Amor em tempos líquidos

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Celeste Afonso
diretora cultural executiva
A 23 de janeiro assinalámos os 500 anos do nascimento de Luís de Camões.
Passados, aproximadamente, cinco séculos, estes versos continuam a ser os mais usados para traduzir o Amor:
Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor,
É ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade;
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Mas ainda se ama assim, na nossa sociedade líquida?
Zygmunt Bauman, sociólogo polaco falecido em 2017,  repetiu em diversas entrevistas que escolheu  “chamar de modernidade líquida a crescente convicção de que a mudança é a única coisa permanente e a incerteza a única certeza.” E a propósito da  fragilidade dos laços humanos afirmava que “Hoje os relacionamentos escorrem por entre os dedos”. Na verdade, as relações afectivas tornaram-se fluidas, voláteis, efémeras e mutáveis.
Vivemos na era do homo consumens que faz do consumo a sua terapia e cura a solidão procurando as melhores ofertas. Na vida contemporânea tudo é descartável, substituível, superficial. Estas características da sociedade de consumo extrapolaram para os relacionamentos. O resultado são relações superficiais, sem diálogos profundos e sem convivência real porque grande parte é  mediada por um ecrã. Daí ser tão simples, perante uma dificuldade ou uma novidade, acabar com a relação.
Desconectar, bloquear, excluir.
A este propósito, Bauman defende que o grande atractivo da internet não é a facilidade de nos conectarmos e fazermos amigos. O seu maior atractivo é a facilidade de nos desconectarmos.
As várias fases da relação – do princípio ao fim – estão em estado líquido. Terminar uma relação não tem o cenário íntimo nem as explicações sentidas do passado. Acabam-se relacionamentos por WhatsApp e basta uma frase e um emoji. Não há espaço para dramas nem lamúrias. Ou opta-se simplesmente pelo ghosting. E a vida continua em modo  keep swiping.
Mas se as relações são uma sucessão de reinícios e, precisamente por isso, os finais são rápidos e indolores, de permeio há ainda lugar para viver “um fogo que arde sem se ver, (…) um nunca contentar-se de contente”?
Acredito que mesmo no amor líquido, em algum momento foram sentidas as palavras de Camões. ■