Cristina Teotónio

Há algum tempo atrás cruzei-me com esta peça, pelas mãos do seu autor, um conhecido ceramista caldense – Carlos Oliveira. A explicação sobre a mesma e as circunstâncias inspiradoras da sua criação (relacionadas com uma catástrofe natural) sensibilizaram-me.
Outro dia, num raro momento de pausa, o meu olhar voltou a cair sobre ela (já tantas vezes o fiz…) mas de outro modo. Vivemos tempos difíceis; após um estado de emergência, em que o mundo quase parou, deparamo-nos com duras realidades e apreensivos em relação ao futuro…
As condicionantes económicas afetam e afetarão ainda muitos de nós, sobretudo os mais fragilizados socialmente. O afastamento social necessário impede-nos de tantas coisas tão importantes para o nosso bem- estar e para a nossa saúde mental. Afinal somos um povo de afetos, de abraços. Atravessamos uma época do ano em que as férias, as tradicionais festas eram um momento de reencontro de família, de amigos…. Começamos a estar todos cansados: do Covid, das “novas regras”, do afastamento. Mas afastamento social não tem forçosamente de ser isolamento social. Que saibamos olhar à nossa volta e mantendo as “distâncias”, desenvolver atitudes solidárias que nem sempre têm de ser materiais; que saibamos, obrigados a “parar” por esta pandemia, refletir sobre o nosso percurso, entender que afinal em qualquer momento tudo pode mudar. Um simples vírus, uma micropartícula, invisível, muda toda a história… E afinal, temos vivido estes tempos com tão menos e temos sobrevivido.
Como li há poucos dias, “quando partirmos não levaremos nada do que adquirimos… apenas levaremos aquilo que demos”; diria mais, apenas levaremos e deixaremos na memória o que desinteressadamente demos.
Aproveitemos, pois, estes tempos para “nos darmos”, dar o nosso tempo, desenvolver atitudes solidárias com tolerância e resiliência, certos de que tudo, embora de modo diferente, vai ficar bem…
O percurso vai seguramente ser longo, com inúmeros obstáculos, com avanços e retrocessos, mas, para que num qualquer dia, as nossas mãos se possam voltar a unir com a mesma força da imagem, cuidem-se e cuidem dos outros….
E ser solidário é também respeitar as orientações, é zelar pelo bem comum, é adotar comportamentos que nos protejam e protejam os outros, é utilizar racionalmente os recursos disponíveis, é a entreajuda. Se cada um conseguir desempenhar o seu papel de melhor forma, juntos conseguiremos!