Efeméride – 172 anos de Rafael Bordalo Pinheiro (1846 – 1905)

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Gazeta das Caldas
Isabel Castanheira

Justifica-se relembrar uma data passados que são 72 anos? A meu ver sim, tanto mais que é a data do nascimento de Rafael Bordalo Pinheiro – 21 de Março de 1846.
E muito do que é hoje a cidade das Caldas da Rainha, deve-o em parte ao facto deste homem enérgico e imaginativo ter vindo estabelecer-se por cá com a sua Fábrica de Faianças, que à data exerceu uma força motriz e de modernidade que se foram esbatendo ao longo dos anos, devido a vários fatores negativamente influenciadores.
Bordalo, homem de grande criatividade, foi como sabemos caricaturista, pintor, ceramista, decorador e tantas coisas mais, mas um aspecto menos conhecido da sua faceta criativa é a de ilustrador de livros.
E este seu trabalho permitiu que tenham chegado às nossas mãos um sem número de livros, romances ou não, enriquecidos pela arte ilustrativa de Rafael.
Num artigo deste género que obedece a uma limitação de espaço, não nos será possível uma enumeração exaustiva das suas obras. Assim sendo esta crónica será uma modesta homenagem ao talento de Rafael Bordalo, a data do seu nascimento, em que darei realce a umas quantas ilustrações da sua autoria e que enriquecem as obras literárias onde foram incluídas.
Uma pequena jóia desse rico manancial, ainda por estudar, é sem dúvida a 1ª. Edição de «O Demónio de Ourao» editado em 1873/174 da autoria do nosso muito respeitável e infeliz Camilo Castelo Branco. Das 4 ilustrações contidas nesta obra, todas a preto e branco, reproduzimos uma que retrata uma conversa bastante agreste entre duas personagens femininas, de acordo com o conteúdo do romance.
Rafael também ilustrou populares romances franceses e espanhóis, quase todos em vários volumes. Entre os primeiros podemos ler “Os Fantoches de Madame Diabo”, vindo a luz em 1883, de onde destacamos a aguarela acima representada, onde nos é dada a conhecer uma elegante senhora, requintadamente vestida e que se apoia num vaso de cerâmica decorado em tons de azul; talvez este vaso tenha no futuro servido de inspiração a uma qualquer peça manufaturada na Fábrica de Faianças de Caldas da Rainha.
Alguns dos livros são ilustrados a cores e outros a preto e branco.
O romance da autoria do castelhano Enrique Perez Escrich, traduzido em 1880, é ilustrado a branco e preto, e a obra de Rafael é marcada por uma grande riqueza de pormenores, como se pode ver neste extratexto em que um adulto conta uma história a um grupo de miúdos que atentamente o escutam.
Quase todas as obras traduzidas são publicadas em mais de volume, por isso poem à nossa disposição um conjunto riquíssimo de ilustrações rafelianas, para nosso prazer e deleite.
Todos nós sabemos que Rafael, também ilustrou jornais, almanaques, e a título de curiosidade apresento-vos a capa do “Almanaque do Diário de Notícias”, para 1881, decorado a cores, em que o autor recorda o seu saudoso Brasil.
Esta é uma mínima amostra do trabalho ilustrativo de Bordalo. À nossa conta já conseguimos identificar mais de 150 obras gráficas que contaram com a colaboração Bordaliana. Podemos não gostar da obra de Rafael e descobrir mil e um defeitos; mas considera-lo preguiçoso é coisa que nunca poderemos fazer. É meu grande desejo, que um dia consiga fazer o levantamento total da obra ilustrada de Rafael Bordalo Pinheiro.
Assim me ajude o conhecimento, o engenho e as dores as costas…
Talvez nessa data já me seja possível tomar um cafezinho em companhia dum Bordalo instalado numa esplanada da nossa cidade…

Isabel Castanheira