Crónica do Québec (Canadá) – Os Deolinda e as escolas do Québec

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Há algumas semanas num «folhear» atento do blog dum velho amigo e colega das Caldas descobri o grupo musical «Os Deolinda». Na altura achei curioso o pormenor do género masculino no artigo definido, e o do feminino no nome, mas foi sobretudo depois da sua última publicação, « Que parva que eu sou» , que dediquei um pouco mais de atenção às letras simples das canções do grupo, dum tipo que já há muitos anos se não ouvia em Portugal. É o retrato duma geração cheia de diplomas, mas geralmente impreparada para o mercado de trabalho, e para a criação da riqueza de que o país precisa.
Trouxe-me simultaneamente à memória uma análise feita há anos, que dizia que, enquanto uma percentagem importante dos jovens diplomados norte americanos se lançam na aventura de criar o seu próprio emprego com algo de novo, em Portugal, a quase totalidade,  e por razões que desconheço, procura sobretudo o conforto dum emprego por conta de outrém e se possivel com um Contrato Colectivo de Trabalho bem blindado, coisa cada vez mais rara nos dias de hoje.   Não tenho dados absolutos para confirmar ou infirmar a veracidade desta análise, mas todos sabemos que, aquelas que são hoje grandes corporações multinacionais, começaram um sem número de vezes em pequenas garagens. As Microsoft e Bombardier são por todos conhecidas. Como já mencionei noutra crónica, penso que a capacidade criativa de muitos jovens e empreendedores portugueses, esbarra na inexistência dum mercado de capitais rico e activo. Ao contrário do que se passa nestas paragens, onde,  investir, especular, ou o que lhe queiram chamar, nas bolsas de valores, é moeda corrente, em Portugal a maioria da população sofre de iliteracia financeira e é geralmente aversa ao risco.
Enquanto o sistema português de ensino nestes últimos anos optava por uma massificação de diplomados, em cursos muitas vezes inadequados às reais necessidades do país, no Québec, a situação é algo diferente. A escolaridade obrigatória vai desde há muito,  até ao final do secundário, a que correspondem 11 anos de ensino. Esta obrigatoriedade não implica no entanto que todos os jovens sejam detentores do respectivo diploma de estudos secundários. No ano de 1990 cerca de 17% dos jovens da província não tinham terminado os estudos secundários e em 2005 esta percentagem era ainda de cerca de 10%.
Depois do ensino secundário, os jovens quebequenses passam por uma verdadeira crivagem, que é o temido ensino colegial. Os que optam de imediato pela universidade, são obrigados a fazer pelo menos 2 anos, nos  CEGEP s (acrónimo de Colégio de Ensino Geral E Profissional), estabelecimentos de ensino gratuitos e do Estado que se encarregam de fazer a triagem entre os que têm reais capacidades para entrar rapidamente nas diversas faculdades  e os que deverão optar por Cursos Técnicos. Os que chegam au CEGEP com melhores notas em Matemática, enveredam pelo Curso de Ciências Puras, que lhes abrirá a porta das faculdades de Engenharia e de Medicina. Os outros têm um variado leque de opções. Como se tratam de escolas gratuitas poderia pensar-se que os alunos mais «cábulas», à imagem do que se passava no meu tempo em Portugal, por lá andariam, até que os professores cansados de os ver, acabavam por lhes dar o respectivo diploma. Lembro-me de variadíssimos casos no meu tempo de estudante nas Caldas e em Lisboa, em que os paizinhos iam pagando os estudos aos meninos, sobretudo nós  rapazes, até que um dia lá conseguiam a aprovação. Aqui a situação é totalmente diferente. O aluno ao chumbar pela primeira vez, é de imediato avisado por escrito de que, se na próxima sessão o resultado for o mesmo, fica impossibilitado de frequentar a escola durante determinado periodo, normalmente uma sessão completa. Cada ano tem duas sessões. Com isto passa-se a mensagem de que, ou o aluno trabalha um pouco mais ou terá de procurar outra via. Muitos ao primeiro insucesso, mas a maioria ao segundo, optam por se inscrever no mesmo ou noutro CEGEP num curso técnico, que poderiamos equiparar aos Institutos Politécnicos, mas que, sem dar graus universitários, abrem outra porta para a faculdade. Os que acabam por obter o respectivo diploma por esta via, continuam por vezes os estudos superiores que ambicionavam desde o inicio. Assim três ou quatro anos depois, dependendo do curso,  acabam por obter o ambicionado bacharelato a que correspondem 17 ou 18 anos de escolaridade, prosseguindo por vezes os estudos de segundo e de terceiro ciclos universitários, de Mestrado ou Doutoramento.
As faculdades que exigem médias mais elevadas, sobretudo nas Matemáticas, são as de engenharia e de medicina, cujos diplomados têm uma taxa de empregabilidade de cerca de 100% e tanto num como no outro caso,  iniciam a sua carreira profissional com salários na ordem dos cinquenta mil dólares anuais brutos. Uma curiosidade antes de terminar, neste momento o nome mais vezes repetido na lista dos inscritos na Ordem dos Médicos do Quebec, não é nenhum nome tipicamente canadiano ou quebequense, mas sim o de NGUYEN.  Muitos destes jovens médicos da nossa província são descendentes directos de  refugiados dos « boat people» que aqui chegaram sem nada nos bolsos, nos finais da década de setenta do século XX, depois da vitória dos comunistas do Norte do Vietname sobre os seus compatriotas do Sul e os americanos em 1975.

J.L. Reboleira Alexandre
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