisamos de água na cidade. Precisamos de fontanários – a começar pelo centro do Largo do Hospital Termal, precisamos de água a correr, precisamos de muitos espaços verdes, precisamos de ter com que ocupar os turistas quando não estão “a banhos”, precisamos de eventos culturais ao ar livre que sejam coerentes com a estratégia que se pretende implementar para a cidade, que sejam identificadores dessa imagem de “Cidade das Águas”, precisamos de dinamizar as políticas ambientais na cidade.
Com uma estratégia bem consistente, os turistas internos e externos irão procurar-nos porque não haverá outra cidade com esse poder de oferta para esse nicho de mercado. E aí teremos um sector termal rentável e dinâmico gerando um cluster regional. Como aproveitar sinergias para que as vantagens a obter sejam transversais aos diferentes sectores de actividade económica da cidade e da região é o que procurarei enunciar nas próximas crónicas.

Paulo Caiado
prcaiado@gmail.com