Uma semana rica

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Telmo Faria

A semana que estamos a atravessar trouxe-nos algumas boas razões.
Das boas destaco duas: 1) primeiro, a agenda. A agenda de um território que pensa e que atrai pessoas de outras paragens do país para aqui discutirem e ouvirem as mais ricas versões e as mais empolgantes posições de variadíssimos interpretes, a começar pelos escritores. Nesta quarta edição do Folio, que decorre em Óbidos até este próximo Domingo, os debates intensos, as incríveis exposições e instalações, o trabalho lindo da Mafalda Milhões, as apresentações de livros, a discussão da contemporaneidade, são alguns dos vários eixos de um evento que faz de Óbidos o melhor lugar do país para afirmar um evento literário internacional. As características da Vila fazem-nos desligar rapidamente das rotinas e mergulhar num ambiente único, reencontrar pessoas e estabelecer proximidades com algumas das mais conceituadas ereputadas figuras do mundo da cultura.
E como temos que salientar esta vertente de discussão do que se passa no mundo dentro do Folio, um evento que não está apenas configurado para receber escritores a falar dos livros que escrevem, mas autores a darem-nos a sua visão sobre os problemas que enfrentamos, o que é bem diferente, e se me permitem, bem mais interessante. A criação das 23 mesas de autores e a programação paralela como as das editoras Tinta da China, a cargo da Barbara Bulhosa, ou da Abysmo, a cargo de João Paulo Cotrim, apesar de editoras comerciais, trazem esta perspectiva que a meu ver “humanizam” o autor, ao conhecermos melhor como pensam e como reagem em debates que tem sempre algo de imprevisível, o que os torna aliciantes exactamente por isso. Se os livros nos dão o lado “criador”, o Folio acentua o lado “pensador” e permite maior profundidade.
2) uma segunda razão tem a ver com a dinâmica da rede empresarial associada que tambémpretendeu discutir num dia da mesma semana do Folio (3 de Outubro), temas sectoriais no congresso empresarial do Oeste. Este evento, pela mão da AIRO, dá um contributo positivo na vontade que o território tem de olhar para si próprio e de tirar conclusões para futuro. Se o Folio tem uma dimensão diferente e discute uma agenda mais global e nada corporativa, este evento nas Caldas da Rainha tem a vontade de dar a conhecer as visões de alguns empresários que de alguma forma marcam o que está a ser feito no terreno/território. Seria talvez de repensar o calendário ou de repensar como os diferentes papéis se podem ajudar mutuamente no futuro numa conciliação amiga e construtiva.
3) Por último, a CTP assinalou o dia mundial do Turismo, e trouxe o estado actual do aeroporto de Lisboa para a agenda política com a demonstração das perdas e dos custos que está a provocar ao país o atraso pela falta de resposta aeroportuária. Percebo a dificuldade e a complexidade de inverter esta decisão de fazer um pequeno aeroporto complementar da Portela no Montijo e que tem como grande trunfo ser “mais barata” que Alcochete e que a Ota. Apesar dos contornos do estudo de impacto ambiental estarem na base do atraso do processo, os custos já identificados nos movimentos aeroportuários são já superiores a 100 milhões/ano e a falta de garantia objectiva de ser uma solução para 50 anos, como deve ser a construção de um novo aeroporto, parece-me muito evidente. Mas enfim, as lutas políticas são duras e acho que valem a pena. O pior é baixar os braços e nesse aspecto senti que isso aconteceu na região, o que é sintomático para o posicionamento futuro do Oeste no contexto nacional. No passado fizémos um congresso de toda a região em Alcobaça só para afirmar a importância do novo aeroporto de Lisboa na Ota e foi António Costa que no Governo de Sócrates nos ajudou. Se o PS não tivesse metido os pés pelas mãos teríamos injectado mais de 300 milhões de fundos europeus no período de intervenção externa, dimensionado o aeroporto para 50 milhões de passageiros/ano (o dobro do actual que está saturado com 26 milhões de movimentos) e teríamos o problema resolvido.