Este Consumo Que Nos Consome – A HIPERESCOLHA TRARÁ A FELICIDADE? Obra indispensável para conhecer o consumo e os consumidores

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“A Felicidade Paradoxal, ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo”, do filósofo Gilles Lipovetsky, é seguramente o olhar mais completo e actual que tenho a propor ao leitor (a par dos memoráveis trabalhos de Manuel Castells sobre a sociedade em rede e os de Robert Rochefort sobre a sociedade dos consumidores em tempo de globalização) para a compreensão do mundo em que vivemos: a economia centrada na procura, um sistema assente no accionista e no consumidor, a tirania presente, a moral do prazer o do conforto, aqui e já (Edições 70, Dezembro de 2007).
É um grande ensaio onde se dissecam as diferentes fases do capitalismo de consumo actual e as formas como este se representa: a medicalização e o culto do corpo, o entretenimento da compra (um misto de compra e decepção perpétua); como vivemos a organização pós-fordiana da economia e nos comportamos como turboconsumidores. Após este olhar de enquadramento, o filósofo convida-nos a procurar o sentido em torno dos sinais deste jardim das delícias em que o consumo é o nosso templo e o nosso corpo: a permanente frustração mesmo quando compramos cada vez mais coisas, sem encontrar uma qualquer chave da felicidade; a contradição entre o prazer privado e o desconforto público, a avidez de coisas que ajudem a superar múltiplos fracassos ou desilusões; a aparente tragédia da abundância em que estamos expostos à violência das imagens e os mais desfavorecidos resignados a todo o tipo de exclusões, depois de quase dois séculos de luta a caminho da equidade; o quotidiano tornado lúdico, disfarçado de conforto, de vida melhor, de requalificação urbana, de equipamentos de multi-segurança capazes de proteger, prevenir e minimizar os riscos; um mundo em que a felicidade alimentar já não encontra a sua expressão no banquete mas na sensualidade da degustação e na procura das qualidades gustativas; a obsessão pela performance (dos desportos ao mundo empresarial, do sexo à saúde, andamos a explorar as nossas potencialidades até ao limite); cúmulo do hedonismo, mergulhamos em dopagens, à procura de sensações exóticas, da proeza arriscada, sofrendo de solidão, de dúvidas a nosso respeito, sentindo que a felicidade não progrediu. Então, o filósofo pergunta: se a ideologia do capitalismo de consumo é dar-nos a felicidade através da técnica e da profusão de bens materiais, o que é que nos leva a estar permanentemente decepcionados, clivados entre a felicidade materialista e a felicidade espiritual?

A utopia do homem feliz

Desde o Século das Luzes que os pensadores asseguram que o homem nasce para ser livre e feliz, competindo aos moralistas esclarecer os seus semelhantes acerca de tudo o que é necessário para alcançar essa vida. Com a sociedade de consumo, as promessas de progresso propõem a felicidade através da técnica e da profusão de bens materiais. O nosso conforto e bem-estar, a matriz da modernidade individualista e mercantil em que vivemos, gerou também uma condenação que é de culpar o consumidor pelas ameaças ambientais globais. Se há 40 ou há 30 anos atrás o consumidor era encarado como uma vítima do sistema, agora é metido no banco dos réus e só poderá ter absolvição se contribuir para salvar o planeta, consumindo de outra maneira. Daí a polémica se esta sociedade de hiperescolha pode inverter a sua marcha pondo termo ao consumo desregrado e avassalador. Acontece que a sociedade em que vivemos se impõe como o nosso único horizonte, a despeito de haver mudanças na estrutura da produção e do consumo de que o consumo de serviços é o seu indicador preeminente. Este tipo de consumo é de facto mais económico em termos de energia, menos prejudicial aos recursos naturais, mas estamos longe de supor que é por via deste consumo de serviços que vamos solucionar as mais graves questões ambientais. Seja como for, sem a reformulação das práticas de consumo desenfreadas não será possível um melhor viver para todos.
Voltemos à felicidade neste tempo em que se fala de responsabilidade, do consumidor e da responsabilidade social. Que a felicidade espiritual continua a ser um problema central do nosso tempo, temos inúmeros exemplos: a busca de equilíbrio interior vendido em medicamentos, em conforto emocional e psicológico, em espiritualidades religiosas e laicas, no pensamento mágico, a escavar todas as emoções da sabedoria, com gurus, xamãs, mestres do zen e outros sacerdotes e místicos. Quando não se atinge a felicidade precária voltamo-nos para a ética: o consumo frugal, a simplicidade, o controlo das biotecnologias, saber os limites da eutanásia, como reagir ao assédio moral, saber se devemos ser rígidos com a negação do véu islâmico ou com o casamento dos homossexuais. Igualmente caminhamos para novas propostas de felicidade através das paixões, pela conquista e pelo risco de que os desportos radicais são uma simples amostra, apontando para o desfrute e a realização plena do corpo e do espírito.
Cheia de contradições, a nossa sociedade propõe outras vias para obter a felicidade: servir os outros através do voluntariado ou da religião, rejeitar os excessos (mesmo sem definir quais e quantos), corrigir os desmandos do mercado através de uma educação que proponha a equidade baseada na cidadania, etc. Sucede, e sabe-se desde Pascal que não somos anjos nem bestas, uma filosofia da felicidade terá de ser forçosamente desunificada e pluralista, nós mudamos ao longo da vida, a felicidade não é unilinear nem um processo meramente evolutivo. Este sentimento tem de ser reinventado, ele é um dos motores da nossa existência, leva-nos a procurar melhores condições de vida, estima, respeito e amor. A felicidade pode ser o que cada um lhe atribui, o que parece indesmentível é que não há certezas que a sociedade do hiperconsumo, por si só, nos conduza em estrada triunfal até à alegria de viver.
Este magnífico ensaio de Gilles Lipovetsky é indispensável a vários títulos: leva-nos a compreender o faseado do capitalismo de consumo, como se organiza o material e o imaterial, como de consumidores passámos a hiperconsumidores, qual a lógica que assiste à mercantilização das nossas atitudes e valores; lança um profundo olhar sobre as decepções no consumo, em associação com o nosso trabalho, o uso do nosso tempo e o triunfo do indivíduo; e questiona se, através das nossas experiências emocionais, dos processos de autenticidade, de comunicação, da euforia pelo lúdico, pelo hedonismo conseguimos a felicidade ou se tal utopia é corrigível.
Quem trabalhe em qualquer domínio do consumo ou da política dos consumidores não pode ignorar este livro. É imperdível, tal a vastidão dos olhares e a abertura de horizontes.

Beja Santos