António Maria de Sousa (1941-2017)

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Partiu sem qualquer aviso à navegação na semana passada.
Companheiro de sempre na luta contra a ditadura, deixou-nos uma figura de grande estatura moral e intelectual.
Natural de Alcobaça, veio a fixar-se nas Caldas.
Autodidacta, a sua vasta cultura permitiu-lhe o ingresso no Ensino Superior através do Exame “ad-hoc”.

Licenciado em Românicas em Lisboa, cursou mestrado na Universidade do Minho, professor nas Caldas e na Escola Superior de Educação de Portalegre, vem a ser, presumo, o primeiro e único Director do Museu de Cerâmica das Caldas da Rainha escolhido por Concurso Público.
Destaco a criação da primeira base de dados do acervo do Museu, inovadora ao tempo. A publicação de alguns catálogos sobre autores ainda não fixados: Atelier Cerâmico do Visconde de Sacavém, Manuel Mafra ( em parceria com a Câmara Municipal de Mafra, concelho de onde era originário o “nosso” Manuel Cipriano Gomes, Mafra por alcunha que veio a adoptar para nome ), e a colaboração com o investigador americano, sobre Bernard Palissy, M. P. Katz que publicou ao tempo um livro sobre a Cerâmica das Caldas e sua relação com Palissy e seguidores nos Séculos XIX e XX.
A instalação de uma “guarda avançada”do Museu de Cerâmica no centro da Cidade – Rua das Montras – no belíssimo edifício do antigo Banco Lisboa & Açores, permitiu a divulgação inovadora do Museu, “desterrado” no Avenal no excelente Palacete do Visconde de Sacavém, em boa hora adquirido para o efeito. Iniciou a internacionalização da colecção do Museu : Exposição na Índia.
No seu tempo, uma exposição intitulada Bordalo em casa de Gameiro levou peças de Rafael Bordalo Pinheiro das Caldas à Amadora a Casa do grande pintor aguarelista e seu amigo Alfredo Roque Gameiro ( Casa projectada por Raul Lino que incluiu telhas, azulejos e ornamentos produzidos por Rafael Bordalo na sua Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha ). Trabalho realizado em conjunto com a Câmara da Amadora e de que resultou catálogo que representa com dignidade a exposição efectuada.
Reencontrámo-nos em 2000, na viragem para o Século XXI, publiquei na Gazeta um artigo dando conta da “descoberta” de uma peça das Caldas fabricada no Porto!? por Joaquim Pinto de Almeida no lugar da Formiga. Quem me elucidou foi o António Maria em artigo-resposta muito detalhado ligando JPA a Avelino Belo, decifrando o monograma gravado na peça, abrindo todo um caminho de investigação que temos vindo a trilhar.
Recordo com emoção o encontro subsequente em minha casa, para ver a peça ( um paliteiro entretanto oferecido ao Museu da Cerâmica ) e outras da colecção que dava os primeiros passos…
O seu enorme entusiasmo revelou-se-me ao vê-lo segurar com mil cuidados um jarro de segredo – que concordámos em que nem deve ser Caldas – e, já sentado, dizer-me, ao ver vidros talhados em brilhante, que deveria ser uma peça fabricada especialmente para prenda de casamento.
Gente boa que fez obra em tempos de “vacas magras”, sem reconhecimento e parte agora em tempos de “vacas gordas” – mas sem chama – em que se disputam os “trinta dinheiros” (ou será o Milhão que Bordalo “pôs” nas mãos do John Bull para nos pagar as afrontas do Ultimato Inglês) atirados ao ar, como a noiva que atira o seu “bouquet”, mas já sabe a quem vai calhar… sempre aos mesmos; para entorpecer consciências…
R.I.P.
Amigo descansa em paz.

Jorge F. Ferreira
(com a colaboração preciosa da Margarida Araújo)