Crónica do Québec (Canadá) – Os meus Natais

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Quando nos iniciàmos nestas pequenas crónicas a ideia era transmitir um pouco da nossa vivência canadiana para os leitores do outro lado do grande mar que nos separa da Europa. O jornal tem no entanto igualmente vários leitores oestinos, sobretudo na província do Ontário, e que na sua grande  maioria ainda eram crianças quando abandonaram a região das Caldas. Um dos últimos correios electrónicos que recebi pedia-me para falar um pouco das nossas aldeias.
A leitora em causa estava obviamente a referir-se às aldeias da nossa partida, não às aldeias que hoje vamos encontrar, onde, como ela dizia, já ninguém conhece ninguém, pois já não se desce ou sobe a pé a estrada para ir ao padeiro ou à loja da terra. Pelo facto de termos deixado Portugal depois da tropa, baliza importante na altura, e no Chão da Parada a electricidade tinha acabado de entrar nas nossas casas há menos dum ano, encontramo-nos numa situação priveligiada para falar desses tempos. A nossa existência frugal da aldeia ficou gravada na memória de forma indelével e a vivência canadiana, é como que a segunda parte, deste longo filme que é a vida, ao contrário dos que pela aldeia se quedaram e que foram evoluindo sem sentirem a fractura por que nós passàmos.
No Chão da Parada, como no Reguengo, Salir, São Martinho ou ainda Campo e Tornada, aldeias da raia atlântica do concelho e terras de embarcadiços, era normal que na noite de Natal as famílias amputadas dos chefes,  se reunissem sem a presença dos mesmos, que poderiam estar naquela noite, como noutra noite qualquer num porto das costas de África, da Ásia ou da  América ou no meio do oceano trabalhando nas suas profissões. Esta forma de emigração para o mar, permitia no entanto às gentes humildes que lhe estavam ligadas beneficiar duma existência de certa forma desafogada que permitia aos filhos, continuarem os estudos para além da antiga quarta classe, por oposição às aldeias do interior, que, nós garotos, víamos como áreas de grande pobreza e das quais costumávamos dizer, nunca tinham visto o mar, e onde apenas os filhos das «élites», como, e já nada me surpreende neste campo, 36 anos depois de Abril, ainda se continua a dizer, tinham acesso aos estudos superiores.
Alguns dias antes do grande dia, os miúdos da aldeia organizavam-se para preparar uma grande fogueira que se acendia a meio da tarde do dia 24 de Dezembro e se mantinha acesa durante vários dias e várias noites. Uns traziam de casa a água pé, outros os chouriços a linguiça ou o toucinho que, depois de assados eram distribuídos por todos os presentes e imagino que nalguns casos seriam a única refeição da noite, antes de, já madrugada, partirem para as suas modestas casas geladas, onde os restos das braseiras da chaminé da cozinha do anexo à residência principal, tinham há muito desaparecido.
Andávamos pelos pinhais na busca do melhor musgo para preparar o maior presépio que compúnhamos na chaminé da cozinha principal, com uns bonecos de barro que nós mesmos fazíamos ou comprávamos nas lojas da cidade.
A ceia de Natal implicava normalmente a morte dum coelho ou duma galinha que já estavam há vários dias a tal  destinados. Antes da nossa mãe preparar as deliciosas filhós, e como não existiam telefones nem televisão, depois da rápida refeição, normalmente conseguíamos convencê-la a deixar-nos partir de novo para junto dos nossos colegas à volta da fogueira. Mas antes tivéramos de árduamente negociar, que a carta que ela nos queria ditar,  poderia muito bem ser escrita no dia seguinte à hora de almoço, de forma a ser posta à tarde  na caixa de correio comunitária da taberna do Zé Polónia. Iria ainda muito a tempo de ser lida por meu pai quando chegasse ao próximo porto, que poderia dar pelo nome de Karachi, Luanda ou Dili.  Por vezes, poucas,  ainda íamos assistir à saída das pessoas que tinham ido à Missa do Galo, sobretudo se por lá andasse alguma garota mais interessante, ou até, quem sabe, prepararmos alguma partida ao nosso saudoso professor de Religião e Moral nas Caldas, o padre Renato a quem, autênticos pequenos demónios, chegámos uma noite a esvaziar os pneus da sua sempiterna motorizada Vespa.
Toda esta existência teve o seu epílogo no mês de Dezembro de 1976. Depois de aqui nos termos instalado, sempre o nosso pai esteve presente nas consoadas de Natal. O presépio com musgo cheirando a pinhal mediterrânico foi substituído pela árvore de Natal e agora não será o Menino Jesus mas sim um novo elemento que desconhecíamos, o Pai Natal, quem deixará algumas prendas não apenas para os mais pequenitos mas também para todos os adultos.  As galinhas e os coelhos que alimentáramos com milho e restos de comida, foram substituídos pelos perus e  pelas couves frescas com batatas e bacalhau. A ciência da preparação das filhós já foi transmitida para a mãe dos meus filhos e os dois bis-netos dos meus pais, o Antoine e a Coralie também já participam na festa da, hoje, grande família luso-canadiana, em que até a Caroline nascida em latitudes ainda bem mais frias se habituou ás nossas iguarias.
Enquanto lá fora a neve continua a cair e o termómetro se aproxima por vezes de temperaturas vizinhas dos -20 graus centígrados, no interior das nossas casas e em mangas de camisa tentamos contar aos mais novos como eram gélidos os natais em Portugal naqueles tempos.
Boas Festas!
J.L. Reboleira Alexandre
[email protected]

1 COMENTÁRIO

  1. Todas as semanas tenho a curiosidade de ver a Gazeta das Caldas na NET.Mas nunca tinha dando conta das Crónicas do Québec.Rubrica que aprecio força Zé Luis e obrigado GAZETTA DAS CALDAS!