A propósito de um espectáculo no CCC

0
314

A falência familiar manifesta-se todos os dias quer pela sua negligência quer pela permissividade com os seus filhos, em que todas as suas vontades são caprichosamente satisfeitas e a desculpabilização uma constante. Existe uma geração de jovens individualistas, egoístas, caprichosos e “tiranos” com os pais, como nunca supus ser possível — a “Ditadura da Criança” é uma realidade e os pais não parecem muito preocupados com isso. A criança impõe-se em qualquer espaço, porque os pais consideram que têm o direito de participar no que lhes apetece e não tendo com quem deixar os filhos, levam-nos consigo, impondo a sua presença em cafés e restaurantes e durante espectáculos. Hoje os pais não se incomodam com as birras dos filhos e tão pouco se incomodam que estes perturbem o sossego, o trabalho ou o lazer dos outros. E é aqui que quero chegar, a crise de valores é uma realidade na sociedade portuguesa sendo transversal à maioria das famílias e o primeiro dos valores sociais é o do respeito pelos outros…
No passado dia 17 de Junho fui ao CCC assistir a um espectáculo que, sendo uma apresentação de final de ano lectivo, não deixa de ser um espectáculo público, pago. Como apreciadora de ballet, e tendo entre os “bailarinos” uma familiar, fui, julgando ir apreciar um espectáculo de dança que me deixaria, no mínimo, bem disposta. Porém, tal não aconteceu… Demasiado longo (quase três horas) e deixando para o fim o seu melhor, (o que é compreensível), fez com que o público já não pudesse desfrutar desses melhores momentos por já estar cansado desde a primeira parte, já de si longa….
Todo o espectáculo tem um “tempo certo” para não fatigar; é preferível um “bis” do que sair de uma sala desalvorado por excesso…. Mas, o pior de tudo, foi o facto de alguns papás, desta nova geração que já foi deseducada também pelos seus papás, aquela em que por tudo e por nada diz “qual é o problema?” quer seja a incomodar os outros, ou outra coisa qualquer, resolveram levar os seus bebés ao CCC nas suas cadeirinhas, não lhes passando pela cabeça que os ditos poderiam acordar e não apreciar estar naquele local que não é próprio para a sua idade.
Mas os bebés acordaram e não gostaram do local, não gostaram de estar às escuras quando já estavam acordados e possivelmente já tinham fome…. e os papás deixaram que eles “berrassem” durante horas, umas vezes uns, outras vezes outros, e ainda ao mesmo tempo, sem se incomodarem por estarem a perturbar um espectáculo musical, com um excelente pianista que, para o fim, estava visivelmente com dificuldade em se concentrar… Achando incorrecto terem levado para o espectáculo os bebés, sempre pensei que ao primeiro choro, a mamã ou o papá saíssem para o foyer  para não estragarem o espectáculo aos que assistiam… Mas não, não arredaram pé, porque estavam ali para assistir estoicamente, e não incomodar os outros é coisa que não faz parte do seu código de relações sociais e de respeito por terceiros.
Felizmente para mim e para os ditos papás que não fiquei sentada perto de nenhum deles, porque algum de nós não teria assistido ao espectáculo até ao fim, e não seria eu de certeza….
Fiquei também desagradavelmente surpreendida com as funcionárias do CCC que andavam de fila em fila, numa perseguição sem tréguas a alguns dos espectadores que tentavam timidamente tirar fotografias com os seus telemóveis, apesar de terem sido advertidos para não o fazerem…. Mais uma demonstração de desrespeito perante uma regra da casa que foi referida antes do espectáculo começar. Porém, tirar uma ou outra foto, que não incomoda ninguém comparada com o berreiro dos bebés a que se assistiu, não é nada, e não vi as funcionárias do CCC avisarem os pais para saírem da sala porque estavam a incomodar a assistência e até os “artistas” envolvidos….
O facto de a maioria das pessoas não ter demonstrado o seu desagrado, muito menos publicamente, não significa que tenham gostado de assistir ao espectáculo com a berraria de fundo…. porém, como é típico dos portugueses “comem e calam” ou só refilam com o futebol….

Cristina Mendonça de  Sousa