A cultura é um bem essencial

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Celeste Afonso
diretora cultural executiva

Chegados ao final da campanha eleitoral para as eleições legislativas que acontecem este domingo, há um constatação preocupante: a cultura não faz parte das preocupações dos políticos.
Paradoxalmente, quando a cultura deveria estar no centro da agenda política, ela é completamente esquecida.
Os debates e os comícios centraram-se nas necessidades imediatas, nas urgências da sobrevivência, na economia e infra-estruturas e nos faits divers.
No entanto, tratando-se de políticos de carreira, subestimar o impacto económico da cultura e ignorar o seu papel transformador é um erro crasso.
Sobre o seu impacto económico, o último relatório anual estatístico de Cultura, do INE, confrontando 2022 com 2021, apresenta resultados surpreendentes: em 2022, o emprego cultural representou 3,9% da população total empregada; a sua remuneração bruta teve um aumento de 4%; o número de empresas do sector da cultura e das indústrias criativas aumentou 10% ; o volume de negócios dessas empresas aumentou 21,2% – 8,1 mil milhões de euros em 2022 (bem acima das vendas a retalho do vestuário – 3,850 milhões de euros – e das exportações do têxtil e do calçado – 6,300 milhões de euros); a exportação de bens e serviços desta área foi de 238 milhões de euros que representaram um aumento de 19,4%.
Mas a importância da cultura vai muito para além dos números. Nesta crise de valores que estamos a viver, com os extremismos a galgarem terreno, a cultura é o garante do entendimento entre as pessoas e os povos. É a arma mais eficaz nesta luta pela defesa da liberdade, pela democracia. Pela cultura, desenvolvem-se valores como a ética, a estética, o respeito e valorização do outro e do que é diferente – questões fulcrais para a sobrevivência humana. É pela cultura e com a cultura que Portugal continua a afirmar-se como destino turístico de excepção, um dos nossos principais activos, porque é diferenciador – mas é necessário valorizar, salvaguardar e dinamizar o nosso património cultural.
Pensar Portugal é prospectivar um país mais sustentável, mais coeso e mais resiliente, promovendo o papel vital que as artes e o património desempenham tanto no impacto local como numa dinâmica global de coesão territorial.
Mas falta representação política. Quantas pessoas que representem a cultura, que a defendam, fazem parte das listas dos vários partidos políticos?
Sem defensores influentes, a cultura permanecerá à margem das decisões estratégicas e das políticas de desenvolvimento.
A cultura é um bem essencial – e deve ser tratada como tal. ■