Elogio da Imperfeição | O Senhor Pierre

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Gazeta das Caldas

Hoje gostava de lhe falar do meu padrinho.
Tem quase 90 anos, está num lar… e é uma pessoa invulgar. Era amigo do meu pai.
É filho de mãe solteira e nunca quis saber quem era o pai. A mãe era uma mulher bonita e com o seu quê de altivo, que assim se manteve até morrer.
Bonita e elegante como era, despertava amores e paixões e ficou grávida do homem errado, no momento errado e no lugar errado. O jovem era de outra condição social e económica e jamais casaria com ela. Foi-lhe proposto fazer um desmancho ou casar com alguém que aceitasse a paternidade… com dinheiro tudo se arranjaria.
Segundo disse ao meu pai, desde pequeno sabia desta história contada pela mãe. Que ela tinha ficado ferida e revoltada. Que não era gado de ninguém. Que era gente. Que tinha decidido fugir daquele lugar, daquela terra, daquela gente. Que tinha que poder fazer escolhas. Que ele, filho, era fruto dessas escolhas. Que ela tinha decidido tê-lo e criá-lo. Por isso nunca tinha perguntado quem era o pai, nem querido conhecê-lo… Escolhas são escolhas…

A mãe arranjou trabalho numa quinta onde acabou por conseguir uma posição confortável e um sítio para criar o filho e lhe dar educação. Foi aí que o meu pai e o meu padrinho ficaram amigos. O meu pai era o filho do caseiro e as mães trabalhavam juntas e eram amigas.
O meu padrinho sempre foi um homem bonito e também ele, facilmente despertava amores e paixões. O meu pai contava que ouvia a minha avó comentar com a mãe dele que ela tinha que ter cuidado com ele… que o filho um dia ainda se envolvia com a mulher errada… que por muito inteligente e bonito que fosse, estava preso na sua condição de pobre.
Um dia, à laia de despedida, o meu padrinho informou que tinha tudo tratado e que ia para França… a salto… Que tinha falado muito com a mãe… que se sentia sempre entre dois mundos e que não conseguia estar confortável em nenhum. Que havia escolhas que não dependiam dele, mas do lado da vida em que tinha nascido… que tal como a mãe, ele também queria poder escolher. Que a mãe lhe tinha dado força, apesar do medo e da angústia do risco. Que não tinha criado um pássaro de gaiola. Que tinha a bênção dela.
Manteve sempre o contacto connosco. Foi motorista particular e trabalhou para gente importante. Ganhava bem e teve uma vida cheia de histórias e peripécias. Nunca casou, nem teve filhos. Dizia ao meu pai que nunca tinha encontrado a mulher certa, no momento certo e do lado certo da vida.
No funeral do meu pai veio falar comigo. Disse-me que confiava em mim. Que eu era a família dele. Que estava a sentir-se velho e com vontade de vir para Portugal. Que não me queria dar trabalho e pediu-me para o ajudar a encontrar um lar onde gostasse de ficar. Que só me pedia duas coisas. Que garantisse o ele poder continuar a vestir as suas roupas elegantes e de bom corte e, que nunca permitisse que lhe roubassem a dignidade nem os hábitos que fazem parte da sua pessoa.
Tenho cumprido a promessa. Tratam-no por senhor Pierre, pois deixou de responder pelo nome em português e contam-me que quando se olha ao espelho, comenta em voz alta, geralmente em francês, não saber quem é aquele velho que está a olhar para ele. Mantém-se elegante e educado, gentil para todos, sem dar grande confiança a ninguém.
Dizem que tem demência… não sei, não sou médica… mas para mim, ele continua a fazer as suas escolhas…