De Braços Abertos – Internacionalizar

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Sete biliões de consumidores mundiais, setecentas vezes mais do que os existentes no mercado interno. Se há prioridade económica onde o consenso impera, sejam quais forem as ideologias ou teorias que se defendam, a internacionalização dos negócios é certamente uma delas. Portugal tem um mercado interno pequeno, por vezes demasiado pequeno para a sua capacidade de inovação e produção em determinados sectores de actividade. O mundo está aí aos nossos pés e há séculos que o conhecemos, orgulhando-nos de termos ousado fazê-lo a uma escala que poucos haviam tentado até então. Num momento histórico em que os recursos financeiros escasseiam perigosamente, a opção pela internacionalização é, não só uma prioridade, como uma condição de sobrevivência, sendo esta ideia válida não apenas para o país como um todo, mas também para as regiões, as empresas, os profissionais e até as famílias.
A internacionalização ou globalização dos negócios pode assumir diversas formas, consoante a natureza destes e as características dos mercados, avaliando bem as oportunidades e ameaças, e tendo a noção correcta das forças e fraquezas próprias. Desenvolvendo vantagens competitivas únicas ou superiores, e explorando os factores críticos de sucesso atempadamente identificados, a transposição das fronteiras nacionais pode traduzir-se na simples exportação de bens, serviços e ideias, internamente produzidos, ou na mais audaz deslocalização e criação de negócios no estrangeiro, frequentemente em parceria com entidades locais. A ousadia deste empreendimento pode ser assumido individualmente, mas as vantagens de o fazer colectivamente são por de mais evidentes, tanto na parcimoniosa utilização dos recursos, como nas sinergias assim obtidas.
Lamentavelmente, o nosso movimento associativo é débil e pouco actuante, porque nele deveria residir o essencial do arrojo de internacionalizar, abrindo caminhos para novos mercados e parcerias, criando bases logísticas e partilhando recursos, divulgando e influenciando, formando e informando, defendendo e protegendo, sem paternalismos, formalismos ou excessos de burocracia. É isto que outros países fazem com grande sentido de eficácia, estudando bem a realidade e planificando com rigor os passos a dar. Assim se constrói o sucesso, com inteligência, determinação e cooperação. Ao Estado pede-se que facilite e promova a iniciativa privada, tomando as medidas voluntaristas que incentivem e premeiem os empreendedores. A estes pede-se que assumam as suas responsabilidades, multiplicando o capital e criando a riqueza e o bem-estar de que o país tanto precisa.
Se Camões falava de “perigos e guerras esforçados, mais do que prometia a força humana” para “entre gente remota edificar novos reinos e tanto sublimá-los”, hoje o processo de internacionalização está muitíssimo mais facilitado, quer em termos de comunicação, quer em termos de transporte e logística. Nesta “aldeia global”, muitas vezes faz pouca diferença contactar o vizinho do lado e entregar-lhe o produto vendido, ou contactar um cliente no canto mais remoto do planeta e fazer-lhe chegar a mercadoria (que até pode ser um produto intangível, enviado por email ou descarregado num sítio virtual). Importa, naturalmente, a língua em que se comunica, razão pela qual a aprendizagem e utilização do Inglês é essencial, assim como dispor de um computador com acesso à Internet. O produto, esse, pode até não ser próprio nem nacional, quando a preferência vai para uma actividade de pura intermediação.
Embora a definição de uma estratégia internacional apresente diferenças relativamente a uma abordagem nacional ou local, faz hoje pouco sentido, em muitas actividades, pensar em termos de fronteiras físicas ou limites geográficos. Se o negócio passa pela criação de um sítio na Internet, com objectivos de comunicação e, ainda por cima, de distribuição de produtos intangíveis, o posicionamento global parece ser evidente, consumindo praticamente os mesmos recursos. Portugal tem uma grande variedade de produtos que interessam ao mundo, seja pela qualidade, seja pela unicidade ou diversidade. A par dos mais tradicionais e conhecidos, outros existem que apenas carecem de adequada divulgação e promoção, de que me permito destacar a novíssima produção artística e cultural (no sentido mais amplo do termo, incluindo a gastronomia e enologia), uma indústria com enorme potencial de internacionalização, seja exportando produtos de cultura, seja importando turistas para os consumir.

José Rafael Nascimento
jn.gazeta@gmail.com