Aprender a Ler e a Escrever

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Isabel Xavier
professora

Subi o lance de escadas que separava a minha casa da casa da minha avó. Aguardava-me mais uma lição de leitura, escrita, aritmética, gramática, as matérias do programa da primeira classe. Estava um belíssimo dia de primavera e eu disse logo ao entrar: “avó, vamos dar um passeio ao parque, em vez de ficarmos aqui fechadas, pode ser?”. Ela começou por se esquivar, fez-se rogada, mas cedeu e lá fomos nós observar os canteiros a despontar de flores, as árvores a despontar de folhas, as borboletas, as abelhas, os cisnes, os peixes, um nunca acabar de maravilhas… Aquilo não era novidade para mim. Desde que me lembro, que eu e os meus irmãos frequentávamos o parque – morávamos junto ao monumento à rainha D. Leonor – mas não àquela hora, nem com a minha avó. Todos sabemos que o parque das Caldas tem um encanto especial de manhã, uma atmosfera singular e inconfundível.
A avó de que falo tinha em tempos sido uma jovem professora, profissão que abandonou para se tornar dona de casa, assim que casou com o meu avô. Mas voltou a ela sempre que pôde, para ensinar a filha e os netos, um a um, até chegar a minha vez. Ela própria filha de professor primário, sentiu sempre falta de lecionar, mas nunca recriminou o meu avô. Julgo que ambos consideravam que não lhe ficaria bem, como homem, permitir que a mulher trabalhasse fora de casa. A mim, uma das netas mais novas, ensinou-me apenas a primeira e a segunda classe. Nessa altura, o meu avô adoeceu e morreu e ela não se sentiu capaz de continuar, dado o desgosto que a minava.
Tenho para mim, que é por ter aprendido a ler e a escrever com a minha avó, simultaneamente permissiva e exigente (por exemplo, no ensino da gramática), que sempre gostei tanto de ler e de escrever. Já os números, embora os tivesse aprendido também com ela, nunca foram do meu agrado e suspeito que dela também não. Cada vez que ela enveredava por aí, eu conseguia convencê-la a mudar de rumo, e a voltar às letras e aos textos.
Quando ingressei no colégio, numa turma de terceira classe, estava avançada em relação aos meus colegas na gramática e na escrita, mas bastante atrasada nas contas. Vi-me forçada a trabalhar muito para recuperar esse atraso, o que aconteceu ainda durante esse ano letivo.
Desde então, nunca mais deixei de viver em contexto escolar: como estudante e como professora. Sou professora há quarenta anos. Se somarmos a esses quarenta anos de ensino, um percurso académico de dezassete anos ou mais, poderemos avaliar quão preciosa é para mim a recordação dos dois anos em que fui iniciada na leitura e na escrita pela minha avó, em casa dela. ■