Elogio da Imperfeição – Não sentir saudade

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Noticias das Caldas
| D.R.

A médica de família tinha feito o pedido com indicação de urgente e telefonado, a reforçar. “Dá lá um jeitinho… estou mesmo preocupada… a senhora está lá fora, veio por queixa de dores articulares que a incapacitam… mas eu acho que está deprimida, muito deprimida… e parece-me haver risco de suicídio… o marido morreu há cerca de um mês, os filhos já são adultos… ficou sozinha… não sei… senti-a tão queixosa e ao mesmo tempo tão desprendida da vida… e tive uma trabalheira a convencê-la a ir a uma consulta de psiquiatria… se demorar muito tempo, se calhar já será tarde… ou então ela não vai… vá lá… arranja aí um tempinho…”.

Lembrei-me do jogo, “passa ao outro e não ao mesmo”… Lá estávamos nós a gerir a falta de tempo e de recursos… a tentar disfarçar os buracos e as falhas… a angústia de que a resposta necessária não chegasse a tempo… acabei por dar uma data e uma hora… arriscava o almoço e a pausa… mas pronto… até podia ser que faltasse alguém e que conseguisse não me atrasar muito…
Na consulta entrou uma mulher de 60 anos, com ar envelhecido e desesperançado.
Sem querer, já com fome e atrasada, tinha pré desenhado um cenário na cabeça… e fui fazendo as perguntas… e ela foi falando… da sua tristeza, da falta de energia e de ânimo… das dores com que se deitava e acordava…
A certa altura olhou para mim… endireitou-se na cadeira e perguntou: “A doutora acha que eu estou assim porque o meu marido morreu?… Porque sinto a falta dele?…” Foi a minha vez de me endireitar na cadeira… e perceber que não era para dizer nada… que era um momento de ouvir… “pois olhe… vou-lhe dizer uma coisa… se calhar tenho mesmo que dizer isto a alguém… sabe o que é que me está a matar?… Não são as saudades dele… é o contrário… é sentir que não tenho saudades de nada… que ele morreu e que não sinto a falta de nada com ele… que não há nada que eu goste de lembrar ou que foi bom vivermos juntos… o meu casamento foi uma tristeza… uma solidão… nem as coisas boas com os filhos foram partilhadas… nada… só obrigações e proibições… fazer comida, tratar da casa, da criação, ajudar no campo, criar os filhos… não poder ter profissão porque havia muito para fazer em casa… não tirar a carta porque não precisava… e ser doméstica… trabalho sem ordenado…”.
Eu continuava em silêncio… surpreendida pela inteligente e dolorosa lucidez daquela mulher…
“… O que me está a matar é ter vivido quase 40 anos com um homem e não ter nada de bom para chorar… e agora?… O que vou fazer à vida?… agora com esta idade como vou recuperar deste vazio?… Um dos meus filhos já me disse que agora tenho mais tempo para cuidar dos netos… Já viu?… Eu gosto dos meus netos… mas já estão a decidir outra vez por mim… como se a minha vida não me pertencesse… como se tivesse sempre que estar às ordens de alguém… Eu sei que isto até parece mal… que posso parecer fria e má… mas não aguento… para viver assim… uma morta viva, prefiro morrer e pronto… acha que alguém vai entender isto?…”.
Falámos muitas outras vezes… falámos da vida e da morte… falámos dela… falámos do passado e do futuro… e assisti à construção de um presente…
E, desde aquela primeira conversa, cada vez que alguém fala da falta e de saudade, lembro-me dela… tinha toda a razão… O que dói mais é mesmo não sentir saudades de nada…

Paula Carvalho
paulatcarvalho@gmail.com