AnacrÓnicas – A cidade dos pássaros

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Gazeta das Caldas

A cidade dos pássaros é a próxima criação do Teatro da Rainha. Depois de O resto já devem conhecer do cinema, um Aristófanes adaptado pelo francês Bernard Chartreux. Referida também à mitologia grega podemos dizer que esta Grécia é outra, a da comédia. Na tragédia o inelutável parece perseguir-nos e o mito cose nos dias aquilo que se vai erguendo como inevitável, que nos dias não se consegue realizar de autónomo por vontade dos homens. O augúrio tem um papel determinante, há que seguir o que foi prescrito pelo profeta, a tragédia não brinca aos mitos, não é lúdica, não é jogo. E é substantiva, não ilude, trama o essencial.
Será sempre tarde para endireitar o que nasceu torto e por inconsciência dos protagonistas, como no caso de Édipo e a mancha está lá, não sai com nenhum tipo de detergente ideológico, nem com nenhuma redenção.
A história humana enquanto violência, dizendo de outro modo, a violência como motor da história, aponta para um modo de resolução dos conflitos entre povos e famílias que nunca foi outro – o massacre é um instrumento, não é uma excepção, as formas industriais da morte são conhecidas desde a batalha de Siracusa, aí os atenienses foram “grelhados” na pedreira, conforme o relato de Tucídides, o que hoje lembra as formas de morte massiva da “solução final”.
Sejam os recursos naturais, seja a geoestratégia imperial, seja a política-espectáculo, as formas da violência, agora centradas na possibilidade do seu “cinema” directo – pelo menos desde a guerra do golfo – continuam a reger este mundo – digamos que tudo se transforma em “entretenimento”.
A diplomacia não é a regra, a regra é a economia, que poderíamos apelidar, como alguém apelidou a política como prolongamento da guerra, como forma própria de exercício da violência pela imposição da precariedade e do desemprego a muitos, do enriquecimento ilícito a uns poucos. E através da pilhagem dos recursos de outros pelos mais fortes – o modo como os “consumidores” pagaram a crise – desde 2008 para cá – institucionaliza esse modo de pilhagem em nome do sistema financeiro, e a favor dos bancos, modo que vai buscar directamente dinheiro às contas bancárias das pessoas ou aos seus salários.
A cidade dos pássaros com estreia a 3 de Julho é um espectáculo sobre a corrupção da democracia, sobre a sua degeneração e sobre o modo como, em nome de uma alternativa, o que se gera é uma ditadura. É um texto – cómico – sobre os populismos. Sobre as derivas autoritárias que vestem a pele das regenerações, das utopias regeneradoras demagocráticas.
Evélpidos e Pitesteros, este com vocação de ditador, virando as costas à Atenas corrupta, fundam junto dos pássaros uma nova cidade, depois de convencerem estes das suas origens nobres – filhos da realeza, como o galo e a sua crista, a carriça real – e depois de, por assim dizer, os colonizarem, alterando os seu modo de vida ancestral pelo moderno modo de vida dos homens, centrado na produção em grande escala, nos impostos e na militarização da sociedade.
Os do Olimpo – Zeus e a pandilha – pagam agora impostos para que os fumos sacrificiais que os humanos lhes dedicam possam atravessar as alfândegas da cidade fortificada e instalada nas nuvens, assim como os humanos passam a sacrificar aos pássaros e não aos velhos deuses.
É claro que Zeus se chateia e a a tentativa acaba mal, Zeus usa a sua arma de detruição massiva, o trovão e companhia: raios, granizo, ventos, tsunamis, etc. Pisteteropolis é um falhanço, como Sodoma e Gomorra, Cápua, como Mahagony, como, esperemos, a great america de Trump, o Brasil do Bolsonaro, a Hungria de Órban, as Filipinas de Duterte, a Itália de Salvini e a frança da LePen, etc.

Fernando Mora Ramos
fernando.mora.ramos@gmail.com